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Isso não é uma igreja - sobre os desigrejados e o preço do ingresso

20 de ago.
5 min de leitura

Atualizado: 21 de ago.


“Quando vos reunis,

cada um de vós

tem salmo,

tem doutrina,

tem revelação.”

(1Coríntios 14,26)



Rua Palestra Itália, 500. Sala de cinema dentro de um shopping em São Paulo. Ingresso pela internet, parcelado em doze vezes, sem lugar marcado: as cadeiras se ocupam por ordem de chegada. Cem minutos, cinquenta de fala e cinquenta de interação. Classificação, doze anos. O nome é “Isso não é uma igreja”, com Ed René Kivitz. Algo que promete anunciar o singelo espetáculo do Evangelho como superação da religião.


Ironia: Magritte pintou um cachimbo e escreveu embaixo que “aquilo não era um cachimbo”. Chamou o quadro de A traição das imagens. Tinha razão: a imagem do cachimbo não se fuma.


Kivitz também tem razão. Aquilo não é uma igreja, e é exatamente por isso que tanta gente vai.

Kivitz é um dos raros púlpitos brasileiros com alguma teologia. Ele lê. Sustentou décadas numa igreja local, não vende óleo ungido nem promete prosperidade. Não é um charlatão. Justamente por isso vale pensar no que ele faz.


O êxito tem a ver com uma multidão que não consegue mais frequentar igreja e não quer deixar de crer no Evangelho. O Brasil chamou essa coletividade de “desigrejada”, e a palavra é uma pérola. O prefixo privativo a põe na família de desempregado, desiludido, desamparado. Não é escolha, é perda. A linguagem aqui sabe o que a teologia finge não saber: essa gente não saiu, “foi saída”. Expulsa pelo moralismo, pela captura partidária do púlpito, pelo pastor que trocou o sermão pelo comício. [Eu escrevo com as credenciais devolvidas, sem lugar de fala privilegiado e sem ressentimento].


Precisamos ser honestos: reunir essa multidão é serviço pastoral legítimo. O que me interessa aqui, todavia, é analisar a forma: um evento que se anuncia pela negação, dirigido a quem sente falta daquilo que ele nega ser. Um "não-igreja" para "desigrejados". Eclesiologia às avessas. A negação é, ao mesmo tempo, marketing e apelo (para usar um termo que tem sentido muito específico nas igrejas).


Vale a pena olhar para duas palavras gregas que se tocam, nesse caso.


Ekklesía vem de ek-kaleo, chamar para fora: a assembleia dos convocados, com voz e voto, reunida para deliberar e discordar. Igreja vem de ekklesia. E théatron, vem de theáomai, contemplar: o lugar de onde se olha. É lugar de espetáculo.


Igreja, em princípio, mas somente 'em princípio', não é teatro.

Uma institui direito de fala; a outra, direito de assento. Numa sala de cinema as cadeiras apontam na mesma direção e ninguém vê o rosto de ninguém. Aqui, como sempre fora desde as catedrais medievais, arquitetura é teologia em concreto armado.


Apesar de não haver assento assegurado, os cinquenta minutos de interação são generosos. Mas, diga-se, interação não é sinônimo de comunhão. Paulo descreve uma assembleia em que cada um chega trazendo alguma coisa: um salmo, uma doutrina, uma revelação. O microfone que circula pela plateia devolve a pergunta, não a palavra. Perguntar é direito do público. Falar é direito da assembleia, da igreja, da comunidade.


E aqui passo a refletir sobre o que entendo ser Igreja


A multidão não enterra seus mortos.

Comunidade é o que aparece quando o casamento acaba, quando o filho é preso, quando é preciso alguém para carregar o caixão e alguém para lavar a louça depois. A multidão aplaude e vai embora. Uma é liturgia da proximidade; a outra, da visibilidade. O livro de Atos trata de partir o pão de casa em casa, não em lotar a sala de espetáculos.


