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RIO ABAIXO - De Herznach a Nova Friburgo: Ignaz, Luce e os sete filhos 

há 3 dias
49 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

Ricardo Lengruber Lobosco

Out.2026 

 

Todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche. (Eclesiastes 1,7 )

 

PRÓLOGO

Sumbawa, abril de 1815 

 

O Tambora não tinha fama. Era uma montanha entre outras na ilha de Sumbawa, a leste de Java, alta demais para ser útil, baixa demais para ser lenda. Nas suas encostas plantava-se arroz e colhia-se mel. Havia um sultanato pequeno com o nome da montanha e uma língua própria, falada por alguns milhares de pessoas que nunca a escreveram. Nada disso existe mais.

 

Na noite de 5 de abril a montanha tossiu. Em Batávia, a mais de mil quilômetros, os oficiais da guarnição ouviram o estrondo e pensaram em canhões. Mandaram tropas socorrer um posto que imaginavam atacado. Não havia posto. Não havia inimigo. Havia uma montanha limpando a garganta.

 

Cinco dias depois, no dia 10, ela explodiu de verdade. Perdeu mais de mil metros de altura numa tarde. Três colunas de fogo subiram, juntaram-se numa só, e o cume inteiro virou uma coisa líquida que correu para o mar. Choveu pedra-pomes sobre os navios. A cinza caiu sobre Java como neve suja; a centenas de quilômetros dali fez-se noite ao meio-dia, e a noite durou dias.


A caldeira do Tambora vista da borda, em 2017: seis quilômetros de diâmetro e mais de mil metros de fundo, com um lago efêmero no chão. É o buraco que a erupção de abril de 1815 deixou no lugar do cume. Foto: Tisquesusa, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.
A caldeira do Tambora vista da borda, em 2017: seis quilômetros de diâmetro e mais de mil metros de fundo, com um lago efêmero no chão. É o buraco que a erupção de abril de 1815 deixou no lugar do cume. Foto: Tisquesusa, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.

 

Morreu quem estava perto, na hora, pelo fogo. Morreu quem estava um pouco mais longe, nos meses seguintes, de fome, porque a cinza matou o arroz e envenenou a água. Morreu a língua tambora, com os últimos que a falavam. Dez mil, trinta mil, noventa mil: as contas variam, e a diferença entre uma conta e outra é feita de gente que ninguém contou.


Mas o Tambora não se contentou com os que estavam perto. Lançou ao alto dezenas de milhões de toneladas de enxofre, e o enxofre virou um véu fino que deu a volta na Terra em semanas e ficou lá, entre o sol e nós, por quase dois anos. Os pores do sol da Inglaterra ficaram roxos. Os pintores ingleses os pintaram sem saber o porquê.


J. M. W. Turner, The Decline of the Carthaginian Empire, óleo exposto em Londres em 1817, dois anos depois do Tambora. Estudos que medem o vermelho dos poentes pintados por grandes mestres encontram mais vermelho nos anos seguintes às grandes erupções; se este céu deve alguma coisa a Sumbawa, ninguém pode provar, e Turner não sabia. Tate, Londres, N00499, domínio público, via Wikimedia Commons.
J. M. W. Turner, The Decline of the Carthaginian Empire, óleo exposto em Londres em 1817, dois anos depois do Tambora. Estudos que medem o vermelho dos poentes pintados por grandes mestres encontram mais vermelho nos anos seguintes às grandes erupções; se este céu deve alguma coisa a Sumbawa, ninguém pode provar, e Turner não sabia. Tate, Londres, N00499, domínio público, via Wikimedia Commons.

 

O véu levou um ano para cobrar. Em 1816 não houve verão. Nevou em junho na Nova Inglaterra. Choveu de maio a setembro na Europa, uma chuva fria, sem fim, que apodreceu o trigo de pé e afogou a batata dentro da terra. Na Suíça os rios subiram e os lagos entraram nas cidades. Em 1817 não havia mais o que colher, e o pouco que havia custava o dobro, o triplo, conforme o lugar. No leste do país, gente comeu grama. No resto, comeu o que o vizinho não comeu.

 

Ninguém no cantão de Argóvia soube do Tambora. A notícia de um vulcão nas Índias Orientais levava meses para chegar a Londres e não chegaria nunca a uma aldeia do Fricktal nem a uma cidadezinha murada à beira do Aar. Os que passaram fome em 1817 não souberam o motivo. Os padres disseram que era castigo. Os governos disseram que era imprevidência dos pobres. Que Deus seria esse, que castigava o Fricktal com o enxofre de Sumbawa? Ninguém perguntou. Perguntar é luxo de quem tem pão. Os que foram embora em 1819 acharam que fugiam da fome, das dívidas, de um cantão que não sabia o que fazer com eles. Fugiam também de uma montanha cujo nome nunca ouviram.

 

Ignaz Leimgruber tinha quarenta e três anos naquele abril de 1815. Luce tinha trinta e três. Os filhos estavam todos vivos. O último ainda não tinha nascido.

 

Por isso este livro começa pelo que eles não viram. O resto, viram.


CAPÍTULO 1

Barro 

Herznach, 31 de julho de 1771 

 

A aldeia é uma rua. Herznach não tem praça nem centro: é uma fileira de casas de cada lado do caminho velho que sobe do Fricktal para o passo da Staffelegg e desce, do outro lado, para Aarau. Quem passa, passa pela aldeia inteira. Quem fica, fica à beira do caminho dos outros.

 

No alto, a oeste, numa ponta de morro, a igreja. Chama-se São Nicolau e foi fortaleza antes de ser igreja: o muro em volta não serve à oração. Nos anos de 1690 refizeram a nave e encheram o teto de estuque; em 1719 um mestre de obras de Säckingen levantou um coro oval que os livros de arte contam entre as salas mais bonitas do barroco tardio suíço. No teto desse coro um pintor chamado Giorgioli pintou a morte de São Nicolau de Mira. Nicolau é o padroeiro dos marinheiros e das crianças. Os de Herznach não tinham mar. Tinham crianças.

 

Debaixo desse teto, no fim de julho de 1771, o pároco molhou a cabeça de um menino e escreveu no livro, em latim, Ignatius.

 

Era 31 de julho, dia de Santo Inácio de Loyola. Ninguém precisou pensar no nome. O santo era basco, soldado, fundador dos jesuítas, e os jesuítas eram naquela altura a ordem religiosa mais poderosa do mundo, e a mais odiada. Dois anos depois o papa a dissolveria por decreto, para agradar aos reis de Portugal, Espanha e França. O menino de Herznach carregaria a vida inteira o nome de um santo cuja companhia o papa extinguiu quando ele tinha dois anos. E morreria no Brasil, de onde Pombal expulsara os jesuítas doze anos antes de ele nascer. Ninguém em Herznach sabia disso. Era só o santo do dia.

 

Ignatius, dizem os que não sabem latim, quer dizer fogo. Não quer. Vem de Egnatius, nome de uma família romana sem história. Mas em Herznach só o padre sabia latim, e o padre também achava que era fogo.

 

O sobrenome, esse era honesto. Leimgruber. Leim, que hoje em alemão quer dizer cola, e Lehm, que quer dizer barro, foram no século XV uma só palavra: a coisa que gruda. Grube é cova, buraco, mina. O Leimgruber é o homem da cova de barro, o que mora ao lado do buraco de onde a aldeia tira o barro para rebocar paredes e cozer telhas. Um sobrenome que é um endereço. Pior: um sobrenome que é um buraco.

 

Isso numa aldeia que cavava ferro. Há documentos de minério tirado das colinas entre Herznach e Wölflinswil desde o começo do século XIII, um ferro em grãos, cor de ferrugem, escondido na argila. Os homens que o cavavam tinham corporação própria, os Erzner, com privilégios próprios e brigas próprias, e o minério atravessava o Reno para ser fundido nos fornos da Floresta Negra. No tempo de Ignaz a cava andava fraca, mas os buracos continuavam nas encostas, e as crianças brincavam dentro deles. Os Leimgruber eram os do barro numa terra de homens do ferro. É pouca coisa. Mas nome a gente não escolhe, e os outros lembram.

 

Vivia-se ali do que todo mundo vivia. Um pedaço de terra pequeno demais para sustentar uma família e grande demais para abandonar; duas vacas, quando havia duas; cerejeiras, porque o Fricktal é terra de cereja e o que não se come vira aguardente; e os dias de braço alugados a quem tinha mais chão. O pai de Ignaz era isso, camponês de pouca terra e jornaleiro de muita, como quase todos na rua. No inverno, quando o solo endurece, cavava-se barro na Lehmgrube para a telheria, porque a telha se faz no verão com o barro que apodreceu no frio. O nome, afinal, ainda dizia alguma coisa.

 

A casa era de madeira e barro. Vigas de carvalho armadas em grade e, entre as vigas, o reboco de Lehm amassado com palha, que se refaz de tantos em tantos anos porque a chuva o leva. Telhado alto, descendo quase até o chão nos fundos. Gente de um lado, bicho do outro, e entre os dois uma parede que não segurava o cheiro nem o calor, e o calor era o que importava. Ignaz cresceu dentro de uma parede feita do que o seu nome dizia. O Gênesis conta que o primeiro homem foi tirado do barro; em Herznach não era preciso ler o Gênesis para saber disso. Não há metáfora aqui. É só o que havia.

 

Nasceu súdito de Maria Teresa. O Fricktal era um pedaço solto da Áustria, resto do que os Habsburgo tinham possuído nestas margens antes de os suíços os expulsarem de todo o resto, e chamava-se, com os demais restos, Áustria Anterior. Mandava nele, de perto, o escritório camaral de Rheinfelden, que cobrava. Mandava nele, de longe, o governo de Freiburg im Breisgau, a três dias de caminhada, que legislava. Mandava nele, de muito longe, Viena, que ninguém da rua viu nunca. A imperatriz era uma senhora gorda e católica, com dezesseis filhos, que fazia guerra à Prússia e paz com Deus. A rua rezava por ela aos domingos e pagava-lhe o dízimo nos outros dias.

 

Católica, a rua tinha ficado porque ficara austríaca. Quando Zwínglio pregou em Zurique e Berna aderiu, o Fricktal não pôde aderir, porque não era de Berna. Do alto da Staffelegg, a uma hora e meia de subida, via-se Aarau, e Aarau era bernesa e reformada havia dois séculos e meio. Era a cidade dos hereges. Era também onde se vendia a cereja. Ignaz aprendeu cedo que uma coisa não exclui a outra.

 

As letras, aprendeu-as, pelo que se pode supor, com o sacristão, nos meses em que a terra não pedia ninguém, porque a escola nas aldeias católicas do Fricktal era de inverno e funcionava onde desse. Aprendeu o bastante para assinar o nome. Quarenta e tantos anos depois, longe dali, isso faria diferença.

