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O cristianismo que nunca existiu

“O meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.”

(2Coríntios 12,9)


Há um cristianismo que nunca existiu. Não falo de heresia sensacionalista nem de evangelho apócrifo enterrado em jarro de barro no deserto. Falo daquilo que foi anunciado na Galileia e que, dois mil anos depois, segue sem nunca ter existido.


Vi já há uns anos, numa igreja, a maquininha de cartão instalada ao lado do púlpito. Não me escandalizei porque a tal maquininha é honesta: ela diz o que a teologia sussurra há pelo menos dezesseis séculos: existe preço. Porque a diferença do cristianismo, quando ele ainda era uma diferença, estava exatamente aí. Não há preço. Não há entrada, parcela, contrapartida, currículo, ficha limpa. Não há como merecer.


A palavra que precisa ser dita e repetida aqui é a palavra graça. Escrevi certa vez que nosso idioma aproxima, sem querer, preço e apreço, como se fosse impossível estimar alguém sem antes cotá-lo. Nossa cultura imprimiu nas palavras seus valores. Apreço só se tiver preço. Graça é o contrário disso. É o que se recebe sem ter feito por onde. É gratuita, é grátis, é de graça. E é tão constrangedora que a língua portuguesa inventou uma saída diplomática: diante do que nos dão sem cobrar, dizemos obrigado. Nosso jeito de agradecer, de reconhecer a graça é uma confissão do contrário de seu significado. Confessamos a dívida no instante exato em que ela é perdoada.


O avesso da graça tem nome, e é do campo jurídico: mérito. Merecer é receber o soldo, estar na folha de pagamento, ter cumprido escala. Justiça, nesse regime, é contabilidade: a cada um segundo o que fez. É uma ideia decente e honesta, convenhamos. Sustenta tribunais, sustenta contratos, sustenta a vida em comum. Só não sustenta o Evangelho.


Outras palavras ajudam a entender o nó. Mercê, o favor imerecido, e mercado vieram do mesmo campo semântico do pagamento devido ao trabalhador. Até a palavra que escolhemos para dizer da bondade gratuita foi buscada no departamento financeiro.


A graça, contudo, não é política de descontos divina. Ela decorre de uma imagem de Deus que nenhuma religião teve coragem, ou ousadia, de desenhar.


Um Deus que sofre, que perde, que chora, que lamenta, que morre. Diriam alguns, um Deus que fracassa.

Não é o motor imóvel dos gregos. É um Deus que chega atrasado ao enterro do amigo e chora ali, em público, sem explicar o atraso. Um Deus preso sem resistência, julgado por tribunal covarde, torturado por soldados entediados e executado como agitador político entre dois ladrões. Um Deus que grita abandono e morre gritando.


A palavra técnica da teologia para isso é kenosis, esvaziamento. Deus se despe de poder para poder amar, porque amor com poder coercitivo não é amor, é gestão. Bonhoeffer, escrevendo de uma cela em Tegel enquanto a Europa experimentava o terror de uma guerra, anotou que só um Deus sofredor pode socorrer. Um Deus fraco. Comercialmente, todavia, esse Deus é um desastre.


Nietzsche escreveu que houve apenas um cristão e que ele morreu na cruz. O diagnóstico é tanto exato quanto generoso: concede ao cristianismo uns poucos anos de existência.


Porque a subversão daquela "religião" ainda em gestação não começou em Roma. Começou à mesa. Enquanto o mestre falava de lavar pés, os discípulos discutiam organograma: Tiago e João já pleiteavam os assentos à direita e à esquerda. É como se disséssemos que a igreja nasceu antes da igreja. Lá na idealizada tal igreja primitiva já estava a semente da instituição tão jovem quanto fossilizada.


O golpe definitivo levou trezentos anos e chegou como signo de vitória. Desde sempre o Cristianismo padeceu de ressentimento. Perseguidos aprendem cedo a ser perseguidores. In hoc signo vinces. Com este sinal vencerás. O sinal era a cruz. A cruz, que era o método romano de humilhar escravos e sediciosos, virou insígnia de exército. A arma de matar virou anúncio de uma fé. Em 380, o Édito de Tessalônica transformou o culto dos perseguidos em culto obrigatório do Império, e em poucas décadas os mártires viraram magistrados. A fé nascida do fracasso de Deus tornou-se uma das religiões mais bem-sucedidas da história.


E esse sucesso, penso eu, foi a forma mais completa do fracasso.

Instalada no poder, a graça precisou de administração. Foi então que o cristianismo mostrou seu talento verdadeiro, que não é a mística: é a contabilidade. Inventou-se o purgatório, crédito rotativo da alma. Inventou-se o tesouro de méritos dos santos, fundo de reserva. Inventou-se a indulgência, nota promissória com desconto para pagamento à vista. Havia tabela de preços por ano de pena remida. O escritório funcionava com uma eficiência semelhante ou superior a qualquer banco moderno.


Nas cruzadas, bordava-se a cruz no peito de quem ia matar. Na Inquisição, queimava-se o corpo para salvar a alma. Ninguém se sentia vilão, todos se sentiam libertadores.


