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Profissão de fé

16 de ago.
5 min de leitura

E plantou o Senhor Deus um jardim no Éden.

(Gênesis 2,8)

 

Profissão de fé, no vocabulário das igrejas, é o ato de declarar em público aquilo em que se crê. Nos formulários, profissão é outra coisa: é o campo que me constrange nas recepções. Semana passada, no laboratório, em jejum e sem paciência, lá estava ele outra vez, seguido de uma linha do tamanho de um suspiro.


Escrevi "professor".

O teólogo que mora em mim sentiu-se omitido. O advogado, de plantão até quando dorme, murmurou qualquer coisa sobre falsidade ideológica. Expliquei aos dois que a linha era curta. Não se deram por convencidos.

 

Convivo há décadas com a pergunta, feita ora com curiosidade, ora com espanto: o que têm em comum o púlpito, a lousa e a tribuna? Já respondi que nada. Um olha para o céu, o outro para as crianças, o terceiro para os prazos. A resposta é preguiçosa, eu sei. Certas perguntas alheias demoram a virar nossas.

 

Repare-se, de saída, na roupa. O juiz veste toga; o formando, beca; o ministro religioso, veste talar. As três são pretas, compridas e solenes. Pode-se dizer, com alguma ironia, que são os três ofícios que se vestem de luto para lidar com a palavra. Preto é a cor de quem não pretende ser interrompido. E todas, em algum sentido, sintetizam e simbolizam uma fé. Sim: julgar, ensinar e pregar são gestos de quem se arvora razão e, messianicamente, alguma missão.

 

O vocabulário entrega o resto do parentesco. O juiz profere sentenças; o gramático as analisa; Salomão as colecionava. A teologia anuncia a graça; a Constituição a concede; a escola pública ensina de graça. A escola oferece recuperação ao aluno; a lei, à empresa que quebrou; a fé, ao pecador. O aluno treme diante da prova; o advogado vive de produzi-las. Há uma terceira prova nessa história, mas deixo para mais à frente.

 

Foi relendo o Gênesis que entendi a origem da parentela. Escrevi certa vez um livro inteiro sobre aquele jardim e só agora percebo o que ele também era: o primeiro templo, a primeira sala de aula e o primeiro tribunal.

 

A aula inaugural está no segundo capítulo. Deus conduz os animais até o homem para ver como ele os chamaria: atividade de nomenclatura, sem apostila e sem diário de classe. E com um detalhe que nenhuma pedagogia teve coragem de repetir: o nome que o aluno desse, esse ficava valendo. Nunca mais um professor acatou todas as respostas. Lembrei-me aqui da cena do filme Deus é brasileiro em que Ele concorda que vaca ser chamada de vaca veio bem mesmo a calhar.

 

A primeira lei também está lá, e era de uma economia admirável: da árvore do conhecimento não comerás. Artigo único. Sem incisos, sem parágrafos, sem vacatio legis. Nenhum código foi tão breve desde então. Nem tão descumprido – para nossa sorte.

 

E havia uma advogada no jardim. A serpente, diz o texto, era a mais astuta entre todos os animais do campo; astúcia, em certos foros, é quase um elogio profissional. Ela não mentiu: ela apenas perguntou. É assim que Deus disse? Foi a primeira sustentação oral da história, e o método era o de sempre: relativizar o texto legal e prometer aos clientes um futuro glorioso: “sereis como deuses”. Ganhou a causa, cujos clientes pagaram as custas.

 

O processo que se seguiu tinha tudo o que os fóruns conhecem. Houve a chamada, “Adão, onde estás?”, que é também a pergunta que todo professor dirige ao fundo da sala. Houve o interrogatório. E houve a tese de defesa que atravessaria os séculos: a culpa é da outra parte. Adão apontou para Eva. Eva, com técnica mais apurada, apontou para a própria advogada. A manobra teológica no tribunal faria escola.

 

Veio, enfim, a pena. O primeiro casal foi também o primeiro caso de expulsão, palavra que o paraíso e a escola compartilham até hoje. Mas o relato guarda um detalhe que costuma passar despercebido, e é o que mais me comove: antes de mandá-los embora, o juiz costurou túnicas de pele para os réus. Condenou e agasalhou. Nenhum tribunal repetiu o gesto.