 

Enquanto ele crescia, o império mudava de dono. Maria Teresa morreu em 1780 e deixou o filho, José II, que acreditava na razão como outros acreditam nos santos. José fechou mosteiros que não serviam para nada, segundo ele; cortou do calendário os dias santos, que eram dias em que o camponês não trabalhava e, portanto, dias em que o império perdia; proibiu procissões longas, peregrinações, velas demais, e chegou a mandar enterrar os mortos em sacos, para poupar madeira, até que o povo gritou e ele recuou. No Fricktal a reforma de José II teve o efeito de todas as reformas vindas de cima: a rua obedeceu no papel e continuou a fazer o que fazia.

 

Ignaz tinha nove anos quando José subiu ao trono e dezenove quando ele morreu. Cresceu num império que queria ser moderno sem perguntar aos súditos, e nisso, pelo menos, o império se parecia com o futuro.


Herznach vista do alto em 27 de maio de 1953, com a igreja de São Nicolau à direita do centro e os pomares e as lavouras em faixas subindo para o Jura. É a aldeia antes do crescimento do século XX, a mais próxima da de 1771 que a fotografia alcança. Werner Friedli, ETH-Bibliothek Zürich, LBS_H1-014985, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.
Herznach vista do alto em 27 de maio de 1953, com a igreja de São Nicolau à direita do centro e os pomares e as lavouras em faixas subindo para o Jura. É a aldeia antes do crescimento do século XX, a mais próxima da de 1771 que a fotografia alcança. Werner Friedli, ETH-Bibliothek Zürich, LBS_H1-014985, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

CAPÍTULO 2

Luce

Herznach, 11 de dezembro de 1781 

 

Dois meses antes de Luce nascer, José II assinou a Patente de Tolerância. Luteranos, calvinistas e ortodoxos podiam, a partir de 13 de outubro de 1781, rezar em casa e em templos sem torre, comprar terra, exercer ofícios, ser cidadãos. Não podiam ser iguais; podiam existir. Foi o gesto maior do Iluminismo católico, e a rua de Herznach, que não tinha um único protestante para tolerar, não percebeu nada.

 

Luce Hartmann nasceu, portanto, num império que acabava de admitir os hereges. Nasceu a 11 de dezembro, dois dias antes de Santa Luzia, na semana mais escura do ano, e recebeu o nome da santa mais próxima no calendário. Luzia quer dizer luz. É padroeira dos olhos, porque a lenda lhe arrancou os seus, e nos países do norte a sua festa é a noite em que as meninas põem velas na cabeça para vencer a treva. Em Herznach ninguém punha velas na cabeça. Havia neve na rua e um assento de batismo com um nome que a família pronunciava Luce.

 

O pai chamava-se Joseph Hartmann. A mãe, Anna Maria Ott. Hartmann é o homem duro; Ott é Otto, que quer dizer riqueza. Os sobrenomes mentem com naturalidade.

 

De uma menina do Fricktal nos anos 1780 sabe-se o que se sabe de todas: o que não ficou escrito. Fiava-se linho no inverno, ao lado das vacas, porque o estábulo era a parte quente da casa. Levava-se o gado ao pasto comum, apanhava-se a cereja em julho, debulhava-se em agosto, colhia-se a batata em outubro, e a batata era nova na rua, chegara havia uma ou duas gerações e ainda havia quem desconfiasse dela. Ia-se à missa aos domingos, debaixo do teto onde Nicolau morria em cores, e ouvia-se um latim que ninguém entendia, o que não o impedia de fazer efeito.

 

Do outro lado do Reno, a meio dia de caminhada, ficava Säckingen, e em Säckingen havia um convento de damas nobres fundado, dizia a lenda, por um monge irlandês chamado Fridolin. Fridolin convertera o vale e, numa disputa de terras, fora buscar um morto no túmulo para depor em juízo. O morto depôs, o santo ganhou a causa, e desde então pintam Fridolin de mão dada com um esqueleto. Nenhum advogado fez melhor, e eu, que advogo, sei do que falo. As terras do convento espalhavam-se pelo Fricktal, e o nome de Fridolin andava na boca do vale como anda um nome de família: sem que se saiba direito quem foi.

 

Luce cresceu nessa rua, dez anos depois de Ignaz. Numa aldeia onde todos cabem numa só missa, dez anos de diferença são a distância entre uma criança que corre e um rapaz que já sai para a diária; depois, entre uma moça que fia e um homem que ainda não casou. Em algum ponto entre as duas distâncias a diferença deixa de contar. Não há papel que diga quando. Há só o que veio depois, e o que veio depois diz que contou pouco.

 

Em 1790, quando Luce tinha nove anos, José II morreu em Viena, derrotado pelos próprios súditos, e mandou escrever no túmulo que falhara em tudo o que empreendera. Não mandou, na verdade; a frase é posterior, e ele não era homem de epitáfios. Mas pegou, porque era justa. Em 1792 o sobrinho dele, Francisco, herdou um império que a França estava prestes a ensinar a ter medo.


Igreja de São Nicolau, Herznach: a torre é do século XIV, a nave de 1691-92 e o coro de 1718-19. Foi nesta igreja, ou na sua pia, que Ignaz foi batizado em 1771 e Luce em 1781. Fotografia atual, Wikimedia Commons ("Herznach AG Kirche St Nikolaus.jpg"), licença livre.
Igreja de São Nicolau, Herznach: a torre é do século XIV, a nave de 1691-92 e o coro de 1718-19. Foi nesta igreja, ou na sua pia, que Ignaz foi batizado em 1771 e Luce em 1781. Fotografia atual, Wikimedia Commons ("Herznach AG Kirche St Nikolaus.jpg"), licença livre.

CAPÍTULO 3

Quatro bandeiras

Herznach e o Fricktal, 1792 a 1804


A Revolução chegou ao Fricktal como chegava tudo: pela Basileia. Os mascates que subiam o Reno traziam o preço do sal, a notícia de uma guerra e, a partir de 1789, uma palavra nova, cidadão, que no Fricktal não queria dizer nada, porque ali não havia cidadãos. Havia súditos. Havia um imperador em guerra com a França desde 1792, antes mesmo de os franceses matarem o seu rei, e o Fricktal, fronteira da Áustria com a Suíça e com a França ao mesmo tempo, virou quartel.

 

Ignaz tinha vinte e um anos quando a guerra começou. Não há notícia de que tenha sido soldado, e a Áustria recrutava sem perguntar, de modo que o silêncio dos papéis tanto pode querer dizer que não foi como que foi e ninguém escreveu. O que ficou escrito é que a rua passou dez anos alimentando tropas. Primeiro as austríacas, que eram suas e cobravam. Depois as francesas, que não eram e cobravam mais. Um exército come o que a aldeia produz, dorme nas casas da aldeia, queima a lenha da aldeia, e paga com um papel que diz que o império pagará. O império nunca pagou.

 

Em 1797 Bonaparte, que era general e ainda não era imperador, venceu a Áustria na Itália e assinou com ela, em Campo Formio, uma paz com cláusulas secretas. Numa delas o Fricktal mudou de mão sem que o Fricktal soubesse. Dali em diante os franceses mandaram no vale de fato, enquanto a Áustria mandava de direito, e a esse arranjo, que os historiadores chamam de protetorado, a rua chamava de ter dois senhores e nenhum.

 

Em 1798 os franceses invadiram a Suíça velha, derrubaram Berna, que caiu em um dia, e inventaram a República Helvética, una e indivisível, com constituição e direitos. A capital da república nova foi Aarau, do outro lado da Staffelegg. Durou cinco meses como capital, depois a mudaram para Lucerna, mas durante aqueles meses, da subida do passo, Ignaz pôde ver, a uma hora e meia de casa, a sede de um país de que não fazia parte. Era súdito austríaco olhando uma república francesa feita de suíços. Vendeu-lhe cereja, provavelmente. A república comia.

 

Em 1799 a guerra voltou, e desta vez passou por dentro. Franceses e austríacos trocaram de margem do Reno, requisitaram, acamparam, prenderam. Os russos de Suvorov atravessaram os Alpes a pé, longe dali, e os generais franceses venceram em Zurique, também longe, mas a conta da guerra, essa, veio até a rua. Dois anos de requisição deixam uma aldeia sem semente. Sem semente, a colheita seguinte é a metade. Com metade de colheita, o camponês vende um pedaço de terra, e não compra de volta nunca.

 

Em 1801, pela paz de Lunéville, a Áustria cedeu o Fricktal à França com papel passado, e a França, que não sabia o que fazer com um vale, inventou-lhe um país. Em 1802 o Fricktal virou cantão: cantão de Fricktal, com governo próprio e capital em Rheinfelden. Durou um ano. Em fevereiro de 1803 Bonaparte, já Primeiro Cônsul, ditou em Paris a Ata de Mediação, redesenhou a Suíça e criou seis cantões novos. Um deles chamava-se Argóvia e juntava três pedaços que nunca tinham sido um: a Argóvia bernesa, protestante; o condado de Baden e o Freiamt, de maioria católica; e o Fricktal, austríaco até a véspera. A bandeira nova trazia, num campo azul, três estrelas brancas, uma para cada pedaço. Ignaz, aos trinta e um anos, virou estrela de bandeira sem sair da rua.

 

Faça-se a conta: Áustria Anterior, protetorado francês, cantão de Fricktal, cantão de Argóvia. Quatro soberanias em trinta e dois anos de vida, e em nenhuma delas o homem foi consultado. Nasceu súdito de uma imperatriz e virou cidadão de um cantão governado de Aarau, a cidade dos hereges, onde agora se votava. Não era pouco. Mas o que mudou de verdade, para quem vivia da terra, foi menos a bandeira que a conta: o dízimo continuou, os impostos trocaram de nome e de destinatário, os soldados foram embora e levaram o que havia. O cantão nasceu pobre, de gente pobre, num tempo pobre. A pátria, aprendeu a rua, é coisa que se decide longe.

 

O brasão do cantão de Argóvia, adotado em 1803 e desenhado por Samuel Ringier-Seelmatter: à esquerda, sobre negro, três faixas brancas onduladas; à direita, sobre azul, três estrelas. A proposta de 1803 não explicou o desenho; mais tarde passou-se a ler nas ondas os rios do cantão e nas estrelas as três regiões juntadas à antiga Argóvia bernesa: Baden, o Freiamt e o Fricktal. Wikimedia Commons, domínio público.
O brasão do cantão de Argóvia, adotado em 1803 e desenhado por Samuel Ringier-Seelmatter: à esquerda, sobre negro, três faixas brancas onduladas; à direita, sobre azul, três estrelas. A proposta de 1803 não explicou o desenho; mais tarde passou-se a ler nas ondas os rios do cantão e nas estrelas as três regiões juntadas à antiga Argóvia bernesa: Baden, o Freiamt e o Fricktal. Wikimedia Commons, domínio público.

