Barro, poça, bosque, selva. E pedra!
Tenho quatro avós, como todo mundo. A diferença não está na conta. Está no que cada um carregou na bagagem e no que foi perdendo pelos cartórios do caminho.
Os suíços chegaram primeiro. Em 1818, dom João VI assinou o decreto que mandava buscar famílias helvéticas para povoar uma serra fluminense que ainda nem nome de cidade tinha. Na Suíça, a fome era recente. Dois anos antes o verão simplesmente não viera, as lavouras apodreceram no pé, e o país contava mais bocas do que pão. Ignaz Leimgruber e Luce Hartmann, de Herznach, no cantão de Argóvia, resolveram partir. O filho caçula, Fidel, nasceu em Aarburg em 10 de janeiro de 1819. Quando a família deixou a Europa, ele ainda era de colo. Atravessou o oceano sem escolher nada, empurrado pela fome dos mais velhos e pela assinatura de um rei que nunca viu.

Leimgruber, no alemão daquela gente, quer dizer algo como “o da cova de barro”. O Brasil não teve paciência com o ditongo. Um escrivão ouviu Leimgruber e escreveu Lemgruber; outro ouviu Lemgruber e escreveu Lengruber. Cada pena lixou um pouco a palavra, como o rio lixa a pedra, até que ela coubesse na boca da serra. De Fidel veio Antonio José Lemgruber; dele, Augusto Lemgruber, que se casou com Olivia Wermelinger; deles, meu avô, Beethoven Wermelinger Lengruber.
Um menino batizado Beethoven estava condenado à música ou à galhofa. Meu avô escolheu a música. Ele tocava trompete. Beethoven casou-se com Maria Anna, e com ela entra Portugal.
Francisco Lopes nasceu em Fragosela, nos arredores de Viseu, em 27 de dezembro de 1850, filho de Joaquim e Antonia, numa Beira Alta que, naquele século, mandava rapazes para o Brasil como quem manda cartas: muitos, e sem garantia de resposta. Não sei em que navio veio nem em que ano desembarcou. Sei que em 28 de setembro de 1878 estava diante do altar da paróquia de São José, casando-se com Maria Roza, nascida ali mesmo, em São José do Ribeirão, em 1862. Ela teria uns dezesseis anos. Os livros a chamam ora Maria Roza da Silva, ora Maria Pereira, ora Maria Pereira Diniz, porque no século XIX o nome de mulher era coisa que o padre anotava conforme lhe vinha à pena. O nome dele também não escapou: em certos assentos, Francisco Lopes virou Francisco Lopes da Poça, acréscimo que os livros de Fragosela desconhecem.

Reparo na geografia dos sobrenomes. De um lado, um suíço da cova de barro. Do outro, um português da poça. Terra e água. Com isso se faz tijolo; com isso também se faz lama. A família, como toda família, fez as duas coisas.
Francisco morreu em 1924. Seu filho João Lopes de Almeida, nascido em 1890, casou-se com Oscarina Teixeira, e em 20 de setembro de 1931 nasceu Maria Anna, minha avó. Em agosto de 2023, aos noventa e um anos, ela assinou a procuração para pedir de volta a cidadania do avô. Há netas que pedem a bênção. A minha pediu também o passaporte.
De Beethoven e Maria Anna nasceu, em Duas Barras, em 1952, Maria Beethania, *minha mãe*.
Agora o lado de meu pai, que é o lado da pedra.
Luigi Emiddio Lo Bosco nasceu em Francavilla in Sinni, na Basilicata, em 4 de novembro de 1859. Sei a data porque vi a fotografia de seu Atto di Nascita. A Itália, porém, não aceita fotografias. Quando fomos buscar o original, a paróquia de Francavilla guardava um vazio exatamente naqueles anos. O homem de quem herdei o sobrenome existe em imagem e não existe em documento: deixou o retrato da certidão, não a certidão. Em 1882, aos vinte e dois anos, subiu no navio Poitou declarado jornaleiro, isto é, homem que vende o dia. No Brasil fez-se pedreiro, num tempo em que Nova Friburgo crescia de tijolo em tijolo, e morreu em 30 de dezembro de 1939 registrado como comerciante. Subiu a escada social um degrau por vez, carregando a própria argamassa. Os escrivães daqui, que tinham pouca intimidade com o italiano, às vezes o chamaram Emilio.
Maria Giuseppa Petrillo nasceu em San Giovanni a Piro, no Cilento, em 5 de janeiro de 1876. Em 1893, aos dezessete anos, desceu do A. Doria. Em 25 de junho daquele mesmo ano casou-se com Luigi em Bom Jardim. Ele tinha trinta e três. Não sei quantos meses separaram o porto do altar; sei que foram poucos. O Brasil a rebatizou Maria José Pettrilo, com dois tês que ela nunca pediu.

