O voto e o devoto
O sábado foi feito por causa do homem,
e não o homem por causa do sábado.
Marcos 2,27
Na mesa do almoço de domingo, alguém sempre diz que o Brasil está dividido ao meio. Polarizado. Diz isso servindo-se de mais arroz, com a segurança de quem descreve o clima. De um lado, um polo; do outro, o polo contrário. Dois campos, duas bandeiras, duas metades de um país que não se entende. A imagem é cômoda. Cabe na manchete e no grupo da família. E é falsa.
Polo é palavra de física. Supõe dois extremos da mesma natureza, ímãs de sinal trocado, forças equivalentes que se repelem com igual intensidade. Não é isso que temos. Temos, de um lado, um partido. Com todas as suas contradições, os seus erros, as suas conciliações de ocasião e os seus escândalos, o Partido dos Trabalhadores é uma força política: disputa eleições, perde, ganha, negocia, governa, sofre oposição, cede, recua. Durante vinte anos digladiou-se com outra força política, o PSDB, enquanto o PSDB existiu como coisa séria. Era um jogo áspero, mas era um jogo. Havia adversário. Havia regras. Havia, sobretudo, o dia seguinte.
Do outro lado do que hoje se chama polo não há um partido. Há uma devoção.
A palavra é clara. Devoto vem do latim devotus, particípio de devovere: consagrar-se por um voto, entregar-se inteiramente a um deus. E voto, antes de ser papel na urna, era isso mesmo: votum, promessa solene feita à divindade. O português guardou as duas acepções na mesma palavra, e a coincidência não é inocente. Há quem vote. E há quem faça voto. O eleitor escolhe; o devoto se entrega. Um examina propostas, compara históricos, pesa erros e acertos. O outro já decidiu antes de olhar, porque olhar seria uma espécie de traição.
Não é retórica. É observação de rua, de sala de aula, de mesa de bar. Diante de setecentos mil mortos numa pandemia tratada como gripe, o devoto não pondera. Diante de joias desviadas, vacinas adiadas, salários de assessores repartidos, mansões pagas em dinheiro vivo, o devoto não pondera. Diante de uma condenação a vinte e sete anos por tentativa de golpe de Estado, com quatro votos a um, trânsito em julgado, generais presos e um tenente-coronel delator, o devoto não pondera. Um ano depois do julgamento, uma parcela expressiva do país continua a dizer que não houve golpe nenhum. Não é que faltem provas. É que as provas não servem para nada. Ninguém sai da fé por causa de um documento.
Leon Festinger estudou isso em 1956, num livro pequeno e cruel chamado When Prophecy Fails. Acompanhou uma seita americana que anunciara o fim do mundo para uma data certa. A data passou. O mundo ficou. E os fiéis, em vez de se dispersarem envergonhados, saíram às ruas a pregar com redobrado fervor. A profecia frustrada não enfraqueceu a crença; fortaleceu-a. Quem investe tudo numa fé não suporta a hipótese de ter investido mal. É mais barato negar o mundo do que negar a si mesmo.
Chame-se a isso dissonância cognitiva, como quer a psicologia, ou dureza de coração, como preferem os profetas. O mecanismo é o mesmo. E explica por que o fanático não se converte pelo argumento. Fanático, aliás, é outra palavra que vale a pena revirar. Vem de fanum, templo. Fanaticus era o que estava tomado pelo deus do templo, o inspirado, o possuído. E profano, o seu contrário, é o que fica pro fano, diante do templo, do lado de fora. A política, para ser política, precisa ser profana nesse sentido preciso: acontecer fora do templo, à luz do dia, sujeita a crítica, a erro e a alternância. O que aconteceu no Brasil foi o inverso. Fizeram da política um templo. E fizeram do templo um comitê.
Como se chega a isso? Não foi em 2018. E não foi em 2013, embora as ruas daquele junho tenham aberto a porta por onde tudo passou depois. A raiz é mais funda e mais antiga.
Sérgio Buarque de Holanda chamou de cordial o homem brasileiro, e o adjetivo tem sido mal lido desde 1936. Cordial não é gentil. É o que vem do coração, cor, cordis, e por isso mesmo é incapaz de distinguir o público do privado, a lei do afeto, o Estado do compadre. O brasileiro cordial não obedece a regras; obedece a pessoas. Não vota em programas; vota em padrinhos. Raymundo Faoro descreveu a outra face da mesma moeda: um Estado que nunca foi de todos, apropriado desde o primeiro dia por um estamento que o tratou como fazenda. E Gilberto Freyre, mesmo quando romantizava, deixou registrado o essencial: a casa-grande e a senzala não são dois mundos; são um só, e o segundo aprendeu a desejar o primeiro.
Aí está o nó. Quase quatro séculos de escravidão, e uma abolição feita de modo que nada mudasse, ensinaram a este país uma pedagogia perversa: a de que a saída da miséria não é a justiça, mas a proximidade com o senhor. Paulo Freire deu nome a isso em Pedagogia do Oprimido: o oprimido hospeda dentro de si o opressor. Não sonha em derrubar a casa-grande; sonha em morar nela. E, enquanto não mora, defende-a.
