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Para além do medo, há que se cuidar da fé, do amor e da paz

Atualizado: 13 de abr. de 2023



O medo é um sentimento importante, porque nos adverte do perigo iminente e nos ajuda a evitá-lo. Mas como todo sentimento, uma vez manipulado, torna-se um adversário, porque nos faz perder a noção da realidade e, com isso, mergulhamos numa espiral imobilizadora de pânico. Ou seja, o medo existe para nos proteger e não para nos tornar dele reféns.


A onda de boatos na internet sobre ameaça a escolas no Brasil (depois dos terríveis episódios a que assistimos recentemente) tem cumprido exatamente esse papel: assustar e imobilizar. E pior: cria também a legitimação de atitudes antes impensáveis. E tem até feito com que alguns (poucos ainda, é verdade) confundam eventual ameaça “às” escolas com uma irreal ameaça “das” escolas.


O dado positivo, por outro lado, é que nos faz pensar mais e melhor sobre o tema da segurança. Mais atenção às rotinas é sempre bem-vinda, afinal há sim ameaças reais a respeito das quais devemos nos prevenir. Ou seja, nada se deve ter contra (muito pelo contrário) a revisão e incremento nos mecanismos e protocolos de segurança nas escolas. Mas nada que torne o espaço escolar um ambiente policialesco ou em que haja arbitrariedades que inibam a espontaneidade e o fervor próprio de uma instituição que deve dialogar com sua comunidade e dela sorver mais e mais experiências.


Não se deve perder nunca de vista que a escola é o ambiente do cultivo e da construção da liberdade e da responsabilidade, valores tão caros às sociedades democráticas e civilizadas. A barbárie da violência não deve nunca dar o tom das relações. Não deve ser o medo o sentimento a nos guiar – até porque ele nunca gera mais segurança, senão a sensação de impotência e, não raro, de desespero.


Lembro-me do filme “A vida é bela”. Na Segunda Guerra Mundial, Guido Orefice, judeu, dono de uma livraria na Itália fascista, é capturado e mandado para um campo de concentração em Berlim, juntamente com seu filho, o pequeno Giosué. Na trama, Guido, com inteligência, espirituosidade e bom humor, faz com que a o pequeno Giosué acredite que estão em um jogo. A ideia era proteger o menino do horror em que estavam mergulhados. No filme, o terror era real, mas o pai viu-se na missão de, sem poder evitá-lo, torná-lo o menos dramático e sofrível para seu pequeno filho. E, no fim das contas, acabou por salvar duplamente o menino: livrou-o dos horrores do dia-a-dia do campo de concentração e, ao final, livraram-se ambos da própria morte.


Em que pesem as diferenças com o que estamos vivendo (porque a guerra era uma realidade que se impunha e os boatos que vivemos hoje – apesar das reais ameaças da vida – não passam de boatos), La vita è bela nos ajudar a pensar sobre que tipo de experiência queremos que nossos pequeninos tenham com a escola, em particular, e com a vida mesma, em geral. Uma onda de medo e de atitudes extremadas de controle e proteção só reforçarão ainda mais uma cultura de violência, de ódio, de desconfiança e, ainda mais grave, de invasão do espaço escolar por entes e mecanismos de controle e censura.


Há que se preservar o pouco que ainda temos de esperança. E a escola – sobretudo pela presença das crianças e jovens – e do ambiente de fecundação das ideias, das artes e do conhecimento livre – deve ser sempre, e permanentemente, cuidada como terra fértil dessas promessas.


Como cantam Milton Nascimento e Wagner Tiso, “já podaram seus momentos, desviaram seu destino; seu sorriso de menino quantas vezes se escondeu.” E segue na “esperança, nova aurora a cada dia.” Por que “há que se cuidar do broto, pra que a vida nos dê flor e fruto”.


Não dá para pensar numa sociedade minimamente livre e efetivamente independente se não se cuidar da mente do “coração de estudante”. “Há que se cuidar da vida, há que se cuidar do mundo, tomar conta da amizade.”


É isso: ou ajudamos nossas crianças e viverem e experimentarem com serenidade e coragem as experiências do medo, ou ficaremos dele reféns eternamente. “Alegria e muito sonho espalhados no caminho. Verdes, planta e sentimento - Folhas, coração, juventude e fé”. Sim, fé! Essa certeza do que não vemos – certeza que empodera o ser humano desde sempre a avançar, a despeito do medo que insiste em nos visitar.


As palavras do momento são: paz, prudência, ação, serenidade e fé!

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