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Fundamento sem fundamentalismo

6 de set.
6 min de leitura

 

As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei.

Carlos Drummond de Andrade, “Nosso tempo”


 

Toda biografia intelectual guarda um primeiro livro. O meu, aos treze anos, foi a Bíblia. Comecei pelo Apocalipse: bestas, trombetas, números. Eu tinha certeza de que era daquilo que falava o noticiário. Sublinhava versículos com lápis de cor e anotava nas margens frases que hoje me constrangem. Era paixão, e paixão não pede contexto.

 

Alguma coisa, porém, me fazia relativizar a leitura desde o começo. Aos quinze anos li o Salmo 137 até a última linha e não consegui repeti-la em voz alta. Feliz aquele que pegar os teus filhos e os despedaçar contra a rocha. Levei a pergunta ao pastor. A resposta veio rápida. Rápida demais para o tamanho e profundidade da pergunta.

 

Foi o primeiro desconforto com a letra. Não seria o último.

 

Depois vieram o seminário e a universidade, o hebraico, o grego, as fontes, os redatores, o método histórico-crítico. Descobri que o texto tem história, e que explicar essa história é parte de levá-lo a sério. No dia em que um professor me disse, sem qualquer cerimônia, que Moisés não escreveu o Pentateuco, passei algumas semanas dormindo mal. Mas foi muito bom!

 

A exegese carrega na própria formação a ideia de conduzir para fora. Aprendi muito cedo, ao estudar teologia, exegese e hermenêutica, que


o sentido se retira do texto; não se deposita nele.

 

A teologia veio aperfeiçoar o ofício e, de quebra, multiplicar as perguntas. Passei meses debruçado sobre as leis de incesto do Levítico, um código sacerdotal preocupado com terra, parentesco e honra numa sociedade agrária sob ameaça de desaparecer. Quem estuda aquilo de perto sabe o esforço - e o fracasso - que é tentar extrair de lá um programa de costumes para o Brasil do século XXI.

 

Nenhum texto antigo pede licença para ser antigo. O problema é a leitura anacrônica. E anacronismo é a forma erudita da arrogância.

 

Vieram, mais tarde, o Direito, os direitos humanos, a filosofia, a sala de aula. E com eles a chance de ver a Bíblia trabalhando fora do templo: no tribunal, no plenário, no juramento, na tribuna, “com a Bíblia debaixo do braço”. Aprendi ali que existe uma leitura brasileira média das Escrituras, sustentada em meia dúzia de versículos e num acervo considerável de desinformação. O livro mais citado do país é também um dos menos lidos.

 

O estereótipo se repete dos dois lados. O púlpito cita para condenar; a imprensa cita para constatar que a Bíblia condena. Ambos param no mesmo versículo e nenhum dos dois vira a página e aprofunda a leitura. Pode-se dizer com alguma ironia que o fundamentalista e seu crítico leem o mesmo livro, e leem igualmente mal. Em geral, a crítica ao fundamentalismo bíblico padece de outra sorte de fundamentalismo.

 

A quem serve um livro que só confirma o que já se pensava antes de abri-lo?

 

Meu conflito com o literalismo nunca foi com a fé de quem crê. Sempre foi com a pretensão de que ali existe uma única leitura possível e de que ela coincide com os interesses de quem lê. O fundamentalismo não é a fé antiga preservada: é reação moderna, gêmea do positivismo que dizia combater. A inerrância literal, do jeito que se prega hoje, é mais nova que o telefone.

 

Ensino Filosofia do Direito e Teoria da Justiça. Nunca deduzi de um versículo a dignidade da pessoa humana, e desconfio de quem o faça. Além de piegas, seria proselitismo disfarçado. Seria desonesto, no entanto, negar que a insistência bíblica com o estrangeiro, a viúva e o órfão continua trabalhando por dentro de qualquer teoria da justiça que eu leve a sério. O texto não fundamenta o direito. Ilumina a intuição que o direito depois precisa demonstrar.

 

E isso é muito. A Bíblia ensinou o Ocidente a pensar em linha reta. A ideia de que o tempo caminha para algum lugar, de que a história tem começo, sentido e desfecho, não veio dos gregos, que imaginavam o mundo girando em círculos. Veio dos profetas. Hegel e Marx são herdeiros dessa visão de mundo, mesmo quando a viraram do avesso. Habermas, que não foi homem de igreja, reconheceu que o universalismo igualitário de onde saíram os direitos e a democracia descende diretamente da ética judaica da justiça e da ética cristã do amor. Spinoza fundou a crítica bíblica moderna e, no mesmo gesto, escreveu a primeira grande defesa filosófica da liberdade de pensar. Nietzsche escreveu muito a respeito e contra a Bíblia. Quem passa a vida discutindo com um livro está, em algum sentido, sendo escrito por ele.