 

Quase escrevi tudo isso no formulário do laboratório. Contive-me, por respeito à recepcionista. Pensei, então, na saída erudita: professor vem de professar, que é declarar diante de todos aquilo de que se vive. O fiel professa o credo; o docente professa a matéria; o advogado, ao menos no dia do juramento, professa também. Uma única palavra abrigaria as três vidas. Quase.

 

Porque resta aquela terceira prova, a que prometi voltar. A fé, diz a Escritura, é a prova das coisas que se não veem. Passei a vida entre provas: corrigi milhares, produzi algumas, anulei poucas. Essa é a única que não corrijo — é ela que me corrige, ou, ao menos, me constrange.

 

Na próxima vez, portanto, não escreverei teólogo, nem professor, nem advogado. Há um ofício anterior aos três, confiado ao homem quando ainda não havia códigos, escolas nem credos: cultivar e guardar um jardim. Rubem Alves desconfiava que Deus, ao criar o universo, tinha em mente uma única palavra, e a palavra era jardim. É o que tento, com ferramentas tortas: cultivo a fé, cultivo os alunos e, nos autos, cultivo alguma justiça possível. Por isso, escrevi até livro com esse título. Cabe na linha, dispensa explicações e tem ótima fundamentação bíblica.


Profissão: jardineiro!

 

Devo, contudo, uma confissão, antes que algum leitor me acuse de resolver com uma palavra o que a filosofia, ou a psicologia, não resolveram com bibliotecas e séculos de análise.


Há uma parábola que os céticos contam bem. Dois exploradores encontram, no meio da mata, uma clareira coberta de flores. Um conclui: existe um jardineiro que cuida disto. O outro duvida. Montam vigília, cercam o terreno, soltam os cães; ninguém aparece. O crente ajusta a hipótese: o jardineiro é invisível, intangível, imune a cercas e a faros. O cético, então, pergunta o que restou dela: em que difere um jardineiro invisível, intangível e para sempre ausente de um jardineiro que não existe? Antony Flew, o filósofo que afiou essa história, foi o ateu mais citado do século passado. No fim da vida, para constrangimento dos discípulos, passou a admitir alguma espécie de inteligência no canteiro.


Guardo da parábola as duas pontas: a pergunta do cético corrige a minha fé; a velhice dele corrige a minha dúvida.

 

Foi por viver entre essas duas correções que devolvi, faz pouco, as credenciais de pastor. O púlpito pede certezas em dose semanal, e a minha colheita sempre foi irregular; nunca soube crer sem perguntar, e a instituição prefere respostas. Saí quando entendi que ela trocaria, sem muita cerimônia, o jardim por um condomínio. Devolvi os papéis. As perguntas, ninguém aceita de volta. Até porque nunca tiveram, ou fingiram não ter, a mesma curiosa coragem de perguntar.

 

Do direito, guardei o diploma e certa gratidão pelo que ele me ensinou sobre o mundo. Mas nunca advoguei de fato, nem prestei concurso para carreiras que sentenciam. Releio o episódio das túnicas e me entendo: o juiz do Éden condenou e agasalhou; eu só teria mãos para a segunda metade do gesto.

 

Sobrou a sala de aula, que é jardinagem de pessoas. Conheço as limitações do ofício: o solo nem sempre quer, a estação nem sempre ajuda, a colheita costuma chegar quando o jardineiro já se foi. Sei que é utopia e sei que é ilusão, as duas coisas concomitantemente; desconfio que seja essa a definição mais honesta de semear. Planto, num chão que não me pertence, flores que não verei abrir.

 

Há dias em que duvido do Jardineiro. Do jardim, nunca.

Prof. Ricardo Lengruber



 
 
 

2 comentários

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Ney Camargo
16 de ago.
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Excelente! Interessantes comparações! O que uma igreja, um tribunal e uma escola podem ter em comum???? Um pouco mais do que eu pensava!

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Levy Bastos
16 de ago.
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Obrigado Ricardo. Texto criativo e inspirador. Concordo contigo: Muitas vezes as perguntas não precisam de respostas. Estão para nos ajudar a conviver com as incertezas da vida.

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