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A Fé e o Fosso

15 de ago.
5 min de leitura

Atualizado: 16 de ago.

Com os meus ouvidos eu ouvira falar de ti,

mas agora os meus olhos te veem.

 Jó 42,5

 

O que mais há é fé, no Brasil. A vírgula aqui é importante. Não se trata de fé no Brasil, necessariamente. Mas fé, muita fé no território nacional. Fé em Deus, com muitos nomes e cores. Mas há uma fé, em particular, apesar de ser plural e heterogênea, que vem emergindo nem tão silenciosamente, nas últimas décadas: a fé evangélica. E aqui cabe, desde logo, uma observação preliminar: as igrejas evangélicas no Brasil são uma rede multifacetada, dinâmica, com identidades e perfis muito distintos entre si.

 

Por isso o título dessa reflexão – há fé e há fosso. O Brasil é religioso até as entranhas. E entre o Brasil do andar de cima e o Brasil real há um fosso quase intransponível.

 

Há, na Grande Salvador, um bairro operário sem agência bancária, sem posto fixo de polícia, sem banca de jornal. As três bibliotecas públicas que ali existiam fecharam por desuso ou para ceder espaço a salas de aula que faltavam. Nesse mesmo bairro, uma livraria prospera.


Vende Bíblias.

 

A imagem pertence ao antropólogo Juliano Spyer, que morou dezoito meses no lugar com a família e acaba de publicar O Brasil dos Evangélicos, apresentado há poucos dias em entrevista ao jornalista Breno Altman. Spyer fora estudar outra coisa, a relação entre internet e mobilidade social entre os pobres; a religião impôs-se como o dado que não cabia no projeto. Havia ali uma capela católica, nove terreiros de candomblé e mais de oitenta igrejas evangélicas. Havia também um agente comunitário de saúde que, ao fim de uma ronda, resumiu o que a universidade não enxergava: as casas bem pintadas, de móveis novos, eram todas de crentes.

 

Pode haver nessa afirmação algum reducionismo. Mas o fato é que, sim, a relação entre evangélicos e “estabilização” sócio financeira é real.

 

Spyer chama o que encontrou de milagre sociológico. Não se refere a curas. Refere-se ao culto como sala de aula: alguém à frente com um livro aberto, todos os demais com o mesmo livro: “- leia comigo, repita, comente com o vizinho de banco”. Refere-se à placa que anuncia alfabetização de adultos aos sábados, ao ônibus noturno lotado de operários a caminho de faculdades modestas, à amiga que aprendeu a ler aos dezessete anos soletrando a Bíblia. Refere-se, ainda, ao único portão que o crime organizado reconhece para quem deseja sair vivo: a conversão, desde que verdadeira.

 

O censo de 2022 contou 26,9% de evangélicos; somadas as tradições que o recenseador separa e o cotidiano mistura, chega-se perto de um terço do país. Em 1970, eram cinco em cada cem brasileiros. Nenhum país de dimensão continental mudou de fisionomia religiosa com semelhante velocidade. Diante de grandeza assim, a pergunta que abre o livro de Spyer soa menos como curiosidade e mais como exame de consciência: quem tem medo dos evangélicos? Por que há esse fosso entre setores progressistas e comunidades evangélicas?

 

A esquerda letrada costuma reduzir o fenômeno ao retrato de meia dúzia de pastores milionários e da bancada que negocia cargos em Brasília. O retrato existe; eu mesmo já escrevi, noutro lugar, contra o altar convertido em palanque. Tomar a parte pelo todo, porém, tem nome antigo: preconceito, o conceito fabricado antes do encontro. Julga-se sem conhecer; condena-se de ouvir falar. Confesso que também a mim esse atalho já serviu.

 

A antropóloga Cláudia Fonseca sustenta que as camadas médias e altas do Brasil conversam com o povo apenas em dois momentos: no café da manhã, com a empregada, e na hora do assalto. A caricatura tem algum preconceito, sim. Mas ela chama a isso, acertadamente, de apartheid. Spyer, que atravessou a fronteira, diz ter pisado pela primeira vez no Brasil quando se mudou para o bairro (o tipo de bairro popular, periférico, pobre) onde mora a maioria dos brasileiros. Nós, os diplomados, habitamos outro país: lemos os mesmos livros importados, tememos os mesmos olhares sobre o mundo, ignoramos o preço de duas conduções por dia, não sabemos o preço dos itens essenciais. Quantos ônibus lotados cabem numa tese sobre o povo?