Petrillo vem de Pietro, Pedro, pedra. É diminutivo: pedrinha. E foi essa pedrinha que mudou a minha vida, cento e trinta anos depois, porque Maria Giuseppa nunca se naturalizou brasileira. Viveu aqui, criou filhos aqui, morreu aqui, e no papel continuou italiana.
A lei italiana antiga só reconhecia a cidadania passada pelo pai. Mulher não transmitia. Foi preciso um juiz em Salerno, em setembro de 2024, para dizer que a pedrinha transmitia, sim, e que nada se interrompera desde ela. Em 28 de agosto de 2025, meu nome e o nome dos meus filhos foram transcritos nos livros do comune de San Giovanni a Piro, a aldeia de onde ela saiu menina. Carrego, portanto, o sobrenome do homem e a cidadania da mulher. Dele, o nome sem o papel. Dela, o papel sem o nome.
Luigi e Maria Giuseppa tiveram Raphael, nascido em Bom Jardim em 16 de fevereiro de 1896. Raphael casou-se em 1919 com Laura Gonçalves Neves, e entre as testemunhas assinou um Lourenço Petrillo, artista, natural da Itália, o que sugere que a pedrinha não viera sozinha. Deles nasceu, em 1923, meu avô Dacy Lobosco.
Dacy casou-se em 1949 com Augusta de Azevedo Silva. Da minha avó Augusta, os papéis que reuni dizem pouco: o nome, o casamento, o filho. Das quatro raízes, é a única que meus documentos ainda não levaram a porto algum, e talvez por isso seja a mais brasileira de todas. Silva vem do latim e quer dizer selva, mata. Lobosco, muito provavelmente, é o italiano Lo Bosco: o bosque. Quando Dacy e Augusta se casaram, o bosque casou-se com a mata. Não poderia haver união mais friburguense. Em 1953 nasceu Ricardo Silva Lobosco, meu pai.
Faço as contas. Argóvia, Basilicata, Cilento, Beira Alta. Quatro pontos num mapa que nenhum deles conheceu inteiro. E todos foram dar no mesmo punhado de morros: Nova Friburgo, Bom Jardim, São José do Ribeirão, Duas Barras. Atravessaram o mar para morar a poucas léguas uns dos outros, sem saber que estavam marcando encontro. O encontro sou eu, nascido em Nova Friburgo em 25 de julho de 1975.
O nome Augusto, que passou pela casa dos Lemgruber e pela de minha avó Augusta, voltou a morar em um de meus filhos. Os nomes têm dessas coisas. Saem de casa, dão a volta ao mundo e reaparecem à porta como quem esqueceu o guarda-chuva.
O Gênesis conta que Deus tirou o primeiro homem da adamah, a terra, e por isso o chamou Adão. Durante anos li a passagem como teologia. Hoje leio também como genealogia.
Sou feito de barro suíço e de poça portuguesa, de bosque e de pedra italianos, de mata brasileira.
O oleiro usou o que tinha à mão. E o que tinha à mão veio de longe.





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