Foi já no cantão de Argóvia, por volta de 1804, que Ignaz Leimgruber e Luce Hartmann se casaram; o primeiro filho nasceu em 1805. A igreja foi a mesma, no alto do morro, porque não havia outra; o padre proclamou os banhos três domingos seguidos e ninguém se opôs; o livro paroquial continuava em latim, embora o governo agora fosse em alemão e, atrás do alemão, em francês. Ela tinha vinte e dois anos. Ele, trinta e dois ou trinta e três, conforme o mês. Subiram a rua, entraram na igreja fortificada, disseram o que se diz debaixo do teto onde Nicolau morria, e desceram a rua casados.

 

Em cima deles, no coro oval, o padroeiro dos marinheiros e das crianças. Nenhum dos dois reparou. Quem repara no teto de uma igreja no dia do próprio casamento?

 

O cantão em que casaram tinha um ano de vida e tinha sido desenhado em Paris. Ignaz tinha trinta e dois. Luce, vinte e dois. Nenhum dos três sabia o que era um oceano.


A República Helvética em 1802, com as fronteiras dos cantões segundo a constituição de 2 de julho de 1802: no alto, entre Basileia e Argóvia, o pequeno cantão de Fricktal, com Rheinfelden e Laufenburg, que durou até a Mediação de 1803. Mapa moderno de Marco Zanoli, 2006, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.
A República Helvética em 1802, com as fronteiras dos cantões segundo a constituição de 2 de julho de 1802: no alto, entre Basileia e Argóvia, o pequeno cantão de Fricktal, com Rheinfelden e Laufenburg, que durou até a Mediação de 1803. Mapa moderno de Marco Zanoli, 2006, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.

CAPÍTULO 4

Um catecismo

Herznach e Aarburg, 1804 a 1815


Chamaram o primeiro de Anton Ignaz. Nasceu em 1805, e nasceu em Aarburg, a trinta quilômetros de Herznach, do outro lado da Staffelegg. Os pais tinham se casado na aldeia; o filho nasceu fora dela. Não é alegoria. É o que os registros deixam supor quando se põem em fila.


Depois dele vieram Fridolin em 1807, Johann Baptist em 1809, Blasius em 1811, Marcus em 1813, Maria Carolina em 1814, de dois em dois anos, com a regularidade de quem não decide nada. Seis em dez anos. Luce passou dos vinte e dois aos trinta e três grávida ou amamentando, que era a vida de qualquer mulher daquele tempo e não a tornava notável. Tornava-a cansada.


Onde cada um nasceu é menos certo do que parece. As listas publicadas dizem Aarburg para todos, menos para Blasius, que dão como nascido em Herznach, e o mais provável é que Luce tenha voltado à casa da mãe para ter o quarto, como faziam as mulheres enquanto a casa da mãe existia. Mas para Fridolin a mesma lista diz «S. Nicolas, Canton de Arau, Aarburg», e São Nicolau é a igreja de Herznach. A de Aarburg é reformada e não tem santo. Pode ser que os primeiros tenham nascido ainda na aldeia, e que a mudança para o Aar tenha vindo depois. As listas dizem Aarburg, e o texto vai com elas.


São Fridolino com Urso, o morto que, segundo a lenda, ele tirou da cova para testemunhar a seu favor num tribunal; grupo em frente ao Fridolinsmünster de Bad Säckingen, do outro lado do Reno, diante do Fricktal. Fotografia atual, Wikimedia Commons, licença livre.
São Fridolino com Urso, o morto que, segundo a lenda, ele tirou da cova para testemunhar a seu favor num tribunal; grupo em frente ao Fridolinsmünster de Bad Säckingen, do outro lado do Reno, diante do Fricktal. Fotografia atual, Wikimedia Commons, licença livre.

Por que Aarburg, não está escrito. Está escrito o que Aarburg era, e dá para somar. Em 1803 a Ata de Mediação pôs no mesmo cantão o Fricktal católico e a Argóvia bernesa, e com isso um homem de Herznach passou a poder morar numa cidade reformada do Aar como quem muda de distrito, não de país. Aarburg ficava a uns trinta quilômetros, pelo caminho da cereja: sobe-se a Staffelegg, desce-se a Aarau, segue-se o rio. Era cidade de rio e de estrada, com um porto natural onde o sal e o vinho desembarcavam para subir de carroça o vale do Wigger até Lucerna, com jangadas de madeira que desciam amarradas, com alfândega, com uma fortaleza que o cantão novo transformava em arsenal e casa de correção, e com pouco mais de mil habitantes que precisavam de braços. Um camponês sem terra no Fricktal era um jornaleiro a mais. Em Aarburg era um carregador, um barqueiro de jangada, um homem de estrada. Foram atrás disso. É a dedução mais simples, e digo que é dedução.


Aarburg é uma rocha com uma fortaleza em cima e uma cidade embaixo, e entre as duas passa o Aar. A rocha é bernesa desde 1415, quando Berna tomou a Argóvia aos Habsburgo, e os berneses fizeram dela o que fazem com as rochas: um posto de bailio, uma alfândega, um lugar de cobrar passagem a quem desce o rio. Depois das guerras de religião do século XVII transformaram-na em fortaleza de verdade, com baluartes, para o caso de os católicos do centro da Suíça se lembrarem de que o Aar passa ali. Em 10 de março de 1798 os franceses chegaram e a fortaleza rendeu-se sem um tiro, o que diz alguma coisa sobre fortalezas.


E era reformada. Inteira. Desde 1528, quando Berna decidiu por si e pelos seus. Em Aarburg não havia altar católico, não havia padre, não havia Nicolau morrendo em cores no teto de coisa nenhuma. O altar mais próximo ficava do outro lado da fronteira cantonal, em Olten, na terra católica de Solothurn, uma hora a pé pela margem do rio. Durante catorze anos os Leimgruber foram buscar os sacramentos a pé e trouxeram de volta o olhar dos vizinhos. Batizaram os filhos onde havia padre e enterraram, se enterraram alguém nesses anos, em chão de outra freguesia. Eram, na cidade, o que a lei suíça chama de Hintersassen: moradores tolerados, sem direito de burguesia, com a pátria legal em outro lugar. A palavra é exata. Hinter é atrás, e o Hintersasse é o que se senta atrás, o que mora na cidade sem pertencer a ela. A pátria de Ignaz continuou a ser Herznach, no único sentido que importava, o da lei dos pobres: se um dia precisasse de esmola, era Herznach que devia dar, e Aarburg que podia mandá-lo de volta.



Os nomes dos filhos são um catecismo. Anton Ignaz, o santo de Pádua e o santo do pai, juntos. Fridolin, o monge irlandês que levou um morto ao tribunal, o santo do vale, que nenhuma família reformada de Aarburg poria num filho. Johann Baptist, o que batizou. Blasius, o bispo armênio que salvou um menino de uma espinha de peixe na garganta, e por isso se benzem as gargantas no dia 3 de fevereiro com duas velas cruzadas. Marcus, o evangelista. Maria Carolina, a Virgem e uma rainha. Lido de cima a baixo, o livro de batismos dos Leimgruber é uma profissão de fé católica, tridentina, de Fricktal austríaco. Numa rua reformada do Aar, nomes assim soavam como um sotaque. Eram um sotaque.

A casa, alugada, ficou pequena. Casa alugada fica sempre pequena, e a solução era a mesma havia séculos: as crianças dormem juntas, os maiores saem cedo para a diária, as meninas fiam ao lado da mãe. Aos sete anos um menino já pastoreava ou carregava. Aos dez já trabalhava a dia. Anton Ignaz e Fridolin foram para o porto e para a estrada antes de saber ler, e aprenderam a ler depois, no inverno, o bastante para assinar, que era a medida de alfabetização que o tempo exigia e que o Brasil viria a conferir.


Enquanto os filhos nasciam, a Europa fazia a última guerra de Bonaparte. O cantão novo mandou soldados para a França, como todos os cantões, por um tratado que a Suíça não tinha como recusar; os que foram à Rússia em 1812 não voltaram, ou voltaram sem os pés. Não há notícia de que a família tenha dado um homem a esse exército, e Ignaz, com quarenta anos e quatro filhos, não era o tipo que se recruta. Era o tipo que paga.


Em dezembro de 1813 os austríacos voltaram. Não para mandar: para atravessar. O exército de Schwarzenberg, duzentos mil homens, cruzou o Reno na Basileia no dia 21, rasgou a neutralidade suíça como quem rasga um recibo e atravessou a Argóvia a caminho da França. Os velhos senhores de Herznach passaram pelas estradas do cantão a caminho de derrubar o homem que os expulsara. Comeram o que havia, deixaram o tifo e seguiram. Ignaz viu as águias de duas cabeças de que fora súdito passarem por uma cidade reformada em que ele era estrangeiro, e a cena tem a simetria das cenas que ninguém planeja. Não se ajoelhou. Já não era o caso.


Em 1814 Berna quis a Argóvia de volta. Era seu território, dizia, roubado por Bonaparte, e com Bonaparte caído o roubo devia desfazer-se. Por alguns meses Aarburg esteve a um tratado de distância de voltar a ser bernesa, e Ignaz, de ganhar a quinta soberania sem sair da rua. O Congresso de Viena disse não. A Argóvia ficou, Berna recebeu o Jura como consolo, e os diplomatas garantiram à Suíça uma neutralidade perpétua, que as potências prometeram respeitar com a sinceridade de quem acabara de violá-la.


Em 1815 Maria Carolina tinha um ano e a Europa estava em paz. Não havia paz fazia vinte e três anos. Os homens do porto, que não tinham conhecido outra coisa, acharam que agora ia melhorar.


Naquele mesmo abril, do outro lado do mundo, uma montanha explodiu.



CAPÍTULO 5

O ano sem verão

Aarburg, 1816 e 1817

 

Começou com a chuva. Não uma chuva, a chuva: a partir de maio de 1816 choveu de um jeito que os velhos não lembravam e os jovens não esqueceriam. Choveu em junho, quando o feno devia secar, e o feno apodreceu no chão. Choveu em julho, quando as cerejas do Fricktal deviam ficar pretas, e as cerejas racharam nos galhos. Choveu em agosto sobre o trigo verde, e o trigo não amarelou. Nos montes do Jura nevou no meio do verão. O Aar subiu, e numa cidade que vive do Aar isso quer dizer que as jangadas não descem, que o sal não chega, que a carroça não sobe o vale do Wigger, que o homem de estrada fica em casa olhando a água. No fim de setembro a colheita que se recolheu, em todo o cantão, foi a metade da metade, e molhada.

 

Ninguém sabia que era o Tambora. Ninguém sabia que existia uma coisa chamada Tambora. O pastor reformado de Aarburg falou do dilúvio e de Noé, e o padre de Olten também, e nisso, pelo menos, as duas confissões concordaram. O que nenhum dos dois disse é que o dilúvio, desta vez, vinha sem arca. O governo de Aarau falou em imprevidência e mandou poupar. As ordens chegaram juntas e foram igualmente obedecidas, com o resultado que se espera.