 

Na política, o Êxodo virou uma lógica. Puritanos ingleses, colonos americanos, escravizados das plantações do Sul, camponeses latino-americanos: todos leram a própria situação a partir da saída do Egito. Martin Luther King citava Amós ao pedir que o direito corresse como as águas. A campanha internacional que, na virada do milênio, arrancou perdão de dívida para países empobrecidos chamou-se Jubileu, porque o Levítico 25 mandava cancelar dívidas e devolver a terra de cinquenta em cinquenta anos. O mesmo livro, é justo dizer, sustentou o púlpito que abençoava a senzala.

 

No Direito o rastro é mais claro do que se imagina. As cidades de refúgio separaram o homicídio intencional do involuntário e tiraram do parente da vítima a decisão sobre a vida do matador. Ali começa alguma coisa que hoje chamamos de dolo, culpa e devido processo. O talião, que a leitura apressada toma por barbárie, é limite: um olho, não a aldeia inteira. Proporcionalidade. O Deuteronômio determinou que pais não morressem pelos filhos nem filhos pelos pais, e isso é responsabilidade penal individual num tempo em que se punia a família toda. Stephen Langton, o arcebispo que dividiu a Bíblia nos capítulos que usamos até hoje, é o mesmo que esteve por trás da Magna Carta. Os canonistas medievais discutiam direitos subjetivos séculos antes de qualquer declaração. E foi com a Bíblia aberta que Las Casas sustentou, contra a Coroa e contra o lucro, que o índio era gente.

 

Essa pretensa e equivocada singularidade da Bíblia foi encolhendo à medida que as escavações arqueológicas e estudos literários antigos avançaram. Hamurabi já praticava o talião. Coleções mais antigas que as bíblicas já ensaiavam a responsabilidade individual. A Bíblia não inventou sozinha o mundo jurídico em que vivemos. Participou dele, e participou muito.

 

A Bíblia não caiu pronta do céu. Nasceu numa vizinhança histórica, geográfica e cultural. O Código de Hamurabi é mais antigo que Moisés e trata de coisas parecidas. O dilúvio já corria na Mesopotâmia muito antes de Noé. Israel escreveu concordando, discordando, copiando e corrigindo.

 

Hoje leio a Bíblia como um dos fundamentos a partir dos quais me situo no mundo, e não como o único. Ela está ao lado dos saberes ancestrais dos povos negros e originários, da sabedoria oriental, dos babilônios, dos gregos, dos romanos. Está ao lado da Torá lida por judeus e do Corão lido por muçulmanos.

 

O Novo Testamento guarda, para mim, ao mesmo tempo, uma singularidade e uma distância. Jesus não escreveu uma linha. As primeiras comunidades cristãs não tinham um Novo Testamento; tinham a memória das experiências vividas, a mesa de partilha e os muitos conflitos decorrentes da cruz. Entre o galileu e as cartas há décadas, línguas e cidades de distância. Ler os escritos como transcrição da voz de Jesus é confortável e falso, ao mesmo tempo.

 

A igreja primitiva que tantos invocam com saudade nunca existiu. Boa parte das cartas de Paulo é o registro das brigas. O cristianismo puro das origens é invenção retrospectiva, e cada geração inventa o seu.

 

De tudo o que a crítica desmontou, uma coisa permaneceu de pé. A graça.

 

E gratuidade e religião não se dão bem. A graça não se conquista, não se compra, não se merece, e por isso incomoda quem organiza a vida em torno de trocas. É o único fundamento que não vira fundamentalismo, porque não pode ser convertido em exigência sobre ninguém.


**********

 

Repertório vem do latim reperire, encontrar. É a lista daquilo que se achou e de que se pode lançar mão na hora de dizer o mundo. Essência é outra coisa: é o que estaria por baixo de tudo, imóvel, dispensando a história.

 

A Bíblia não é a essência do mundo. É repertório para atravessá-lo.

 

Continuo lendo todos os dias, agora sem lápis de cor e com muito menos certeza. O menino de treze anos não foi traído. Foi levado mais longe do que era capaz de imaginar! 


Prof. Ricardo Lengruber



 
 
 

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