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RECONHECIMENTO

10 de set.
4 min de leitura


dois lados importados,

uma pasta de documentos e

um arquivo que o Brasil mandou queimar


Outros houve dos quais não há memória:

pereceram como se nunca tivessem existido.

Eclesiástico 44,9


Estou num grupo de WhatsApp com primos que eu não conhecia. Somos parentes de quarto e quinto grau, moramos em estados diferentes, nunca almoçamos na mesma mesa e trocamos, quase todo dia, fotografia de papel velho.


É um processo de reconhecimento de cidadania italiana. A palavra é essa: reconhecimento. O direito, dizem os italianos, existe desde o nascimento, e o que se faz num processo desses é só provar que ele já estava lá.


O que estava lá era Luigi Emiddio Lo Bosco.

Ele aparece três vezes, em três documentos, com três profissões. Nos anais da imigração, jornaleiro. Na certidão de nascimento dos filhos, pedreiro. No assento de óbito, comerciante. Uma vida inteira cabe nessas três palavras, e nenhuma delas foi escrita por ele.


O modo como veio parece roteiro de cinema. Ela saiu da Itália com a família; ele veio atrás; a família dela resolveu voltar; ele voltou atrás; e por fim vieram os dois, juntos, e aqui fincaram raiz. Maria Petrillo. Três travessias do Atlântico por causa de uma moça.


Encontramos também o registro de uma doação que ele mandou para a igreja da santa de devoção, na Itália. Um pedreiro de bolso curto separando dinheiro para uma santa que ficara do outro lado do mar. Hoje isso tem nome técnico e conta bancária: remessa. É o que o haitiano do Acre e o boliviano do Brás fazem todo mês, e ninguém acha bonito.


Luigi morreu em 30 de dezembro de 1939, num lar espírita para idosos. Na linha dedicada a ele, num livro empoeirado, o escrivão anotou com letra mal desenhada: desincarnou. Com i no lugar do e. Encarnar é entrar na carne. O homem errou a palavra e acertou a tese.


Do outro lado da minha casa a história é mais antiga e mais fria.


Em 1819 dois mil suíços assinaram um contrato que os obrigava a renunciar à cidadania e embarcaram rumo a uma serra que nenhum deles tinha visto. Meu pentavô Ignaz Leimgrüber estava entre eles, com a mulher e sete filhos. Chegou com seis. O que morreu no meio do Atlântico tinha oito anos e não tem sepultura em lugar nenhum do mundo.


Duas famílias, dois séculos, dois portos de saída, uma coisa só.


Nenhum dos meus dois lados veio por convite. Vieram por encomenda.


D. João VI, com a corte instalada no Rio desde 1808 e cercada de uma população escravizada que a assustava, queria colonos brancos, católicos e europeus. Sessenta anos depois, no apagar das luzes da escravidão, os fazendeiros de café queriam braços brancos para substituir os braços que tinham deixado de poder comprar. São Paulo chegou a pagar a passagem. As duas correntes atenderam ao mesmo pedido, escrito com todas as letras em documento oficial: clarear o país.


É desconfortável escrever isso, e é verdade. Sou produto, dos dois lados, de uma política de Estado sobre a cor da população.


O Brasil recebeu, entre 1870 e 1930, cerca de quatro milhões de pessoas. Portugueses, italianos, espanhóis, alemães, japoneses, sírios, libaneses, poloneses, ucranianos. Tem hoje a maior população de origem japonesa fora do Japão. E não exigiu quase nada de nenhuma delas: nem diploma, nem exame de língua, nem comprovante de renda, nem exclusividade de nacionalidade.


Penso nisso quando lembro de agosto de 2018, em Pacaraima, Roraima: brasileiros tocando fogo nos pertences de venezuelanos e empurrando gente de volta para o outro lado da fronteira. Penso nisso quando ouço reclamação de boliviano em oficina de costura, dita por gente cujo sobrenome termina em vogal. O bisneto do pedreiro reclamando do pedreiro.


Agora a volta.


Meu trisavô entrou no Brasil com o que tinha no corpo. Para que eu entre na Itália monta-se um dossiê: certidões em inteiro teor, retificação de grafia em cartório, tradução juramentada, apostilamento, anos de fila. E, desde março de 2025, o Decreto Tajani limitou a transmissão a filhos e netos de italianos nascidos na Itália. Bisnetos e trinetos ficaram, em tese, de fora. Em março deste ano a Corte Constitucional italiana rejeitou a arguição que atacava a lei e manteve a restrição de pé.


A Itália exportou os próprios pobres durante sessenta anos e fechou a porta aos bisnetos deles em sessenta dias.


Só que reclamar disso me obriga a dizer a frase inteira, e o incômodo verdadeiro não é a fila do consulado.


Reconhecer vem de re mais cognoscere: conhecer de novo. Só se reconhece o que já se conheceu uma vez.


Eu consigo a certidão de batismo de um camponês nascido em 1771 numa aldeia de quatrocentos e setenta e oito habitantes, escrita em latim, arquivada em Aarau — e um brasileiro não consegue o primeiro nome da bisavó que nasceu cativa em 1871.


Não consegue porque o Estado brasileiro mandou queimar. Rui Barbosa, ministro da Fazenda, determinou em 1891 a destruição dos papéis relativos à escravidão. Os historiadores mostraram depois que a queima foi menos completa do que a lenda repete, e que muita coisa sobreviveu em paróquia e em cartório. A ordem, porém, existiu, e a intenção era exatamente aquela: apagar. Um país que importou gente branca com contrato assinado teve o cuidado de sumir com o registro da gente preta que já estava aqui.


Não existe processo de reconhecimento possível quando o conhecimento foi ao fogo.


No nosso grupo de primos tem uma menina de dezesseis anos. O pai, separado da mãe, se recusa a assinar os papéis dela. Um direito que é dela desde que nasceu, e que depende da caneta de um homem magoado com outra pessoa.


É a coisa toda em miniatura. Ignaz dependeu do decreto de um rei. Luigi dependeu do funcionário que escreveu certo o sobrenome dele no porto. Eu dependo de uma corte em Roma. Ela depende do pai.


No fim, o que a pasta me deu não foi passaporte. Foi um jornaleiro que virou pedreiro e morreu comerciante. Foi um casal que cruzou o oceano três vezes por teimosia. Foi um menino de oito anos jogado no mar em dezembro de 1819.


Não venho de gente importante. Venho de gente que a Europa não conseguiu alimentar e que o Brasil encomendou a peso de política demográfica. Está tudo em cartório e não me envergonha nem um pouco.


Aos que não têm cartório onde procurar eu não tenho papel a oferecer. Tenho um verbo, e uso: reconheço!


Prof. Ricardo Lengruber




 
 
 

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