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O que a prova não prova

8 de set.
6 min de leitura

o Pisa, o Ideb e o Enem 2025, a febre dos rankings

e a velha confusão entre medir e ensinar


"Mestre não é quem sempre ensina, mas quem, de repente, aprende."

(Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas)


Trinta e quatro dias separaram as duas notícias.


Em 5 de agosto, o Inep anunciou que o Ideb havia chegado, em 2025, ao maior patamar de toda a série histórica: 6,3 nos anos iniciais do ensino fundamental, 5,3 nos anos finais, 4,5 no ensino médio. Em 2005, quando o índice nasceu, eram 3,8, 3,5 e 3,4. O número de municípios com desempenho crítico nos anos iniciais caiu de 4.110 para 442. Houve coletiva, gráfico e comemoração. E havia mesmo o que comemorar, ainda que em parte, já que o dado é sempre enviesado por fórmulas e varáveis que somente os especialistas são capazes de enxergar.


Em 8 de setembro, a OCDE divulgou o Pisa 2025. O Brasil fez 377 pontos em matemática, 408 em leitura, 409 em ciências. Três anos antes fizera 379, 410 e 403. Ficamos em 71º lugar em matemática, entre 89 sistemas com dados na área, oito posições abaixo de 2022. Apenas 28% dos nossos estudantes de quinze anos alcançaram o nível básico de proficiência nessa área, contra 65% na média da OCDE. Em leitura, 49% contra 69%. Em ciências, 48% contra 74%. Quase 44% ficaram abaixo do mínimo nas três áreas ao mesmo tempo; nos países da organização, menos de 20%.


Recorde em agosto. Estagnação em setembro. Os dois institutos estão certos.

O Ideb não é um exame, é uma equação: cruza a proficiência aferida pelo Saeb com as taxas de aprovação do Censo Escolar. Aprovar mais, e aprovar mais rápido, empurra o índice para cima ainda que a aprendizagem ande de lado. O Pisa faz outra pergunta. Não quer saber em que série o menino está; quer saber o que ele consegue fazer aos quinze anos diante de um problema que não veio no livro. Um mede o percurso. O outro mede a bagagem. E aqui está a questão: quando dois instrumentos apontam para lados opostos, o problema raramente está nos instrumentos.


Examen, em latim, é o fiel da balança: a lingueta que oscila, para e informa o peso. Nada mais que isso. A lingueta não acrescenta um grama ao que está no prato. Medir era o gesto final de quem já havia produzido alguma coisa; e virou o gesto inicial de quem ainda não produziu nada.


O Pisa 2025 foi o maior de todos: cerca de 760 mil estudantes, 91 países e economias, 30.140 brasileiros em 1.053 escolas. E produziu a pior média já registrada pela OCDE em leitura e matemática. Entre 2015 e 2025, os países ricos perderam 28 pontos em leitura, algo próximo de um ano e meio de escolaridade, e 22 pontos em matemática. Um em cada cinco jovens de quinze anos nesses países está hoje abaixo do mínimo nas três áreas; em 2022 eram 16%. A Finlândia, vendida aqui durante uma década inteira como milagre pedagógico, perdeu 80 pontos em matemática desde 2006 e 73 em leitura. Nos Estados Unidos, os concluintes do ensino médio registraram o pior desempenho já medido: 22% de proficiência em matemática, 35% em leitura. No alto da tabela, os suspeitos de sempre: Singapura, as jurisdições chinesas de Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang, depois Estônia, Japão, Coreia, Macau, Taipé e o Reino Unido.


Daí a leitura consoladora que circulou por aqui: a distância entre o Brasil e a média da OCDE encolheu. Encolheu mesmo. Em vinte anos, caiu de 102 para 58 pontos em leitura, de 131 para 92 em matemática, de 113 para 77 em ciências, e fomos um dos países que mais avançaram no período. Só que boa parte desse encurtamento não veio de nós subirmos. Veio de eles descerem. Aproximar-se da média porque a média desabou não é chegar. É encontrar-se no meio do caminho.


Convém separar o que cada exame faz. O Pisa é amostral e não tem consequência alguma para quem responde: o adolescente sorteado não ganha vaga, não perde ponto, não repete de ano. O peso recai inteiro sobre governos. O Enem, para usar o exemplo brasileiro, é o oposto. Aplicado a 4,81 milhões de inscritos em 2025, decide vaga, bolsa e financiamento. É porta, não termômetro. E, como toda porta, tem quem não chegue até ela: a abstenção foi de 27% no primeiro domingo e de 30% no segundo. Quase um terço. Esse número não entra em ranking nenhum e é, provavelmente, o dado mais eloquente da edição.