 

O inverno de 1816 para 1817 foi comprido, e a fome é uma coisa que acontece devagar. Primeiro acaba o pão de trigo e come-se o de centeio. Depois acaba o centeio e come-se o de aveia, que os cavalos comiam. Depois mistura-se farelo, bolota, casca, e chama-se pão a uma coisa que não é. Depois comem-se as sementes que seriam da próxima colheita, e com isso compra-se um mês com um ano. Na primavera de 1817 o grão custava o triplo do que custava dois anos antes; em junho, mais que isso, e não se achava a preço nenhum. Os governos dos cantões importaram trigo pelo Reno acima, abriram cozinhas públicas que serviam uma sopa inventada por um conde americano, água com cevada e batata, e proibiram a exportação do que não havia. No leste do país, em Appenzell e Glarus, houve gente que comeu grama fervida, e os pastores tiveram de sepultar os que a grama não alimentou. A Argóvia não chegou a tanto. Chegou a contar os seus pobres.


"Die grosse Theürung und Verdienstlosigkeit im Jahr 1817", a grande carestia e falta de ganho do ano de 1817: tabuinha manuscrita com os preços do ano, do cereal, do pão, das batatas (Erdäpfel), da carne, do toucinho, do queijo e do leite. Papéis assim eram guardados nas casas como memória da fome. Aargauer Kantonsbibliothek, KB-029891, via Wikimedia Commons, domínio público.
"Die grosse Theürung und Verdienstlosigkeit im Jahr 1817", a grande carestia e falta de ganho do ano de 1817: tabuinha manuscrita com os preços do ano, do cereal, do pão, das batatas (Erdäpfel), da carne, do toucinho, do queijo e do leite. Papéis assim eram guardados nas casas como memória da fome. Aargauer Kantonsbibliothek, KB-029891, via Wikimedia Commons, domínio público.

 

Contar os pobres, na Suíça de 1817, era um ato jurídico. A lei era simples e velha: cada comuna sustenta os seus cidadãos, e só os seus. Quem mora em outra comuna e empobrece é mandado de volta à comuna de origem, que o recebe de má vontade, porque não tem com que alimentá-lo. Uma família de Herznach morando em Aarburg, com seis filhos, sem terra, vivendo do que o rio dava, era, para Aarburg, um risco a devolver, e para Herznach, uma conta a não receber. Não há papel que diga que os mandaram de volta. Há o fato de que não voltaram. Mas naquele inverno Ignaz Leimgruber era, nas duas cidades, um problema de orçamento. Um homem vira rubrica antes de virar colono.

 

Depois a colheita de 1817 veio boa, o preço do pão caiu em agosto para a metade e em outubro para o normal, e os jornais disseram que a crise tinha passado. Tinha passado para o jornal. Para quem passou dois invernos vendendo o pouco que tinha, o pão barato de outubro era pão de outra pessoa.


A primeira página do Schweizer-Bote nº 13, Aarau, 27 de março de 1817: "Es steht Hungersnoth bevor! Drum Rath und Hilfe zu rechter Zeit!", a fome está à porta, por isso conselho e ajuda a tempo. Abaixo começa "Des Schweizerboten Klage", o lamento do mensageiro suíço, que era a voz de Zschokke. Exemplar da Harvard University, via HathiTrust, domínio público.
A primeira página do Schweizer-Bote nº 13, Aarau, 27 de março de 1817: "Es steht Hungersnoth bevor! Drum Rath und Hilfe zu rechter Zeit!", a fome está à porta, por isso conselho e ajuda a tempo. Abaixo começa "Des Schweizerboten Klage", o lamento do mensageiro suíço, que era a voz de Zschokke. Exemplar da Harvard University, via HathiTrust, domínio público.


Há um detalhe nos registros dos Leimgruber que é preciso ler como se lê um silêncio. Entre 1805 e 1814 nasceu um filho a cada dois anos, sem falta. Depois de Maria Carolina, nada. Nenhum nascimento em 1816, nenhum em 1817, nenhum em 1818. Luce tinha trinta e cinco anos, idade de sobra. Os anos sem pão são também anos sem filhos, e os demógrafos sabem que nos cantões atingidos a fome de 1817 se lê nos livros de batismo pelo que não está escrito neles. Pode ter sido outra coisa.

 

Mas o vazio coincide com o vazio. E foi por essa porta que entrou o Brasil.

 

CAPÍTULO 6

A fortaleza 

Aarburg, 1818 

 

A notícia chegou em outubro de 1818, e chegou pelo cantão, não pela igreja, o que já dizia de que tipo de notícia se tratava. Friburgo tinha ratificado o tratado que o seu agente, um comerciante de Gruyères chamado Nicolas-Sébastien Gachet, assinara no Rio de Janeiro em maio: cem famílias católicas, terras na serra acima de Cantagalo, transporte pago pela Coroa a partir da Holanda, casa, sementes, ferramentas, gado, sustento nos primeiros tempos, isenção de impostos, naturalização. Em 10 de novembro Friburgo convidou Berna, Valais, Argóvia, Solothurn, Lucerna e Schwyz a entrar na empresa, porque cem famílias eram o papel e dois mil corpos eram o plano, e Friburgo sozinho não tinha dois mil. Imprimiram-se folhetos com o tratado e com uma descrição do Brasil que ninguém que a escreveu tinha visto. Leram-nos nas igrejas e nas tabernas. Diziam que a terra era boa, que o clima era são, que as laranjas caíam das árvores.

 

A Argóvia entrou, e entrou do seu jeito. O governo de Aarau mandou listar os sem pátria, os Heimatlose, gente sem direito de cidadania em comuna nenhuma, descendentes de soldados dispensados, de vagabundos, de mulheres sem papéis, que os cantões carregavam como se carrega uma dívida herdada. Heimat não é bem pátria; é a terra-casa, o lugar de que se é. O Heimatlose é o sem-lugar. A polícia os prendeu, interrogou e alojou na fortaleza de Aarburg. De dezembro de 1818 a julho de 1819 mais de oitenta e quatro pessoas ficaram ali, na rocha em cima da cidade, alimentadas e vestidas à custa do Estado, à espera dos barcos. O cantão não os chamava de colonos. Chamava-os de expulsos. O decreto de D. João VI pedia famílias católicas, honestas, laboriosas, e o governo de Aarau leu nele o que precisava: uma maneira de pôr num navio o que não queria em casa.


"Arburg": a cidade, a fortaleza sobre a rocha e o Aare, na gravura de Matthäus Merian para a Topographia Helvetiae, Rhaetiae et Valesiae, de 1642. A fortaleza que se vê é a anterior à reconstrução bernesa do fim do século XVII. Zentralbibliothek Zürich, via Wikimedia Commons, domínio público.
"Arburg": a cidade, a fortaleza sobre a rocha e o Aare, na gravura de Matthäus Merian para a Topographia Helvetiae, Rhaetiae et Valesiae, de 1642. A fortaleza que se vê é a anterior à reconstrução bernesa do fim do século XVII. Zentralbibliothek Zürich, via Wikimedia Commons, domínio público.

Os Leimgruber moravam embaixo. Tinham pátria, eram cidadãos de Herznach, não estavam na lista dos sem-lugar. Mas moravam havia catorze anos na cidade cuja fortaleza o cantão escolheu para juntar a sua gente do Brasil, e no inverno em que a rocha se encheu, eles estavam na rua ao pé dela, com seis filhos e o sétimo a caminho, sem terra, sem burguesia, com a comuna de origem a trinta quilômetros torcendo para não ter de recebê-los de volta. Dos cento e quarenta e três argovianos que embarcaram em 1819, uns estavam lá em cima, presos, e outros embaixo, livres. Foram nos mesmos barcos. A diferença era de papel, e o papel ficou na Suíça.

 

Ignaz tinha quarenta e sete anos. Luce, trinta e sete. Seis filhos de treze a quatro anos, e um sétimo a caminho, uma dívida, uma cidade onde eram estrangeiros de religião e de burguesia, e um folheto. A conta que um homem faz nessa hora não é romântica. Fica-se: os filhos crescem jornaleiros, as filhas crescem fiandeiras, o inverno que vem é igual ao que passou. Vai-se: perde-se tudo, mas tudo já era pouco, e do outro lado há terra com o nome de quem a trabalhar. O risco de morrer no caminho existia e todos sabiam; a diferença é que ninguém sabia o tamanho dele.


Quem assinou em 1818 assinou sem saber que um em cada cinco não chegaria. Com esse número, ninguém assina. Sem ele, assinaram dois mil.

 

Assinaram um compromisso. O cantão fazia a lista, a comuna de origem dava alguma coisa, roupa, uma ferramenta, uns francos, e ficava aliviada, porque um cidadão que emigra é um pobre a menos para sustentar, e a lei dizia que quem embarcasse perdia a cidadania suíça ao embarcar. Herznach, que era a pátria de Ignaz no sentido legal, o único sentido que importava, deixou de sê-lo no momento em que ele pôs o nome no papel. Por trás do decreto do rei havia o cantão que queria exportar os seus pobres; por trás do cantão, a comuna que queria riscar um nome; por trás da comuna, um homem com seis filhos que precisava comer. Nenhum dos três perguntou aos filhos.

 

Colono, a palavra que os folhetos usavam, vem de colere, que é lavrar a terra, e de colere vêm também cultura e culto. O rei pedia lavradores e, sem saber, mandava-lhes uma palavra que já continha a lavoura, a reza e a civilização que esperava deles. O cantão lia a mesma palavra e entendia outra coisa: saída.

 

Em 15 de janeiro de 1819 a comissão de Friburgo decidiu inscrever também protestantes, porque faltava gente. O rei queria católicos; o cantão queria números. Venceu o número, como vence sempre. Os Leimgruber, católicos de Fricktal com sete nomes de santo, não precisaram da concessão. Eram o colono que o decreto imaginava.

 

Eram, por acaso, exatamente o que se pedia.


CAPÍTULO 7

Fidel

Aarburg, 10 de janeiro de 1819  


Nasceu no meio do inverno, numa cidade reformada, debaixo de uma fortaleza cheia de gente que o cantão ia mandar embora, cinco dias antes de a comissão de Friburgo abrir as listas aos hereges e seis meses antes de a família embarcar. Chamaram-no Fidel.


Fidelis de Sigmaringen, o santo do nome de Fidel, em gravura de Martin Engelbrecht, Augsburgo, século XVIII. Ao fundo, o martírio. A inscrição o chama ainda de beato: «morto pelos hereges, por ódio à fé, em 24 de abril de 1622». A canonização viria em 1746. Wellcome Collection, Londres, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.
Fidelis de Sigmaringen, o santo do nome de Fidel, em gravura de Martin Engelbrecht, Augsburgo, século XVIII. Ao fundo, o martírio. A inscrição o chama ainda de beato: «morto pelos hereges, por ódio à fé, em 24 de abril de 1622». A canonização viria em 1746. Wellcome Collection, Londres, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.

