Torcer, verbo reflexivo
- Ricardo Lengruber

- 19 de jul.
- 4 min de leitura
“El mundo al revés premia al revés.”
(Eduardo Galeano)
A Espanha é campeã do mundo. Bastou um gol de Ferran Torres na prorrogação, neste domingo, em Nova Jersey, para vencer a Argentina por um a zero e encerrar a Copa de 2026. Dois números resumiam a tarde: os trinta e nove anos de Lionel Messi e os dezenove de Lamine Yamal. Entre um e outro, uma fotografia antiga e um mundo de cabeça para baixo.
Torci pela Espanha. Escrevo a frase e ela me estranha. Torcer, em português, confessa o que outras línguas dissimulam: vem do latim torquēre, retorcer, contorcer. O espanhol se hincha, quer dizer, infla; o inglês apenas apoia; só nós nos torcemos. Neste domingo, o verbo cumpriu à risca sua etimologia: latino-americano, torci pelo velho império, e torcer pelo colonizador é, no rigor da palavra, torcer-se.
Não me moveu a rivalidade de vizinhos, folclore que a bola alimenta e perdoa. Moveu-me algo anterior ao jogo. Seleção é palavra que denuncia: nomeia o que um país seleciona de si para expor ao mundo. E a Argentina, há gerações, seleciona-se branca. Los argentinos descienden de los barcos, repetiu certa vez um presidente da República, como quem enuncia uma evidência. O ditado descreve menos uma origem do que um desejo: o de descer dos navios europeus para não descender nem dos povos da terra nem dos porões negreiros. Buenos Aires já foi um terço negra; guerras, febres e recenseamentos encarregaram-se do apagamento. Em 2024, campeões do mundo entoaram em coro, transmitidos ao vivo para milhões, uma cantiga que reduzia os jogadores da França à sua ascendência africana. Ninguém desafinou. O racismo, ali, não era acidente; era projeto. Vitrine de um país que há dois séculos ensaia não pertencer à América Latina, a seleção argentina desligou-se do continente mestiço que a viu nascer.
O dedo que aponto devolve três contra mim. Já escrevi, noutro lugar, que narrar a história apenas a partir dos europeus é embranquecê-la e elitizá-la; escrevi também que, por aqui, fingimos democracia racial no faz de conta do carnaval e do futebol. O Brasil não mira a Argentina de cima; mira o irmão no espelho, com a diferença de que o espelho argentino foi polido para devolver somente rostos europeus.
Do outro lado do gramado, contava-se outra história. Em 1492, Granada caiu e o último reino mouro deixou a península. Em 1492, os judeus receberam a escolha entre a conversão e o exílio. Em 1492, as caravelas partiram para inaugurar na América a longa noite colonial. Pois a Espanha que ergueu a taça em 2026 foi conduzida por Lamine Yamal, dezenove anos, filho de pai marroquino e de mãe vinda da Guiné Equatorial — a única colônia que a Espanha manteve ao sul do Saara. No banco aguardava Nico Williams, cujos pais atravessaram o deserto a pé e saltaram a cerca de Melilla para que os filhos nascessem do outro lado. A pátria dos Reis Católicos tornou-se campeã do mundo pelos pés dos netos daqueles que um dia expulsou.
O menino celebra desenhando com os dedos um número: 304, código postal de Rocafonda, bairro operário de Mataró onde cresceu entre imigrantes. Não é jogada de marketing; é endereço. A periferia do mundo entrou em campo e recusou-se a esquecer de onde veio.
Semanas antes da Copa, sobre o ônibus do título do Barcelona, o mesmo menino pediu à multidão uma bandeira da Palestina e a ergueu. O treinador torceu o nariz; um ministro de Israel acusou-o de fomentar ódio; de Gaza, um estudante escreveu que catorze segundos bastaram para fazê-lo chorar. Chamar de ódio a compaixão é o velho ofício dos impérios. A taça deste domingo também acena para um povo cujas festas viraram luto.
Resta a fotografia. Dezembro de 2007: num ensaio beneficente da Unicef, um argentino de vinte anos dá banho a um bebê de seis meses numa bacia. O rapaz era Messi; o bebê, Lamine. Dezenove anos mais tarde, reencontraram-se numa final de Copa do Mundo, e o batismo cumpriu-se ao avesso. Messi, o argentino que aos treze partiu para Barcelona atrás do hormônio que seu país não podia pagar, encerrou ali, tudo indica, a travessia com sua seleção; venceu-o o menino catalão que a África deu à Espanha. Ícones em quiasmo: o rosarino fez-se em Barcelona; o barcelonês refez a Espanha. Alguém ainda duvida de que, como no Evangelho, os últimos serão os primeiros?
Nada disso coube na liturgia do espetáculo. Antes de a bola rolar, Hollywood subiu ao palco para proclamar, em inglês, que aquilo era unity e greatness. Já observei, noutro lugar, que tudo o que se espetaculariza se torna efêmero e mercadoria; a Copa, inchada até quarenta e oito seleções, vendeu comoção como quem vende camisa. A bola, teimosa, contou a história que não estava no roteiro.
Torci pela Espanha, eu que venho de terra saqueada por impérios ibéricos. Torci e me torci. Volto da tarde com uma suspeita de esperança: se o filho do imigrante ergue a taça do império que levantou cercas contra os seus, então a pátria não é sangue; é abraço. O mundo segue de cabeça para baixo. Mas há domingos em que, olhado do avesso, ele parece enfim começar a pôr-se de pé!
Prof. Ricardo Lengruber





Te ler é outro verbo reflexivo!
Que texto, meu amigo! Parabéns pela eloquência.
Emocionada, ao ler seu texto !