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O Natal que sobrevive ao natal

Atualizado: 7 de dez. de 2025


O Natal tem uma mensagem que consegue sobreviver ao natal. Enquanto este louva Jerusalém, aquele, apesar de Belém, escolhe Nazaré. O natal ama Israel; o Natal irmana-se com Gaza. Enquanto um prioriza o templo, seus vendilhões e armas, o Outro contenta-se com as manjedouras, as oficinas dos Josés e os ventres das Marias; e denuncia as ruínas sobre os corpos. O presépio, apesar de seus personagens terem virado comida na ceia e alvo no radar, segue singelo no olhar inocente dos bichos, dos pastores e das crianças assassinadas. O Natal resiste ao que dele fizeram. Jesus sobrevive; sobrevive, inclusive, a alguns formatos de cristo.


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Sob a ótica da teologia política e da filosofia da religião, a distinção entre o evento kerygmático — o Natal — e a sua institucionalização cultural — o natal — revela uma fenda ontológica abissal. Não se trata apenas de uma oposição entre o sagrado e o profano, mas de um antagonismo entre a Presença e o Simulacro.



A Kénosis nos Escombros


Há um abismo semântico intransponível entre a festividade que cega e a Epifania que revela. O "natal" minúsculo, grafado com a tinta do comércio e a pólvora dos impérios, é uma liturgia de esquecimento. Ele celebra o triunfo, o brilho do ouro magro e a estabilidade das muralhas. Este natal adora Jerusalém não como a cidade da paz, mas como o centro nevrálgico do poder, onde o Templo se ergue soberbo, confundindo a glória de Deus com a solidez da alvenaria e a eficácia da balística. É o natal que pede visto de entrada, que ergue cercas, que santifica a propriedade e excomunga a partilha.


Em contrapartida, o Natal — Maiúsculo, Mistério, Carne — opera na lógica do subsolo e da periferia. Ele não apenas "escolhe" Nazaré; ele é a própria substância da marginalidade. Se o natal oficial busca o trono de Herodes, o Natal real esconde-se na fuga para o Egito, irmanando-se com todos os deslocados, os apátridas, os refugiados que hoje, como ontem, atravessam desertos sob a mira de decretos de morte.


O Natal caminha por Gaza não como um turista estrangeiro, mas como um nativo da dor. Ali, onde a pedra não é mais templo, mas ruína sobre corpos, o Deus-Menino encontra sua teologia mais crua. A manjedoura deixa de ser o berço romântico dos cartões postais para reassumir sua função original: o lugar onde os animais comem, o cocho sujo da existência precária, a única cama possível para quem não tem lugar na hospedaria do mundo civilizado.


Problematizemos, pois, a domesticação do Sagrado. O presépio foi higienizado. O natal de consumo devorou os personagens do Natal de verdade: o boi e o jumento, testemunhas silenciosas do milagre, tornaram-se o banquete da gula indiferente; os pastores, trabalhadores braçais da noite, tornaram-se alvos estatísticos em radares de precisão. A "paz na terra" foi convertida em "segurança nacional", e a estrela de Belém, que deveria guiar os sábios, é confundida com o clarão dos mísseis que iluminam a noite não para salvar, mas para incinerar.


Contudo, a resistência do Natal reside na sua indestrutibilidade teimosa. O Verbo não se fez mármore; fez-se carne, e a carne sangra, mas também ressuscita. Jesus sobrevive à cristandade. Jesus sobrevive ao cristianismo bélico. Ele escapa, sutil e perigoso, por entre as frestas das catedrais bombardeadas e das teologias da prosperidade. Ele sobrevive aos "formatos de cristo" — o cristo-imperador, o cristo-banqueiro, o cristo-general.


Enquanto o natal celebra a manutenção da ordem, o Natal anuncia a revolução da ternura em meio ao caos. Ele denuncia que, sob os escombros de Gaza, sob a poeira de Nazaré, e nas oficinas silenciosas de todos os Josés desempregados, o Deus vivo insiste em respirar.


O Natal é a persistência da vida onde a morte foi decretada por lei. É o olhar da criança que, mesmo diante do horror, reflete uma inocência que julga e condena, pelo simples fato de existir, a barbárie dos adultos armados.


O Natal resiste porque a verdade não cabe no embrulho. O Menino sobrevive porque Deus prefere a ruína habitada à catedral vazia.

 
 
 

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