Fidelis, em latim, é o fiel. Vem de fides, que é fé, e que é também confiança, crédito: fiel é aquele em quem se pode fiar. Numa casa que naquele inverno só tinha dívidas, o único crédito era um nome. O santo é Fidelis de Sigmaringen, um advogado suábio que largou o foro, virou capuchinho e foi pregar a Contrarreforma aos camponeses reformados dos Grisões, que o mataram à saída de uma igreja em 1622. É o santo da fronteira entre as duas confissões, o mártir católico morto por protestantes, e a sua devoção é forte precisamente na faixa de terra entre a Suábia e o Reno de onde vinham os Leimgruber. Dar esse nome a um filho nascido em Aarburg, depois de catorze anos de missa em Olten, é um gesto que se pode ler de duas maneiras. Como provocação, ou como fidelidade. Não sei qual das duas, e desconfio que eles também não saberiam dizer. Os nomes são escolhidos pelo calendário e pela memória, e só depois os descendentes os leem como se fossem programas.

 

Onde foi batizado, não sei. Em Olten, provavelmente, a pé, no frio, com Luce de resguardo e uma vizinha levando a criança, ou um padre de passagem, ou o capelão que o cantão terá cedido aos católicos da fortaleza, se cedeu. O certo é que foi batizado, porque sem batismo não embarcava, e embarcou.


A igreja de São Martinho, em Olten, erguida entre 1806 e 1813 por Blasius Baltenschweiler, mestre de obras de Laufenburg, no Fricktal. Era o altar católico mais perto de Aarburg. É provável, não certo, que Fidel tenha sido batizado aqui em janeiro de 1819. Desde 1874 a igreja pertence à paróquia católica-cristã. Foto: Paebi, 2019, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
A igreja de São Martinho, em Olten, erguida entre 1806 e 1813 por Blasius Baltenschweiler, mestre de obras de Laufenburg, no Fricktal. Era o altar católico mais perto de Aarburg. É provável, não certo, que Fidel tenha sido batizado aqui em janeiro de 1819. Desde 1874 a igreja pertence à paróquia católica-cristã. Foto: Paebi, 2019, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Foi o sétimo filho e o último. Entre Maria Carolina e ele passaram cinco anos, os cinco anos da chuva, da fome e da conta, e por isso ele é, no sentido mais seco, o filho de quando a família decidiu ir. Foi concebido na primavera de 1818, quando o folheto já corria ou estava para correr, quando o pouco que havia já estava vendido ou quase. Não se tem um filho porque se vai emigrar; emigra-se, às vezes, porque se tem filhos. Mas o sétimo filho de Ignaz e Luce é o único que nasceu já de malas feitas, e seria o único a não ter de desaprender nada do outro lado. Isso vai importar. É dele que descendo.

 

A primavera foi de preparações. As instruções dos cantões diziam o que levar e o que não levar, e a lista que sobreviveu nos arquivos de Friburgo é de uma precisão que dói: roupa de verão e de inverno para homens e mulheres, sem esquecer os capotes; colher de panela, colher de boca, garfo, faca; faca de chucrute; castiçal, lâmpada, espevitadeira. Ferramentas do ofício, para quem tinha ofício.

 

Machado, picareta, pá, sapato forte, para desbravar. Crucifixo, livro de orações. Espingarda, para a caça, diziam, e para o que mais houvesse. Pagava-se a viagem de Lucerna à Holanda a dezesseis francos por adulto, e um ou dois luíses de ouro por família para a comida até o mar; a Argóvia terá cobrado por volta disso, e a quem não tinha, o Estado adiantava e descontava do nada que o colono ia ter. A travessia, diziam os folhetos, levava em geral quarenta dias.


Os navios levavam comida para quatro meses. Entre o em geral e os quatro meses cabia toda a verdade, e ninguém leu o intervalo.

 

Em Aarburg, naquela primavera, o Aar correu alto com o degelo, as jangadas desceram, o sal subiu, e a fortaleza continuou cheia. Ignaz tinha quarenta e sete anos e nunca tinha visto o mar. Luce também não. Nenhum dos filhos. Para gente do Fricktal e do Aar, o Reno era a maior água do mundo, e o Reno tinha margem do outro lado. Do que os esperava a partir da Holanda, a única ideia que tinham vinha dos folhetos e das pregações, isto é, de quem também nunca tinha visto. Partiram como se parte de uma rua para outra: sabendo o nome do destino e nada do caminho.

 

No começo de julho a ordem chegou. Apresentar-se, com a bagagem, para seguir em conjunto à Basileia, onde os barqueiros contratados pelos cantões esperavam para descer o Reno. Luce contou os filhos como se conta o que se vai levar. Sete. Fidel tinha seis meses e ia ao colo. Blasius tinha oito anos e ia a pé, segurando na saia da mãe, como se vai à missa.

 

Atrás ficava a rua de Herznach, que ninguém da família veria de novo, e a rocha de Aarburg, que ia ficar mais leve. À frente, o rio, abaixo.


CAPÍTULO 8

Rio abaixo

Do Aar ao mar, julho a outubro de 1819 

 

Da Argóvia à Basileia havia dois caminhos, e não se sabe qual tomaram. Por terra, de carroça e a pé, por Olten, pelo passo do Hauenstein e por Liestal: dois dias. Por água, descendo o Aar de Aarburg a Aarau, a Brugg e a Koblenz, onde ele entra no Reno, e depois o Reno abaixo, por Laufenburg, que tem corredeiras, por Säckingen e Rheinfelden, até a Basileia. Esse segundo caminho passa ao pé do Fricktal, a uma manhã de caminhada de Herznach, e foi o que os friburgueses fizeram: em 8 de julho desceram o Aar de Solothurn a Brugg, e no dia 9 estavam na Basileia, com as corredeiras de Laufenburg vencidas sem susto, segundo o padre que os acompanhava. Os argovianos podem ter ido do mesmo jeito, de barco, dias depois. Podem ter ido por terra, como pede a lógica de quem tem carroça e sete filhos. De um jeito ou de outro, levaram o mais novo de colo, o mais velho com catorze anos e a bagagem que a lista mandava: machado, pá, faca de chucrute, crucifixo, capotes para um inverno que ainda ia demorar.


Basileia vista de noroeste, por volta de 1820: a ponte do Reno, as torres da catedral e barcos no rio. Água-forte da série Vues de 24 Villes de la Suisse, publicada por Herzberg em Augsburgo. Biblioteca Nacional Suíça, GS-GRAF-ANSI-BS-2, via Wikimedia Commons, domínio público.
Basileia vista de noroeste, por volta de 1820: a ponte do Reno, as torres da catedral e barcos no rio. Água-forte da série Vues de 24 Villes de la Suisse, publicada por Herzberg em Augsburgo. Biblioteca Nacional Suíça, GS-GRAF-ANSI-BS-2, via Wikimedia Commons, domínio público.

Na Basileia estava o resto. Os friburgueses, mais de mil, tinham deixado Estavayer no dia 4 de julho em três barcaças grandes e um barco pequeno, pelos lagos e pelo Aar, e esperavam. Os de língua alemã chegaram de todos os lados, de Lucerna, de Solothurn, da Argóvia, uns novecentos, e assim a empresa de Gachet ficou com os seus dois mil corpos. Dois mil é um número que se escreve rápido e se vê devagar. É uma cidade pequena acampada num cais. É mais gente do que Aarburg inteira.


O armazém e alfândega do cais de Basileia, Das Lagerhaus an der Schifflände, à beira do Reno: o lugar onde se carregava e descarregava, e de onde partiram os barcos de 1819. Desenho de Johann Baptist Isenring, gravura de Johannes Hausheer, por volta de 1832-33. Biblioteca Nacional Suíça, Coleção Gugelmann, GS-GUGE-83-29-10, via Wikimedia Commons, domínio público.
O armazém e alfândega do cais de Basileia, Das Lagerhaus an der Schifflände, à beira do Reno: o lugar onde se carregava e descarregava, e de onde partiram os barcos de 1819. Desenho de Johann Baptist Isenring, gravura de Johannes Hausheer, por volta de 1832-33. Biblioteca Nacional Suíça, Coleção Gugelmann, GS-GUGE-83-29-10, via Wikimedia Commons, domínio público.

Embarcaram na Schifflände, o cais da cidade, debaixo da catedral onde Erasmo está enterrado entre os reformados, sem que ninguém da rua de Herznach soubesse quem era Erasmo. Barcos de rio, de fundo chato, com um toldo, e barqueiros que faziam aquilo por ofício e cobravam por cabeça. Os cantões pagaram parte, os colonos pagaram o resto, e o resto foi descontado de um futuro que ainda não tinha dado nada.

 

Depois, o Reno. Duas ou três semanas, rio abaixo, a favor da corrente, que é a única coisa que nesta história esteve a favor. Passaram Breisach, Estrasburgo, a catedral de uma torre só. Passaram Mainz, e o trecho em que o rio se estreita entre rochas e os barqueiros rezam, e Koblenz, e Bonn. Em Bonn o rei da Prússia tinha aberto uma universidade no ano anterior, e numa casa da cidade tinha nascido, quarenta e oito anos antes, um compositor que naquele julho estava surdo em Viena, escrevendo uma missa. A família Leimgruber não sabia o nome dele. Quatro gerações depois, poria esse nome num trompetista, que foi meu avô. Passaram Colônia, onde a catedral estava inacabada havia trezentos e cinquenta anos e tinha, em cima da torre que parou pela metade, um guindaste de madeira que a cidade deixara lá, como se um dia fosse voltar ao trabalho. Em 1819 o Reno não era livre: cada principado ribeirinho cobrava o seu pedágio, e os barcos paravam, mostravam papéis, pagavam, seguiam. Dois mil pobres com passaporte coletivo eram,  para cada alfândega,  uma oportunidade.


Nos barcos dormia-se sentado. Comia-se o que se levava, pão duro e o que o barqueiro vendia. Choveu. As crianças pequenas adoeceram primeiro, como em toda viagem, e os primeiros mortos da expedição foram enterrados em margens alemãs cujo nome ninguém guardou. O rio que a aldeia de Herznach via, do alto, como a maior água do mundo, revelou-se uma estrada comprida, suja, cheia de gente, e sem fim à vista.

 

O fim era a Holanda. Chegaram no fim de julho a Dordrecht, na boca do delta, onde o Reno deixa de ser rio e vira uma dúvida entre canais. Ali deviam estar os navios. Não estavam. Os cantões tinham contratado a descida do rio; a travessia do mar era por conta de D. João VI, e a Coroa portuguesa, que pagava, fretava com a pressa de quem paga. Os dois mil ficaram em terra, à espera, num lugar chamado 's-Gravendeel, uma vila de pólder a um passo de Dordrecht, sobre um canal que vai dar no mar. Ficaram mais de dois meses.