Há quem diga, com alguma razão, que a tese do patrimonialismo virou desculpa de elite: o povo seria corrupto por natureza, e a elite, apenas o seu retrato ampliado. Jessé Souza fez essa crítica com vigor, e ela merece ser ouvida. Mas o fato é que a relação torta com o Estado existe nas duas pontas. Em cima, captura-se o Estado para preservar privilégios. Embaixo, usa-se o Estado para sobreviver, sem que jamais se peça a ele que garanta o bem comum, porque nunca ninguém viu o Estado fazer isso. Onde nunca houve república, não se aprende a ser cidadão. Aprende-se a ser cliente.
É por isso que a pergunta mais dolorosa desta campanha não tem resposta fácil. Como é que o trabalhador sem carteira, a mãe sem creche, o jovem sem perspectiva de aposentadoria, o velho que vive de um benefício, como é que essa gente rechaça, e com raiva, o único projeto político que em duas décadas acenou, ainda que timidamente, para as suas necessidades mais elementares? Cotas, renda mínima, luz na roça, universidade no interior, remédio de graça. Coisas modestas. Coisas que mudaram a vida de milhões. E que, no médio prazo, viraram combustível do ressentimento.
Porque o pobre que subiu um degrau olha para trás e vê outro pobre subindo. Não olha para cima; olha para o lado. E a diferença importa muito. Quem olha para cima pergunta por que a escada é tão comprida e quem a construiu. Quem olha para o lado só quer saber quem chega primeiro. Inveja, em latim, é invidere: olhar de través, com maus olhos. Foi assim que o Brasil ensinou seus pobres a olhar.
Ensinou por um motivo simples. Quatro séculos de escassez distribuída por favor convenceram este país de que os bens da vida são poucos e descem de cima para baixo, por escolha do senhor. Nessa aritmética, o que o outro ganha é o que eu perco. A vaga que a filha da vizinha ocupou por cota é a vaga que meu filho não terá; o benefício do desempregado é o imposto que eu pago; a carteira assinada da empregada é o salário que já não posso pagar. Cada conquista alheia soa como furo na fila. Mas quem se sente ameaçado por quem parece furar a fila esquece de perguntar quem armou a fila. Ela existe porque há um único elevador para milhões, e o dono do prédio não está nela: sobe por escada privativa, há gerações.
Já escrevi que as multidões com fome se acotovelam quando se lhes jogam migalhas. Brigam entre si pela ordem de chegada, não por mais pão. E, enquanto brigam, preservam os que nunca precisaram entrar na fila. O andar de cima conhece o mecanismo: cede um anel, a cota, o Bolsa Família, o salário mínimo valorizado, para conservar os dedos, a terra concentrada, os juros da dívida, o imposto que pesa no consumo do pobre e poupa a herança do rico. E agradece em silêncio, porque a briga na fila lhe poupa o trabalho de brigar.
Falta nisso tudo ainda uma peça, e é a mais incômoda para quem, como eu, faz da fé cristã o seu chão.
Como é que um povo que se diz cristão, que enche templos aos domingos, que traz a Bíblia debaixo do braço, que confessa um Jesus de Nazaré que tocou leprosos, comeu com pecadores, livrou uma adúltera do apedrejamento e disse que o sábado foi feito para o homem, como é que esse povo entrega o seu voto, e o seu votum, a um projeto que celebra torturadores, despreza os fracos e zomba da dor?
A resposta pede que se olhe para o modo como o cristianismo chegou aqui. E ele não chegou como Evangelho. Chegou como repartição pública.
Entre as primeiras coisas que os portugueses fizeram nesta terra, uma foi rezar uma missa; a outra, tomar posse. As duas eram uma só. Pelo regime do padroado, a Igreja no Brasil colonial era um departamento da Coroa: o rei nomeava bispos, pagava o clero, recolhia o dízimo. Os jesuítas, que educaram este país por dois séculos, ensinaram muitas coisas boas e uma péssima: que a fé se organiza em hierarquia, que a salvação passa pela obediência, que o mundo é lugar de provação e não de transformação. O padre Antônio Vieira, o maior de todos, chegou a pregar aos escravizados que o seu cativeiro era imitação da paixão de Cristo. Consolava. Não libertava. Era um catolicismo de cristandade, que abençoava a ordem porque era a ordem que o sustentava.
Depois vieram os protestantes, e não vieram melhores. Os históricos do século XIX trouxeram a escola, o hino e a Bíblia em português, e isso não é pouco. Mas o protestantismo que se firmou aqui foi o de missão, vindo dos Estados Unidos, e vindo em parte no rastro de uma derrota. Os primeiros batistas do Brasil foram confederados que fugiram do fim da escravidão no sul dos Estados Unidos e se instalaram no interior paulista, a partir de 1866, onde ainda se podia ter escravos. A convenção que depois os organizou, a Batista do Sul, nascera em 1845 de uma cisão sobre se um missionário podia ser senhor de escravos. O metodismo que me formou como pastor voltou ao país em 1867 acompanhando esses mesmos confederados. Não digo isso para desqualificar ninguém; digo para lembrar que o cristianismo protestante chegou ao Brasil com a mesma ambiguidade do católico: salvava almas e convivia com a senzala.