Lutero viu o absurdo e protestou. Sola gratia. Somente a graça, sem obra, sem taxa, sem intermediário. Durou pouco. Dentro de uma geração o balcão foi remontado do outro lado da rua. Já observei, noutro texto, que instituição nenhuma suporta a dinâmica da liberdade absoluta. Weber narrou o desfecho: com as premissas da Reforma, pretensamente emancipadoras, se ninguém sabe quem foi eleito, o sucesso material passou a valer como prova de um mérito. E, de novo, a graça sucumbiu diante do preço.


No Brasil, a cruz desembarcou junto com a espada e ficou de pé sobre a senzala. Rezava-se missa no engenho, batizava-se gente no porto para que a mercadoria chegasse cristã, e havia capela dentro de propriedade cujo lucro dependia do chicote. O que assombra não é a hipocrisia. É que ninguém percebeu contradição alguma. A fé acomoda quase tudo, desde que a teologia esteja alinhada.


Chegamos ao presente, e o presente é apenas antigo. A teologia da prosperidade não é invenção brasileira nem desvio pentecostal recente. É a teologia da retribuição, a mais velha de todas, com roupa nova e equipamento de som melhor. A fórmula dos amigos de Jó permanece intacta: se você sofre, é porque falhou; se prospera, Deus aprovou. Jó perdeu essa discussão por três mil anos seguidos, e continua perdendo dentro das próprias igrejas.


Essa discussão se atualiza em campanhas, correntes, propósitos, fogueiras, sacrifícios, chaves, mantos, sal grosso ungido. O dízimo, que era gesto de gratidão, virou contrato bilateral com ameaça para o inadimplente. A frase que sintetiza tudo: faça a sua parte que Deus faz a dele. É a negação exata da graça. Voltaram os sacrifícios que o Nazareno dispensou. Voltou o templo que ele disse que cairia. Voltou o sacerdócio intermediário que ele tornou desnecessário. Voltaram os cambistas; aliás, esses nem precisaram voltar, porque nunca chegaram a sair de fato, apesar das chicotadas.


Seria cômodo parar minha crítica por aqui, com o dedo apontado para os suspeitos de sempre. Mas não é honesto. O cristianismo progressista, onde aprendi e vivi por trinta anos, fez a mesma coisa com vocabulário mais cauteloso. Trocou a lista de pecados por uma lista de posições corretas. Também ali é preciso merecer para pertencer, também ali existe folha de pagamento, só que a moeda é a opinião certa e o carimbo é a bibliografia recente e homologada por uma turma encastelada.


A graça, quando aparece nesse cristianismo de "esquerda", costuma vir acompanhada de nota de rodapé. Tudo precisa ser explicado, porque afinal de contas não há graça barata. Perceba: essas duas palavras não poderiam dividir a mesma frase. De novo, graça e preço juntas.


E não escrevo de fora. Devolvi minhas credenciais sim, mas não devolvi a formação que tive e sigo construindo. Fui pastor por décadas e sei muito bem o que é anunciar gratuidade na manhã de domingo e passar a semana cobrando fidelidade. A gente cobra sem perceber, automática e espontaneamente, como respirar.


O que explica reincidência tão fiel á doutrina da retribuição, por vinte séculos, em todas as latitudes e todos os matizes doutrinários? Penso que não seja maldade do indivíduo religioso, que é gente exatamente como as outras, nem melhor nem pior. A explicação é mais simples, mas me parece muito pior.


A graça é insuportável.

Ninguém aguenta receber sem merecer ou sem dever. A igreja fez o ajuste para que a graça fosse suportável: descaracterizou-a. A religião é a correção da graça, ela transforma o dom em algo administrável, mensurável, cobrável.


Daí a tese dessa crônica: ser cristão é impossível. Não difícil, não exigente, não custoso. Impossível. Exige viver segundo uma economia que não é a nossa, amar sem calcular retorno, perdoar sem exigir contrição, aceitar que os últimos serão os primeiros mesmo quando fomos nós que acordamos cedo. Nenhuma sociedade humana jamais funcionou assim.


Mas penso que nada do que aqui está dito seja motivo para dor ou desespero. Porque a graça, ao contrário das igrejas, não depende de instituição. Ela vaza. Aparece onde não foi convidada, sem pedir autorização e sem preencher formulário. Aparece na professora que aguenta o aluno que ninguém aguenta e não conta a ninguém que aguentou. Aparece na mãe que atravessa o estado para visitar o filho no presídio depois que todo mundo desistiu dele, inclusive Deus, segundo dizem os especialistas em Deus. Aparece no perdão concedido a quem não pediu desculpas, que é o único perdão de verdade, porque os outros são acordos.


Já escrevi que, na cruz, quase todos tinham ido embora e ao pé dela ficou a mãe. Ela não estava ali por doutrina, por mérito ou por recompensa. Estava porque era filho dela. O amor é graça, e graça não tem porquê, menos ainda merecimento. Simplesmente ama. Onde alguém dá sem cobrar a fatura, ali está a graça, com ou sem o colorido da fé religiosa.


O cristianismo, portanto, não fracassou. Ele nunca chegou a ser tentado. E talvez seja essa a única boa notícia ainda disponível. O que nunca existiu é justamente aquilo que ainda pode acontecer. Não temos nada a merecer. Temos tudo a receber!


Prof. Ricardo Lengruber



 
 
 

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