 

O que acontece a dois mil camponeses acampados dez semanas numa vila holandesa de verão sabe-se antes de contar. Falta tudo. A Coroa pagava, dizia-se, um florim por dia por cabeça, e com um florim por dia em 1819 comia-se, mas não se vivia. Veio a varíola, que a vila jurava não ver havia mais de um século, e os hospitais de Dordrecht e de 's-Gravendeel encheram-se de suíços com o rosto marcado. Os que morreram foram enterrados ao lado de uma igreja do lugar. Hoje a igreja é um supermercado e o cemitério, um estacionamento, e não há ironia nisso; há só a Holanda, que aproveita o terreno.

 

Os Leimgruber atravessaram as dez semanas inteiros. Os sete filhos, Luce, Ignaz. Não há registro de doença, e a ausência de registro, aqui, é notícia: numa família de sete crianças em 's-Gravendeel, não perder nenhuma antes do mar era já ter tido sorte. Fidel passou de sete para nove meses num acampamento, mamando de uma mãe alimentada a um florim.

 

Em setembro os primeiros navios saíram. O Daphné no dia 11; o Urania, o Deux Catherine e o Debby-Elisa no dia 12. Os Leimgruber não estavam neles. Ficaram mais um mês, vendo o outono holandês chegar às tendas, e embarcaram em 10 de outubro, com os passageiros de mais dois navios que saíram no mesmo dia, o Heureux Voyage e o Camillus. O deles chamava-se Elisabeth-Marie.

 

Desceram o canal e o Haringvliet até o mar do Norte. Pela primeira vez na história dessa família, a água não tinha margem do outro lado.

 

CAPÍTULO 9

Elisabeth Marie 

Atlântico, outubro a dezembro de 1819 

 

Do navio sabe-se o nome, as datas e o que se sabe de todos os navios daquela leva. Um veleiro fretado, de madeira, com um porão arrumado às pressas em beliches de tábua para gente que nunca tinha visto um beliche nem o mar. Centenas de pessoas num casco feito para carga. Água em barris, que azeda em três semanas. Biscoito que se bate na mesa antes de comer, para sair o que mora dentro. Carne salgada, favas, aguardente para os marinheiros. Um balde por grupo. Um capitão que falava uma língua e passageiros que falavam duas outras, o francês dos friburgueses e o alemão dos de Argóvia, Lucerna e Solothurn, e no meio o latim do padre, quando havia padre.

 

Os primeiros dias foram o canal da Mancha em outubro, isto é, vento, chuva e um enjoo que deitou o porão inteiro. Depois o golfo da Biscaia, que é onde o Atlântico ensina aos que vêm de terra firme o que é o fundo de uma onda. Depois, descendo, o vento mudou de humor e o calor começou. A gente do Fricktal não tinha palavra para aquele calor. Tinha palavras para a neve, para o degelo, para o verão de cereja. Para um sol em cima da cabeça ao meio-dia de novembro, não tinha.

 

Perto da linha do equador o vento cessa. O navio para. Fica dias num mar liso como óleo, balançando sem andar, com as velas penduradas, e nesse tempo a água dos barris desce e a doença sobe. Os marinheiros têm um nome para isso, as calmarias, e um ritual para quem cruza a linha pela primeira vez, com Netuno, barba de estopa e um batismo de balde. Não sei se o fizeram com os suíços. Sei que os suíços cruzaram a linha, porque o Rio fica do outro lado dela, e que para gente que mal sabia onde ficava o equador num mapa, atravessá-lo foi um acontecimento sem sensação nenhuma. A linha não existe. Só o calor existia.


A cerimônia da passagem do equador num navio inglês: Netuno de tridente, a mulher dele, o balde para o batismo e, no alçapão, a cabeça de um marinheiro à espera da vez. Aquarela de Julius Caesar Ibbetson (1759-1817), que mostra a cerimônia a bordo do Vestal. Não se sabe se a fizeram com os suíços do Elisabeth-Marie. Yale Center for British Art, B1986.29.428, domínio público (CC0), via Wikimedia Commons.
A cerimônia da passagem do equador num navio inglês: Netuno de tridente, a mulher dele, o balde para o batismo e, no alçapão, a cabeça de um marinheiro à espera da vez. Aquarela de Julius Caesar Ibbetson (1759-1817), que mostra a cerimônia a bordo do Vestal. Não se sabe se a fizeram com os suíços do Elisabeth-Marie. Yale Center for British Art, B1986.29.428, domínio público (CC0), via Wikimedia Commons.

Cinquenta e sete dias. O Deux Catherine, que saíra um mês antes, levaria cento e quarenta e seis, por tempestades e calmarias, e chegaria depois. O Elisabeth-Marie teve uma viagem normal, e uma viagem normal, em 1819, no porão de um veleiro com centenas de camponeses, era uma viagem em que morriam crianças. Dos trezentos e oitenta e nove mortos que a empresa de Gachet deixou entre a Holanda e a serra, duzentos e dezesseis tinham até nove anos. O número não é acaso de estatística. É o retrato de um porão: quem morre de água ruim, de fluxo de ventre, de febre e de falta é quem tem menos corpo para gastar.

 

Luce amamentava. Fidel, com nove, dez, onze meses, bebia o que o corpo de uma mulher de trinta e sete anos alimentada a biscoito e carne salgada conseguia produzir, e era, nessa conta, o filho mais protegido do navio: o único que não dependia do barril. Maria Carolina tinha cinco anos e achava que ajudava. Anton Ignaz, Fridolin e Johann Baptist, de catorze, doze e dez anos, aprenderam no convés o que aprendem os meninos nos navios: nós, palavrões em duas línguas, o jeito de os marinheiros subirem na enxárcia. Marcus tinha seis anos. Blasius tinha oito.

 

Ignaz, aos quarenta e oito, não tinha função. Um camponês num navio é um saco de farinha que fala. Não há terra para cavar, não há diária para alugar, não há nada que um homem de braços possa fazer num convés que os marinheiros já não façam melhor. Pela primeira vez na vida, o homem da cova de barro foi inútil por dois meses seguidos, e desconfio que isso tenha sido mais difícil do que o enjoo.

 

Em novembro a costa do Brasil apareceu e desapareceu à esquerda, uma linha de serras verdes atrás de nuvens, dias seguidos, descendo. O capitão sabia o caminho; os passageiros só sabiam que aquilo, enfim, era a terra prometida pelos folhetos, e que os folhetos não tinham dito que ela seria tão comprida. Fazia calor. Blasius adoeceu.

 

CAPÍTULO 10

Quatro de dezembro 

Ao largo da costa fluminense, 4 e 6 de dezembro de 1819 

 

Blasius morreu no dia 4 de dezembro de 1819, com oito anos, do que matava as crianças nos navios, que era quase sempre o mesmo: o fluxo, a água, o calor, e um corpo pequeno demais para a soma. Estava a dois dias do Rio de Janeiro. Ninguém a bordo sabia que eram dois dias; o capitão talvez soubesse, e o capitão não contava os dias pelas crianças.

 

Chamava-se Blasius, pelo bispo que salva gargantas. Tinha nascido em Herznach, o único dos irmãos a nascer na aldeia velha depois de a família descer para Aarburg, debaixo do teto onde Nicolau morria em cores, e foi, dos sete, o único que o mar levou. Não se tira conclusão disso. Diz-se.

 

No mar enterra-se depressa, por causa do calor e dos vivos. Costura-se o corpo numa lona ou numa rede, com um peso aos pés, pedra ou ferro, para que afunde e não siga o navio. Põe-se numa tábua junto à amurada. Se há padre, o padre lê; se não há, lê o capitão, no seu idioma, e os pais ouvem num outro. Reza-se o que se sabe de cor. Inclina-se a tábua. O que se ouve é pouco: um ruído de água, e o navio que continua, porque o navio não para para ninguém.

 

Luce tinha trinta e sete anos e seis filhos vivos, um deles no colo. Ignaz tinha quarenta e oito. Não ficou escrito o que disseram, e é bom que não tenha ficado, porque qualquer coisa que eu escrevesse aqui seria minha, e não deles. Fica o fato: em 4 de dezembro de 1819, numa latitude que ninguém da família sabia ler, um menino de Herznach foi posto na água morna de um mar que a aldeia não imaginava, perto de um cabo a que os portugueses tinham dado o nome de Frio. Era a única coisa fria daquela costa. O nome.

 

Dois dias depois, no dia 6, o Elisabeth-Marie entrou na baía.

 

Era dia de São Nicolau, o padroeiro dos marinheiros e das crianças, o santo do teto de Herznach. O calendário não tem intenção; registro a data porque ela está nos papéis, e deixo a quem lê a tarefa de não tirar dela mais do que cabe. Nicolau tinha falhado com uma criança e trazido as outras seis. É o que os padroeiros fazem: não tudo.

As últimas linhas da relação dos mortos a bordo do Elisabetha Maria: Philippe Herdy, de seis meses, da Argóvia, em 18 de novembro; José Florêncio Lantelme, de um ano e meio, do Valais, em 4 de dezembro; e, no mesmo dia, «Leimgruber Braz, filho de Ignacio», oito anos, Argóvia. Braz é Blasius em português. Embaixo, o fecho do vigário: «fiz estes assentos, que por verdade assinei. Jacob Joye». Livro 1 de Óbitos da Catedral de São João Batista, Nova Friburgo. Fundação D. João VI.
As últimas linhas da relação dos mortos a bordo do Elisabetha Maria: Philippe Herdy, de seis meses, da Argóvia, em 18 de novembro; José Florêncio Lantelme, de um ano e meio, do Valais, em 4 de dezembro; e, no mesmo dia, «Leimgruber Braz, filho de Ignacio», oito anos, Argóvia. Braz é Blasius em português. Embaixo, o fecho do vigário: «fiz estes assentos, que por verdade assinei. Jacob Joye». Livro 1 de Óbitos da Catedral de São João Batista, Nova Friburgo. Fundação D. João VI.

A baía de Guanabara, vista de dentro de um navio, não se parece com nada que a gente do Fricktal tivesse visto. A entrada entre duas pedras, uma delas um pão de açúcar; depois uma água enorme, fechada, com ilhas; serras de todos os lados, verdes até o alto, de um verde que os Alpes não têm; uma cidade baixa, de casas brancas e igrejas, encostada à água, com fortalezas e muitos navios. Fundearam diante do Paço, onde morava o rei que os tinha mandado buscar. O rei não apareceu. Apareceu, nos dias seguintes, um monsenhor chamado Miranda, inspetor da colonização, que subiu a bordo, falou com os que entendiam alguma coisa de francês e consolou os que não entendiam nada. A primeira noite no Brasil passaram-na em redes, no navio. Viram a cidade ao pôr do sol. Sabe-se disso porque alguém escreveu.