 

Conheço pessoalmente esse fosso pelas duas margens. Fui pastor por uma década; lecionei na universidade por mais de duas. Lá e cá encontrei gente simples desejando emergir. Vi, sim, profetas de ocasião apontarem, do altar, o escolhido de Deus, e dessa liturgia me despedi. Vi também, por vezes na mesma semana, a viúva achar emprego no mural do templo e o egresso do presídio aprender a falar em público na escola dominical. Vi gente simples estudar para “melhorar”. As duas cenas - do líder charlatão e do irmão esforçado que deseja vencer - são verdadeiras. Honestidade intelectual é recusar-se a usar uma para esconder a outra.

 

A disputa decisiva, aliás, não opõe crentes e progressistas; corre por dentro das igrejas. De um lado, os que tratam a comunidade como infraestrutura eleitoral; de outro, gente conservadora nos costumes, não raro eleitora de direita, que repete uma frase teologicamente exata: a igreja é de Jesus. Não é pouco. Quando o púlpito, indevidamente, anuncia o candidato de Deus, votar diferente vira pecado; e fazer do voto pecado é, entre as fraudes espirituais, a mais rentável.

 

Ou seja, palavras como família, valores, princípios, segurança e vida são as que habitam o cotidiano eclesial e doméstico dos evangélicos. As esquerdas perderam a conexão com esse universo narrativo e existencial. Tratam dessas mesmas questões, sim, é verdade, mas o fazem sob signos diferentes. E, no mais das vezes, com uma gramática que não é acessível a gente mais simples e que precisa “matar um leão por dia”.

 

O vocabulário encolheu. O deputado e pastor Henrique Vieira observa que parte da esquerda desaprendeu palavras que o povo ama: família soa patriarcado, amor soa brega. Para o brasileiro pobre, família não é conceito; é o que segura quando o Estado falta, quem acode no desemprego, quem cria o filho enquanto a mãe trabalha. Projeto político que abandona as palavras fundamentais do povo termina fazendo campanha por tradução simultânea; ou seja, com a compreensão completamente reduzida e comprometida. Pautas como aborto, maioridade penal, gênero etc. são vistas sob o código da ameaça, porque tratadas com ar de superioridade.

 

Spyer registra a fala de uma amiga, professora de creche, moradora de casa simples: quero tudo de bom para a minha filha, mas primeiro quero que ela vá para o céu. Pode-se sorrir jocosamente da frase. Pode-se, também, reconhecer nela uma adulta esclarecida, senhora das próprias razões. Enquanto essa mulher for tratada como coitada nas mãos de um manipulador, nenhuma carta aberta na véspera da eleição a alcançará. Oportunismo o povo fareja de longe.

 

A Escritura guarda um verbo para o que nos falta. Em hebraico, conhecer se diz yada, e não designa informação: designa intimidade. Adão conheceu Eva, e ela concebeu; o saber no universo semântico bíblico gera vida porque supõe proximidade, mesa posta, permanência. O quarto evangelho leva o método ao extremo: o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e o verbo grego, eskenosen, diz à letra que armou tenda no acampamento humano. Deus, pode-se dizer com alguma ironia, fez trabalho de campo. A encarnação é o contrário exato do preconceito: no lugar do conceito prévio, a diferença e a curiosidade assumidas até o fim.

 

Antropologia e cristianismo, arrisca Spyer, encontram-se num ponto: o outro é tão humano quanto você, quanto eu. Se é assim, a reconciliação entre evangélicos e progressistas não virá de marketing religioso nem de exorcismo ideológico. Virá de bolsas de estudo (diferente dessas que faz a gente ir estudar fora do país) para o interior do próprio país, de cafés aceitos em cozinhas pequenas, de nomes e signos aprendidos, de cultos visitados sem disfarce e sem urna à vista. Ninguém governa bem o que conhece por ouvir dizer.

 

Jó, que abriu essa breve reflexão, só se aquietou quando trocou os ouvidos pelos olhos. Que os nossos olhos atravessem, enfim, o fosso!

 

Prof. Ricardo Lengruber



 
 
 

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