O resto do mundo vive a mesma lógica em temperaturas diferentes. O gaokao chinês e o suneung sul-coreano são ritos nacionais que mobilizam toda a sociedade. O baccalauréat francês vem de Napoleão e continua de pé. A Inglaterra publica ligas de escolas desde os anos 1990. Onde quer que o exame tenha virado destino, apareceu o mesmo efeito, descrito ainda nos anos 1970 pelo psicólogo social Donald Campbell: quanto mais um indicador é usado para decidir, mais ele deforma justamente aquilo que deveria retratar.


Na escola brasileira isso tem nome. Chama-se vestibular. O calendário se organiza em torno dele, o currículo encolhe até caber no gabarito, e o que não cai na prova vira gordura a ser cortada quando o índice aperta: artes, filosofia, sociologia, educação física. A redação vira fórmula com repertório legitimado. A leitura literária vira fragmento seguido de cinco alternativas. O professor, que deveria ser autor de percurso, torna-se cumpridor de matriz. E o estudante aprende, com eficiência admirável, a única habilidade que o sistema de fato recompensa: eliminar as duas alternativas absurdas e chutar entre as três restantes.


Há um efeito mais grave, e menos comentado. O exame individualiza a culpa. Devolve ao adolescente, em forma de nota pessoal, um déficit que foi produzido coletivamente: pela escola sem biblioteca, pela professora com três matrículas, pelo transporte que quebra na estrada de terra, pela sala de quarenta e duas carteiras, pelo pai que perdeu o emprego em março. Todo exame em larga escala promete medir aprendizagem. O que ele mede com mais precisão é a renda da família de quem responde. Isso não consta de matriz de referência alguma.


Sabemos, com três casas decimais, o tamanho exato do fracasso. E depois?


Ainda assim, seria tolice quebrar a balança. Abominar por completo os exames. Basta olhar para o que anda acontecendo com os próprios instrumentos. Nos Estados Unidos, mais de 40% dos estudantes avaliados não responderam ao questionário de contexto, e a OCDE precisou advertir que não conseguia descartar viés no resultado americano; no mesmo período, cerca de uma dúzia de avaliações nacionais foi cancelada por lá, depois dos cortes no órgão federal de estatística educacional. Quando o termômetro incomoda, sempre aparece quem prefira quebrá-lo. Um país que deixa de se medir não fica melhor. Fica apenas sem notícias de si mesmo.


O instituto que aplica essas provas no Brasil leva o nome de Anísio Teixeira, e a ironia aqui é inevitável. Anísio dirigiu aquela casa querendo a escola como laboratório, não como tribunal. Quem passou a vida sustentando que educação é direito público subjetivo dificilmente aceitaria ver a régua ocupar o lugar da coisa medida. Rubem Alves gastou páginas inteiras contra a escola pensada como linha de montagem, e não por desprezo ao conhecimento: porque sabia que ninguém se apaixona por aquilo que existe apenas para ser contabilizado.


Nos dados de 2025 há coisas que ranking nenhum ranqueia. Oitenta e um por cento dos estudantes brasileiros avaliados estudam em escolas com alguma restrição ao uso de celular; em 2022 eram 37%, e a média da OCDE é de 49%. Nesse ponto específico, andamos mais depressa que o mundo rico. E 84% dos nossos adolescentes disseram acreditar que podem provocar impacto positivo sobre o meio ambiente, 87% confiam na ação coletiva e 77% afirmam saber trabalhar em grupo por uma mudança. Todos acima da média da OCDE. Um país que tira 377 em matemática e continua acreditando ser possível fazer alguma coisa junto com os outros não é um país sem esperança. É um país mal ensinado e ainda não fracassado.


Os anos iniciais do fundamental saíram de 3,8, em 2005, para 6,3 em 2025. Não foi milagre nem propaganda: foi financiamento, alimentação escolar, busca ativa de quem sumiu da chamada, alfabetizadora insistindo com criança na carteira. O país sabe fazer, quando decide fazer. Já o ensino médio não alcança a própria meta desde 2013, e parou em 4,5 contra os 5,2 previstos. É ali, entre os quinze e os dezessete anos, que o Brasil perde os seus. E é exatamente ali que o Pisa mostra a realidade.


Nenhuma criança cresceu por causa do risco de lápis no batente da porta. Mas é no batente que se percebe o ano em que ela parou de crescer. A régua serve. O que não serve é confundir a régua que apenas mede com a comida que efetivamente faz crescer.

Avaliar e valer vêm da mesma raiz. Perguntar quanto uma escola vale deveria ser perguntar o que ela faz valer: quem entra, quem permanece, quem sai capaz de ler o mundo e não apenas o gabarito. Nenhuma escala de proficiência alcança isso. E, ainda assim, vale!


Prof. Ricardo Lengruber




 
 
 

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