 

Viram também, do convés, o que a cidade era. No cais e nas lanchas, nas ruas visíveis da beira-d'água, nos barcos que vinham vender fruta, a maior parte dos corpos era negra, e a maior parte dos corpos negros era escrava. O Rio de Janeiro de 1819 era o maior porto de escravos do mundo, e o decreto que tinha mandado buscar cem famílias de suíços católicos, honestos e laboriosos era, entre outras coisas, um pedido de corpos de outra cor. Ninguém disse isso aos colonos, nem na Suíça nem no folheto. Não foi preciso. Estava diante deles na baía, na primeira hora, e eles o viram antes de ver a serra.

 

Blasius não viu. Era o sétimo. A conta, a partir dali, é de seis.


CAPÍTULO 11

Rio acima

Baía de Guanabara e rio Macacu, 7 a 19 de dezembro de 1819 

 

Desembarcaram em lanchas. Não no cais da cidade, que não era para eles, mas direto do navio para barcos a remo e a vela que atravessaram a baía inteira, de oeste a leste, com a cidade ficando para trás e as serras vindo ao encontro. A baía de Guanabara, por dentro, é uma planície de água com morros de pedra nascendo dela, e no fundo, a nordeste, o mangue, os rios lentos, o calor parado. Num lugar chamado Tamby, na margem de lá, puseram o pé em terra. O chão não balançava. Balançou por mais um dia, dentro das pernas, como balança em todo mundo que desce de um navio.

 

Ficaram cinco dias ali, a descansar, dizem os papéis. Descansar, para duas mil pessoas que acabavam de sair de dois meses de porão, quer dizer adoecer em terra do que se adoeceu no mar. Era dezembro, começo do verão, a estação das chuvas da baixada: calor de trinta e tantos graus, chuva à tarde, mosquito à noite, uma água de rio que ninguém sabia se se bebia. O Fricktal não tinha mosquitos assim. O Fricktal não tinha dezembro assim.


Thomas Ender, vista do Rio de Janeiro e da baía. Ender esteve no Rio de julho de 1817 a junho de 1818, como pintor da expedição austríaca que veio com a arquiduquesa Leopoldina. No caminho, em primeiro plano, homens e mulheres negros levam cargas à cabeça. Foi o que os colonos viram dois anos depois, antes de ver a serra. Wikimedia Commons, domínio público.
Thomas Ender, vista do Rio de Janeiro e da baía. Ender esteve no Rio de julho de 1817 a junho de 1818, como pintor da expedição austríaca que veio com a arquiduquesa Leopoldina. No caminho, em primeiro plano, homens e mulheres negros levam cargas à cabeça. Foi o que os colonos viram dois anos depois, antes de ver a serra. Wikimedia Commons, domínio público.

Depois subiram o rio. O Macacu era então um rio navegável, de canoas e barcos chatos, que entrava pela planície entre canaviais e mato até uma vila chamada Santo Antônio de Sá, que os portugueses tinham fundado no século XVII e que ninguém chama mais pelo nome, porque a vila morreu de febre nas décadas seguintes e hoje é ruína. Em 1819 estava viva, e tinha um convento de franciscanos, São Boaventura, de pedra, com claustro, que o governo transformou em hospital para os suíços. Ali deixaram os doentes e os que iam morrer. Quem não podia subir a serra ficou no claustro, e muitos ficaram de vez. As ruínas do convento ainda estão lá, no meio do mato, e são, sem placa, o primeiro cemitério dos suíços no Brasil.

 

Os Leimgruber não deixaram ninguém. Seis filhos tinham sobrado do mar; seis subiram.


As ruínas do convento franciscano de São Boaventura, na antiga vila de Santo Antônio de Sá, hoje Porto das Caixas, em Itaboraí, tombadas pelo Iphan. Em dezembro de 1819 o convento serviu de hospital aos colonos que não podiam subir a serra. Foto: Ricardo Stuckert, Presidência da República, setembro de 2024, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.
As ruínas do convento franciscano de São Boaventura, na antiga vila de Santo Antônio de Sá, hoje Porto das Caixas, em Itaboraí, tombadas pelo Iphan. Em dezembro de 1819 o convento serviu de hospital aos colonos que não podiam subir a serra. Foto: Ricardo Stuckert, Presidência da República, setembro de 2024, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.

De Macacu em diante foi por terra. Os homens a pé, as mulheres e as crianças em carros de boi, que são a coisa mais lenta que o Brasil inventou e a mais ruidosa: o eixo de madeira chia o dia inteiro, e diz-se que o carreiro gosta do chiado, porque é assim que sabe que o carro anda. Fidel foi de carro de boi com a mãe, aos onze meses, chiando pela planície. O caminho passou por uma fazenda de açúcar chamada Fazenda do Colégio, e o nome não é acaso: tinha sido dos jesuítas, dos filhos de Inácio, até o marquês de Pombal os expulsar e a Coroa ficar com a terra. Em 1819 a fazenda tinha mais de trezentos escravos. Os colonos olharam, e alguém escreveu depois que ficaram chocados com o tratamento. Ignaz, o homem com nome de santo jesuíta, atravessou a pé uma fazenda que os jesuítas tinham feito trabalhar por africanos, a caminho de uma terra que o rei lhe dava para que o Brasil tivesse, além dos africanos, alguns brancos. Ele não sabia disso em tantas palavras. Sabia o que via.

 

No pé da serra, nas Cachoeiras, os carros de boi pararam, porque a serra não é lugar de carro. Dali para cima era trilha. Barro vermelho, molhado, numa mata que fecha em cima da cabeça, com uma luz verde e um barulho de água em todo lado. Sobe-se mil metros em um dia, e os colonos subiram com o que podiam carregar, e o resto em mulas. As crianças pequenas, diz o mesmo relato, foram carregadas nas costas por escravos. É preciso parar nessa frase. O sétimo filho de Ignaz Leimgruber, nascido debaixo de uma fortaleza em Aarburg, batizado a pé em Olten, amamentado a florim em 's-Gravendeel, sobreviveu ao Atlântico para subir a Serra do Mar nas costas de um homem que não tinha nome nos papéis, porque os papéis não davam nome a homens assim.


O corpo branco que o decreto pedia chegou ao seu lote carregado pelo corpo negro que o decreto não mencionava. Chamou-se a isso colonização, e chama-se ainda, a todo arranjo em que uns chegam carregados e outros carregam. Não escrevo isso como símbolo. Escrevo porque alguém viu e anotou, e porque é a coisa mais exata que se pode dizer sobre o Brasil que os recebeu.

 

Em cima, a névoa. A serra de Nova Friburgo vive dentro de uma nuvem metade do ano, e em dezembro, com as chuvas, a outra metade.

 

Chegaram no dia 19 de dezembro de 1819, treze dias depois de fundear no Rio, ao lugar que o rei tinha comprado para eles: uma fazenda chamada Morro Queimado, num vale alto, a oitocentos e tantos metros, com um rio pequeno no meio e montanhas de pedra em volta. Não viram as montanhas. Viram o nevoeiro, e dentro dele umas casas de madeira e barro, numeradas, levantadas às pressas pelo inspetor para os que iam chegar. Na casa 26 entraram Ignaz, Luce, os seis filhos e Françoise Huber, solteira, que a matrícula lança junto com eles e de quem não se sabe mais nada.

 

Fazia frio. Depois de dois meses de calor, depois da baixada, depois da serra, no alto chovia fino e fazia um frio de outono do Aar, com cheiro de terra molhada. Luce disse alguma coisa. Não sei o quê. Digo que reconheceu o cheiro.



CAPÍTULO 12

Morro Queimado 

Nova Friburgo, dezembro de 1819 a abril de 1820 


O nome já era um aviso. Morro Queimado é morro que foi queimado, isto é, mata derrubada e posta no fogo para abrir pasto, a maneira portuguesa de fazer fazenda, e a fazenda que a Coroa comprou para os suíços era exatamente isso: um vale de capim pobre entre morros de pedra, longe de tudo, a quatro dias de viagem da cidade, com terra que não presta para trigo e um clima que não presta para cana. Comprou-se porque estava à venda e porque o inspetor achou o lugar são. Tinha razão na metade. O lugar é são. A terra não.

 

Passaram o Natal de 1819 na névoa. Houve missa, com o padre que tinha vindo com os friburgueses, no oratório que o rei mandara arrumar na varanda da casa da fazenda, à espera de uma igreja que ainda não existia, e com um Deus que entendia as duas línguas. Foi o primeiro Natal da família fora da Suíça e o primeiro sem Blasius. Não ficou escrito como foi. Fica dito que foi. Dois dias depois chegou o Heureux Voyage, e a casa 26 ficou cheia: mais oito pessoas, de outras famílias e de outro navio, dezesseis ao todo em quatro quartos. As famílias de verdade eram mais que as casas, e o inspetor fez famílias de papel do tamanho das casas.


Novo Friburgo, Colonia Suissa, ao Morro Queimado: a vila vista por Johann Jacob Steinmann, litógrafo suíço que trabalhou no Rio de 1825 a 1833, gravada por Friedrich Salathé para os Souvenirs de Rio de Janeiro, publicados em Basileia e Paris entre 1835 e 1839. Wikimedia Commons, domínio público.
Novo Friburgo, Colonia Suissa, ao Morro Queimado: a vila vista por Johann Jacob Steinmann, litógrafo suíço que trabalhou no Rio de 1825 a 1833, gravada por Friedrich Salathé para os Souvenirs de Rio de Janeiro, publicados em Basileia e Paris entre 1835 e 1839. Wikimedia Commons, domínio público.

Depois do Natal veio o que vem sempre depois da chegada: a morte adiada. Os que tinham aguentado o mar e a serra para morrer em terra morreram em janeiro, fevereiro, março, nos meses de chuva, de febre, de disenteria, da fraqueza acumulada de seis meses de viagem. A colônia, escreveu alguém da época, parecia um hospital, não uma festa. Um médico de Estavayer, de nome Porcelet, que tinha sido o primeiro a pisar no lugar, fez o que um médico de 1820 fazia, que era pouco. Em julho, com a seca, morreram cinco; em agosto, oito; nos meses de chuva tinham sido muitos mais. Dos dois mil e seis que tinham deixado a Suíça, chegaram à serra mil seiscentos e trinta e um. A conta oficial fechou em 18 de fevereiro de 1820, quando o último navio desembarcou os seus, e é uma conta que inclui os que chegaram para morrer.

 

Os Leimgruber não morreram. Seis filhos em janeiro, seis em abril. Numa colônia de órfãos, foi a sua sorte, ou a sua constituição, ou a de Luce.

