Sobre Natal e consumo


Há em nós um desejo intenso por superação. Não há quem não queira, de alguma forma, ir além do estado atual das coisas. É o que, filosoficamente, se denomina transcendência.

Embora seja tema predileto nos discursos religiosos, transcendência é faculdade humana e histórica, antes de ser exclusivamente teológica.

Esse impulso é que faz mover a sociedade. É o que torna possível o avanço do conhecimento, da tecnologia, das relações e, acima de tudo, da consciência.

Superar significa, nesse sentido, mirar os olhos adiante, naquele ponto onde a utopia se encontra com a realidade e a ilumina.

As religiões participam dessa busca utópica porque entendem que sua verdade não é deste mundo. Ao contrário, apregoam que o destino humano é a ruptura com a vida tal como ela está.

Com terminologias distintas, cada edifício religioso anuncia, então, salvação; que é, na verdade, transcendência direcionada a um ponto específico. Dependendo da religião que se confesse, salvação é a superação da realidade que impede o crescimento e atrapalha o aperfeiçoamento do indivíduo e da sociedade.

No Cristianismo, o Céu é uma espécie de utopia perdida e novamente buscada. O paraíso que, nas palavras de Carlos Mesters, ao mesmo tempo, é saudade e esperança!

Esse ideário forjou os pilares da sociedade ocidental e, no seu bojo, as muitas formas de ver e agir ao longo da história. A ideia, por exemplo, de progresso é, de certa forma, subsidiária dessa noção basal. O sentido da vida está em progredir. Sair de onde está e ir em direção a um ponto adiante, tanto no tempo quanto no espaço. Assim se faz a leitura sobre a caminhada de Abrão, do êxodo desde o Egito, de Jesus como Caminho!

Essa mesma ideologia lançou as bases dos sistemas econômicos dominantes na sociedade hodierna. O consumo passou a ocupar o principal posto no projeto emancipatório dos indivíduos. Consumir significa realizar desejos e, como tal, atender ao pedido oculto que mora dentro da pessoa e torná-la saciada. Realizar a transcendência!

Essa premissa, todavia, carece de um elemento importante. O desejo transcendente não é saciado por isso ou por aquilo. Quem deseja, deseja tudo, nada menos que tudo. Por mais rico que seja, por mais condições que se tenha, nunca será possível ter (possuir) tudo. O tudo que se deseja não está à venda. Não há dinheiro capaz de adquiri-lo.

O que se deseja, transviado pela ilusão que a compra sugere, é alcançar o verdadeiro sentido que a vida pode ter. E isso foi tão bem compreendido pelo mercado que esse importou as estratégias das religiões e vende, mais que mercadoria, o significado que cada item simboliza. Os bens são mais do que a matéria que lhes conforma, são aquilo que simbolizam.

O mais inteligente no mercado contemporâneo é sua capacidade de atribuir sentido e status aos produtos e capitalizar, assim, o desejo infinito que mora no consumidor potencial que está dentro de cada indivíduo, sempre cheio de lacunas e aspirações.

A coroação maior desse culto ao consumo é o Natal ocidental. O apelo religioso da festa natalina incentiva o consumo e esse, por sua vez, dita o propósito e o sentido da festa do nascimento do Cristo. Que engenhosidade está por trás desse esquema de marketing difuso e subliminar! Afinal, quem não merece um presente?

Os evangelhos da infância de Jesus, entretanto, anunciam uma realidade completamente oposta a essa forma de realizar a transcendência.

O casal de Nazaré que o diga! Se de Magos orientais receberam presentes simbolicamente significativos (porque extrapolavam os limites da palavra e da lei) e dos pastores receberam a saudação que só gente simples sabe fazer, dos homens da cidade receberam uma jura de morte.

O Natal do mercado é como o presente de Herodes. Para se manter vivo é indispensável matar Jesus.

Eis o que vejo sobre o Natal que cultivamos ano após ano. Emerge de um desejo genuíno por superação, mas esbarra inevitavelmente nas armadilhas que a sociedade de consumo sutilmente arma sob nossos pés: comprar mais e mais na tentativa de aplacar a sede de transcendência.

O que se vê, porém, é o retorno constante do desejo de ter mais e a plena frustração da alma como recompensa. Os presentes deixam de ser meios pelos quais a pessoa amada se faz presente e se tornam fins em si mesmos; e, como tais, descartáveis rapidamente.

Diferente do incenso presenteado na pobre manjedoura de Belém que inundou o ambiente com um perfume sereno, o Natal nosso de cada ano se esvai como fumaça dissipada pelo vento, inutilmente!

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