Rubem Alves, que era protestante e sabia do que falava, chamou a isso de Protestantismo da Reta Doutrina: uma religião que troca a experiência pela certeza, o Evangelho pelo manual, a graça pela vigilância. Uma fé que precisa de inimigos para se sentir viva. O mundo é inimigo, a ciência é inimiga, o diferente é inimigo. Quando o pentecostalismo chegou, em 1910, e depois o neopentecostalismo, em fins dos anos setenta, encontrou esse terreno pronto. Acrescentou-lhe a promessa da prosperidade e a linguagem da guerra espiritual. E, mais tarde, a teologia do domínio, que ensina que os cristãos devem ocupar os palácios porque o Reino de Deus se instala por decreto.
É claro que há outra história dentro dessa história. Houve Dom Helder, houve Richard Shaull, houve as comunidades de base, houve uma Igreja que fez a opção pelos pobres. Costuma-se dizer, com alguma ironia, que a Igreja optou pelos pobres e os pobres optaram pelos pentecostais. A ironia tem o seu fundo de verdade. A teologia da libertação falava de estrutura; o pentecostalismo falava de emprego, de casamento, de filho que saiu da droga. Uma falava aos intelectuais que amam o povo; a outra falava ao povo.
E é aqui que o nó teológico se fecha sobre o nó político. Uma fé que aprendeu a obedecer em vez de discernir, que aprendeu a temer o mundo em vez de habitá-lo, que aprendeu que Deus tem partido, essa fé não precisa examinar propostas de governo. Basta-lhe saber de que lado está o Bem. O pastor diz, o grupo confirma, o algoritmo repete. E votar diferente vira pecado.
Não é o Evangelho. Jesus de Nazaré não pediu obediência a um homem; pediu que se amasse o próximo. Não prometeu um governo; anunciou um Reino que começa pelos últimos. Foi executado pelo Estado com a anuência do templo, e nisso há uma lição que os cristãos brasileiros insistem em não ler. Uma fé que celebra o poder que crucifica não é fé cristã. É outra coisa, com o mesmo nome.
Resta o tempo em que vivemos, e ele não ajuda. A linguagem política deixou de falar das necessidades da população para falar daquilo que a comove. Virou dialeto. Não se discute mais renda, escola, transporte, previdência; discute-se ameaça, medo, inimigo, família em perigo. Jürgen Habermas passou a vida a sustentar que a esfera pública só é democrática quando é o lugar do melhor argumento. O que temos hoje é o lugar do melhor estímulo. O algoritmo não premia quem tem razão; premia quem provoca. E a inteligência artificial, que poderia ampliar a razão, tem sido usada para fabricar comoção em escala industrial. Byung-Chul Han chamou a isso de infocracia: um regime em que a informação circula tanto que já não informa ninguém.
Nesta campanha de 2026, cada dia traz um escândalo novo. Um filho de presidente investigado por tráfico de influência. Um candidato que pediu dinheiro a um banqueiro em apuros para financiar um filme sobre o pai condenado. Uma anistia prometida, um Supremo em crise, a esposa do condenado candidata ao Senado. Não há dia sem pedra no caminho. E escândalo, na origem, é exatamente isso: skándalon, em grego, a pedra em que se tropeça, a armadilha de mola. Cada escândalo é uma pedra atirada aos pés de quem tentava caminhar até a urna com alguma clareza. Tropeça-se todo dia. Nunca se chega à discussão do que importa: que país queremos, quem paga a conta, para quem se governa.
Não escrevo isto com desprezo pelo devoto. Conheço-o. Fui pastor por uma década e sei que, na maioria dos casos, o devoto é gente boa, gente que trabalha, que cuida dos filhos, que procura no templo o que o Estado nunca lhe deu. A sua fé não é o problema. O problema é o que fizeram com a sua fé. Sequestraram-lhe a esperança e devolveram-lhe um candidato. Trocaram-lhe o Reino por uma bandeira.
E, no entanto, há saída, porque sempre houve. A mesma Bíblia que serve de escudo ao fanatismo contém os profetas que denunciaram os reis, o carpinteiro que virou as mesas do templo e o apóstolo que disse que a letra mata. A mesma escola que foi capturada pela ideologia do medo pode ensinar a duvidar. A mesma praça que foi ocupada pelo ódio pode voltar a ser praça. Anísio Teixeira dizia que a educação não é privilégio; e a democracia, acrescento, tampouco é milagre. É trabalho. É a lenta e teimosa conversão do devoto em eleitor.
Não há dois polos no Brasil. Há uma república inacabada e uma devoção que a dispensa. A tarefa deste outubro, e de todos os outubros que virão, não é escolher um lado. É escolher, simplesmente. Porque eleger, eligere, é isso: separar, discernir, tirar de dentro do monte a coisa que presta. Devotos fazem votos. Eleitores, pelo voto, fazem escolhas!
Prof. Ricardo Lengruber






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