 

Em 3 de janeiro de 1820 o rei assinou o decreto que criava a vila, e em 17 de abril, com a estação seca e os sobreviventes contados, a vila foi instalada: Nova Friburgo, nome de Friburgo, cantão de que a família não era, com uma Câmara eleita entre os colonos, cinco bairros, cada um com o seu chefe, e um inspetor que proibiu o furto, regulou a caça e mandou lavar as mãos. Em 26 de abril, depois da missa, sortearam-se os lotes. À casa 26 coube o terreno 26. As vizinhas, 25 e 27, tiraram o 72 e o 83, de modo que a coincidência foi só coincidência. O lote era da casa, isto é, dos dezesseis, e o número, numa história que até ali só tinha dado nomes de santos, foi a primeira coisa brasileira que os Leimgruber receberam: um algarismo.

 

A casa 26 na matrícula dos colonos suíços. No alto, os oito chegados no Feliz Viagem, que é o Heureux Voyage;  abaixo, «Ignace Langrüber, 48», do Elisabeth Mª, com 19 de dezembro de 1819 na coluna do dia em que começaram a receber o subsídio. Seguem Luce, 38; Antoine, 14; Fridelin, 12; Jean Bapt., 10; «Marth., sa fille», 6; Mª Caroline; Fidèle, sem idade e com a nota «não recebe». Fundação D. João VI, Nova Friburgo.
A casa 26 na matrícula dos colonos suíços. No alto, os oito chegados no Feliz Viagem, que é o Heureux Voyage; abaixo, «Ignace Langrüber, 48», do Elisabeth Mª, com 19 de dezembro de 1819 na coluna do dia em que começaram a receber o subsídio. Seguem Luce, 38; Antoine, 14; Fridelin, 12; Jean Bapt., 10; «Marth., sa fille», 6; Mª Caroline; Fidèle, sem idade e com a nota «não recebe». Fundação D. João VI, Nova Friburgo.

O lote era terra de morro, com mata na parte de cima e capim pobre embaixo, e o que se podia fazer com ele era o que os suíços sabiam fazer: batata, milho, feijão, uma vaca. Plantaram milho e feijão, dizem os relatos, porque era o que a terra dava e o que os brasileiros plantavam, e assim a primeira colheita da colônia suíça foi uma colheita indígena, de duas plantas que a Europa não conhecia em 1500. Ninguém reparou na ironia. Tinham fome.

 

Havia indígenas. Em 3 de dezembro de 1819, antes mesmo de a família subir a serra, tinha chegado do Rio uma ordem para afastá-los dos novos brancos, e a expressão é do documento, não minha: os novos brancos. As visitas continuaram por um tempo, gente de outra língua que aparecia na beira da mata, olhava e ia embora, e os colonos, que no começo se assustavam, depois se acostumaram, diz o relato, como se acostuma a tudo. Havia escravos, nas fazendas vizinhas e no serviço do próprio inspetor, e os colonos, que tinham ficado chocados na Fazenda do Colégio, acostumaram-se a isso também, e alguns, uma geração depois, teriam os seus. Não os Leimgruber de 1820, que não tinham com que comprar uma enxada. Mas a palavra "ainda" pesa nessa frase, e eu a deixo pesar.

 

E havia a língua. Na colônia falava-se francês e alemão, e as duas metades não se entendiam, e nenhuma entendia o inspetor, os soldados, os tropeiros, os escravos, os caboclos que vendiam farinha. O português era a língua de fora, a do poder e a do comércio, a dos que mandavam e a dos que carregavam. Os adultos aprenderam o que se aprende de uma língua aos quarenta e oito anos, com fome: os nomes das coisas que se compram e as ordens que se recebem. Ignaz nunca falou português. Falou o suficiente para ser entendido, que é outra coisa, e morreu dezesseis anos depois, em Euclidelândia, perto de Cantagalo, falando alemão com a mulher e um português de tropeiro com todo o resto. Luce viveu quarenta e cinco anos no Brasil e morreu em 1864, em São Sebastião do Alto, com oitenta e dois, numa terra onde já ninguém sabia o que era o Fricktal. Isso é para depois. Em 1820 eram dois estrangeiros de meia-idade, numa casa de barro com número, com seis filhos que iam aprender depressa o que eles nunca aprenderiam.

 

CAPÍTULO 13

Primeiros passos 

Nova Friburgo, verão de 1820 

  

Fidel andou em Nova Friburgo. A conta é simples: nasceu em 10 de janeiro de 1819, e uma criança anda entre os doze e os quinze meses, isto é, entre janeiro e abril de 1820, e nesses meses a família estava na casa 26, na névoa do Morro Queimado. Não andou em Aarburg, onde tinha meses. Não andou no Reno, onde se dormia sentado. Não andou em 's-Gravendeel, nem no porão do Elisabeth-Marie, nem no carro de boi, nem nas costas do homem que o subiu a serra. Os primeiros passos do sétimo filho de Ignaz Leimgruber foram no barro vermelho do Brasil, e esta é das poucas frases deste livro que a aritmética sustenta quase sozinha. Descendo desse menino, e talvez por isso essa conta me importe tanto.

 

O barro vermelho. A casa 26 era de madeira e barro, como a de Herznach, com uma diferença de cor: o barro do Fricktal é cinza, o da serra fluminense é vermelho, de ferro, do mesmo ferro que os Erzner cavavam nas colinas de Wölflinswil e que aqui está solto na terra, tingindo tudo. A casa era de pau a pique: varas amarradas e barro socado entre elas, que é a técnica que os portugueses trouxeram, que os africanos conheciam de casa e que os suíços chamavam, na sua língua, de parede de Lehm. Ignaz Leimgruber, o homem da cova de barro, acabou os seus dias numa terra onde o barro era a única coisa que sobrava e onde o seu nome, pela primeira vez na história da família, dizia exatamente o que ele fazia. Rebocou a casa 26 com as mãos. Depois rebocou outras. Era o que sabia.

 

Com a seca de abril a névoa se desfez, e pela primeira vez a família viu o vale. É um vale alto, fechado, com montanhas de pedra nua em volta, de formas que parecem feitas de propósito e não são, e um céu que, nos meses secos, fica de um azul que a Europa do norte não tem. Luce viu as pedras e deve ter pensado em alguma coisa. Nos Alpes, talvez, que ela nunca tinha visto de perto, porque Herznach fica no Jura e o Jura é outra coisa. Ou na Staffelegg. Ou em nada. Uma mulher de trinta e oito anos com seis filhos e uma horta por fazer não tem muito tempo para paisagem.

Neu Freiburg von der Südseite gesehen, Nova Friburgo vista do sul: a vila no fundo do vale, entre morros, com a mata em primeiro plano e o caminho de barro. Desenho de Hermann Burmeister, litografia de W. Loeillot, Berlim, Georg Reimer, 1853. Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, USP, via Wikimedia Commons, domínio público.
Neu Freiburg von der Südseite gesehen, Nova Friburgo vista do sul: a vila no fundo do vale, entre morros, com a mata em primeiro plano e o caminho de barro. Desenho de Hermann Burmeister, litografia de W. Loeillot, Berlim, Georg Reimer, 1853. Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, USP, via Wikimedia Commons, domínio público.

Fidel andou pela casa, pelo terreiro, pela lama. Caiu, levantou, caiu. Maria Carolina tinha cinco anos. Anton Ignaz, com catorze, já trabalhava com o pai na terra e na obra; Fridolin, com doze, também; Johann Baptist, com dez, e Marcus, com seis, faziam o que os meninos de seis e dez anos faziam numa colônia que se construía: tudo, mal. Era uma família grande num lugar pequeno, e isso, pelo menos, era igual.

 

O que mudou, e mudou depressa, foi a ordem das coisas na cabeça das crianças. Em Aarburg a família era o sotaque, a minoria, os católicos de nomes esquisitos numa cidade reformada. Em Nova Friburgo eram católicos entre católicos, com nomes iguais aos dos vizinhos, e o esquisito era outro: era a língua. Os friburgueses falavam um francês que os de Argóvia não entendiam; os brasileiros falavam uma coisa que ninguém entendia; e entre as duas, os meninos Leimgruber descobriram que uma criança aprende em um ano o que um adulto não aprende em vinte. Johann Baptist começou a trazer para casa palavras que o pai não conhecia. Marcus começou a brincar em duas línguas. Fidel, que ainda não falava nenhuma, ouvia.

 

Era o único que não tinha nada para desaprender.

EPÍLOGO

A primeira palavra 

Nova Friburgo, 1821

 

A primeira palavra em português que um Leimgruber disse, ninguém anotou. Não se anota isso. Anotam-se batismos, casamentos, lotes, mortes; a primeira palavra de uma criança fica na memória da mãe e morre com ela, e Luce morreu em 1864 sem deixar nada escrito, porque não escrevia.

 

Sei o que posso saber. Sei que Fidel fez dois anos em janeiro de 1821, na casa 26, e que a língua da família era o alemão do Fricktal, uma fala de vale que já em Aarburg soava rude e que no Brasil não soava nada, porque ninguém a ouvia. Sei que a língua de fora era o português, e que ela entrava na casa pela porta, com o tropeiro que vendia sal, com o soldado do inspetor, com o vizinho de outra língua que usava o português como ponte, com os homens escravos que trabalhavam a terra do inspetor e cujas palavras, num lugar sem padre que as proibisse, chegavam às crianças como chegam as palavras: sem pedir licença. Sei que uma criança de dois anos aprende a língua que ouve, e que ouve mais do que os pais pensam.

 

A primeira palavra, portanto, foi uma palavra que entrou pela porta. Não foi Mutter, nem Brot, nem nenhuma das que a mãe dizia. Foi uma palavra brasileira, dita por um brasileiro, repetida por um menino que não sabia que estava mudando de país na boca.

 

Eu digo que foi terra. Digo, e digo que inventei: não há registro. Mas a palavra estava no ar como nenhuma outra. Era a palavra do decreto, a palavra do lote, a palavra do sorteio, a palavra que os adultos repetiam em três línguas porque era a única coisa que tinham vindo buscar e a única que lhes tinham dado. Terre, diziam os friburgueses. Land, diziam os de Argóvia. Terra, diziam os brasileiros, os que a tinham e os que trabalhavam a dos outros, e Fidel, no chão da casa 26, com as mãos no barro vermelho, disse a terceira.

 

Em Babel as línguas se confundiram para que os homens se dispersassem. Na casa 26 confundiram-se para que ficassem.

 

Ignaz ouviu e não entendeu. Era uma palavra do país. Ele tinha quarenta e nove anos e cinco pátrias nas costas, e sabia que não ia aprender a sexta. Luce entendeu, porque as mães entendem antes de saber. O menino disse de novo. Os irmãos riram. Um deles repetiu em português, para ensinar, e com isso a casa 26 passou a ter, naquela tarde de 1821, uma língua a mais do que tinha de manhã.

 

É assim que uma família muda de país. Não no navio, não no desembarque, não no lote. Muda quando o filho mais novo diz uma palavra que o pai não entende, e a mãe sorri, e ninguém corrige.

 

Eles vieram. O resto é o que veio depois.

 

 

 

 

 
 
 

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