Natal - sobre Deus e a simplicidade


Escrevo sobre o Natal com muito prazer e alguma dor. Esse exercício me ajuda a manter em dia a fé e os pés.

De um lado, a beleza e a ternura do presépio e sua simbologia; de outro, o incômodo da dúvida sobre um Galileu do primeiro século, cujas histórias e experiências se parecem tão pouco com as dos deuses.

Essa mescla, a mim, me é muito saudável. Fé e dúvida. Esperança e resignação.

A forma tradicional de se contar as histórias do Natal faz a gente acreditar em coisas muito simples e isso faz bem ao coração.

Faz crer no poder da simplicidade de José e Maria. Faz confiar na força do amor entre as pessoas. Faz compreender a harmonia profunda que há entre gente, bichos, estrelas e plantas.

Abre os olhos, também, para a arrogância de Herodes. Faz despertar a crítica pela prepotência dos fortes. Faz perceber o quão vulnerável à cobiça e à inveja é o espírito humano.

Faz descobrir um Cristo que optou pela escória e que denunciou o sistema que a produziu.

Nas histórias em torno de Jesus e de seu nascimento vicejam símbolos, valores, palavras e sentimentos que traduzem a ambiguidade que é a existência humana. Uma mistura de bem e mal, e de todos os tons que há entre um extremo e outro.

Via de regra, gostamos muito de espetáculo; a forma de contar as histórias de Jesus de Nazaré, no entanto, é tão simples que incomoda os ouvidos acostumados ao fantástico e ao inacreditável. Talvez tenha sido por isso que essas mesmas histórias foram ganhando outras notas e ornamentos. É a tentativa de sempre: fazer do simples, complicado. E aí a fé se transforma em delírio.

O Natal desmonta o edifício religioso. Toda teologia se esvazia na mais radical antropologia. Não é o homem chamado à divindade. Ao contrário, Deus habitou, em definitivo, a história e a carne humanas.

Não há, a rigor, muito a ser dito sobre o Natal. Há apenas que relembrar: num dia, Deus se fez homem, numa estrebaria de animais, porque não havia lugar na hospedaria dos homens. Mais do que isso é invenção e fantasia.

Enfim, Deus não está "lá". Deus mora "aqui". Conosco. Emanuel.

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