Não sejamos, ainda, ingênuos no que concerne ao dinheiro. A igreja sempre viveu dele. Chamar de simonia o que se cobra numa bilheteria seria barato e injusto. Mas há uma diferença: a oferta da igreja se recolhe depois (deveria ser, e sei que nem sempre é, gesto de gratidão); o ingresso da palestra (com qualquer nome que tenha) se cobra antes (como condição para entrar na sala). Uma responde à pergunta sobre quem pertence; a outra a responde de antemão. E quando os primeiros lotes ficam reservados aos assinantes da mentoria, o que se inventou tem nome antigo: banco cativo, agora pago por mensalidade.



A bilheteria é uma hermenêutica.

[Aqui não entro nessa palavra, tampouco na prática da tal mentoria; que me parece avessa a qualquer parentesco com o seguimento do Evangelho.]


O que se pode dizer em cinquenta minutos a uma plateia pagante tende a convergir para o que uma plateia pagante quer ouvir. Não por desonestidade do pregador. Mas por conta do formato. Note-se: o mercado não corrompe a mensagem por má-fé; ele apenas seleciona, filtra, "purifica". Só se diz o que já é e já está pacificado. Acredito que não haja, ali, a declinação do verbo central do Evangelho: converter.


Repare-se também nas vestes. A camiseta preta é um paramento, e dos mais eficazes. O banquinho alto, o fundo escuro, o microfone de lapela e o passo calculado pelo palco não são ausência de liturgia: são outra liturgia, importada das conferências de coaching. Casula e estola ao menos se assumiam como fantasia sagrada. O minimalismo que custa mais caro finge não custar nada. Renunciar ao paramento foi o paramento mais bem-sucedido que a religião pós-igreja inventou.


Quem já subiu a um púlpito sabe da sedução das câmeras. Não falo de vaidade, problema menor e de todos nós, mas de estrutura. O campo religioso distribui capital simbólico segundo regras que premiam a voz individual e nada pagam à comunidade anônima. Weber chamou de rotinização do carisma o processo pelo qual a instituição domestica o profeta. Agora se vê o inverso: a rotina se dissolve e sobra o carisma puro do líder; sem concílio, sem colegiado, sem ninguém como instância de controle e contrapeso. Parece paradoxal, mas instituição e clandestinidade habitam os mesmos espaços em tensão permanente.


A instituição, com toda a sua esclerose, tinha, pelo menos, uma virtude: alguém para contestar o pastor. No cinema, o pastor-palestrante é uma atração.

Nada disso desqualifica o que ali se diz. Boa teologia também se faz sob o signo do mercado, e sempre se fez: Lutero teve a imprensa, a Reforma foi um sucesso editorial antes de ser um evento espiritual. O meio nunca foi o problema. O problema começa quando o meio escolhe a mensagem, e quando um sermão precisa se disfarçar de palestra para ser levado a sério pelos próprios crentes.


O pastor que finge não pregar, os crentes que fingem não acreditar e a sala que finge não ser comunidade.

Eu acredito que nem todo mundo precise de igreja ou mesmo de religião. Sem problemas. Mas os desigrejados, que seguem amando o Evangelho, não precisam de um espetáculo melhor. Precisam, penso eu, de um punhado de pessoas que saibam seu nome. De uma sala emprestada, uma mesa, um café, um livro aberto e alguém que pergunte como foi a semana e espere pela resposta. Isso não enche cinema e não vende ingresso. Mas é o que Paulo descrevia ao falar de gente que chega trazendo cada qual a sua parte - "cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação".


O Evangelho dispensa bilheteria. O que nunca dispensou foi a mesa. E numa mesa, ao contrário de uma plateia, a fé protestante no sacerdócio universal dos crentes, nos ensinou que ninguém sabe de antemão quem vai falar primeiro, muito menos, quem vai falar sozinho para gravar corte para as redes sociais.


Prof. Ricardo Lengruber



 
 
 

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