O Lugar das Sementes - sobre minha despedida da Igreja Metodista
- Ricardo Lengruber

- 22 de jul.
- 12 min de leitura
A terra por si mesma frutifica (Marcos 4,28).
No início de junho escrevi uma carta ao bispo da Primeira Região Eclesiástica da Igreja Metodista. Nela devolvo as credenciais pastorais que me acompanham desde 1996. O envelope é leve; o gesto, não. Para explicar essa carta, preciso recuar a 1990, quando um menino de catorze anos, criado numa família tradicionalmente católica, atravessou pela primeira vez a porta de uma igreja metodista em Nova Friburgo.
Cheguei pela mão de minha mãe, que se aproximara daquela comunidade por conta de um empreendimento educacional. Conheci primeiro as pessoas: o pastor local, sua esposa, sua família, gente a quem depressa me afeiçoei. Só depois conheci a instituição. Talvez resida aí uma lição que nunca mais me abandonou: a fé não se transmite por organogramas; transmite-se por afeto. Por intermédio daquela gente conheci o Evangelho e me vi seduzido pela proposta do Reino de Deus apresentada pelo metodismo.
Seduziu-me, sobretudo, a história. A Inglaterra do século XVIII, sacudida pelas fábricas e pela miséria, viu os irmãos John e Charles Wesley acenderem um avivamento que não se contentou em salvar almas: alfabetizou pobres, visitou cárceres, denunciou a escravidão, devolveu dignidade a quem a máquina triturava, alterando a sorte de uma nação inteira. John Wesley anotou no diário a noite em que sentiu o coração estranhamente aquecido; aos catorze anos, sem jamais ter lido o diário, conheci o mesmo aquecimento. Bíblia, tradição, experiência pessoal com Deus, cuidado com a criação: quatro apreços que me conquistaram de vez.
No ano seguinte ingressei no ensino médio do Colégio Anchieta, escola católica, jesuíta, onde encontrei pessoas respeitosas da minha fé evangélica e recebi uma formação sólida, de forte tradição iluminista. Ao final daquele percurso, todas as portas pareciam abertas. Venho de uma família tradicional de músicos, e a música era ofício aprendido desde menino; as notas e o histórico permitiriam pleitear qualquer carreira: engenharia, direito, medicina, artes, ciências.
Escolhi o seminário.
Seminário vem do latim seminarium, o canteiro onde se lançam, se plantam e se cuidam as sementes. A palavra guarda mais teologia que muitos tratados: quem entra ali não entra para colher; entra para ser semeado, regado, esperado. Em 1993, com dezessete para dezoito anos, deixei Nova Friburgo e fui estudar teologia no Seminário Metodista César Dacorso Filho, no Rio de Janeiro. Levava na bagagem um repertório formado desde muito cedo, de Rubem Alves a Leonardo Boff e Frei Betto, de Jorge Pixley, Hugo Assmann e Julio de Sant´Ana a Karl Barth, Paul Tillich e Albert Nolan, além de biblistas como Carlos Mesters, Milton Schwantes e Severino Croatto. Levava também uma certeza que o apóstolo Paulo me ajudara a nomear: entre os dons repartidos pelo corpo, o meu era o de ensinar.
Encontrei um seminário fragmentado, vivendo em meados dos anos noventa a sua crise final. As portas se fecharam, e a instituição converteu-se, de modo pouco ortodoxo, na primeira faculdade de teologia da cidade do Rio de Janeiro com diploma reconhecido pelo Ministério da Educação. Aos estudantes do meio do caminho restava concluir o seminário ou recomeçar do zero. Concluí. E, percebendo a precariedade daquele processo, a pressa indevida na formação, matriculei-me em seguida na licenciatura plena em História, em busca de método, vagar e calma. Nunca larguei a teologia; apenas entendi cedo que ela exige tempo, como toda semente.
Em 1996 recebi do bispo Paulo Tarso de Oliveira Lockmann a primeira nomeação: pastor auxiliar na Igreja Metodista do bairro de Sete Pontes, em São Gonçalo, ao lado de um pastor titular que se tornou amigo para a vida. Sete Pontes era uma igreja urbana, de classe média, de funcionários públicos, com uma leitura progressista da realidade; ali vivi experiências litúrgicas, educacionais e ecumênicas profundas, alimentadas pelos encontros do Conselho Mundial de Igrejas, do CLAI e do CONIC. Em 1998 fui nomeado pastor titular em Valão do Barro, no norte fluminense, comunidade rural às portas do centenário, de gente simples, marcada pelo pentecostalismo vizinho. Em 2002, Macuco. Três comunidades tão distintas quanto complementares; dez anos de pastorado sem uma anotação demeritória; igrejas acolhedoras e em crescimento.
Convém dizer o que as atas não registram: o jovem pastor tinha dúvidas. Subia ao púlpito com vinte e poucos anos e um nó na garganta, pregando certezas maiores do que eu para lavradores que sabiam de Deus mais do que os meus fichamentos. Rezei muitas vezes com o pai aflito do evangelho:
“Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade” (Marcos 9,24).
Consolei-me com Elias, que debaixo de um zimbro pediu a morte para salvar a vida, sinal de que até os profetas se cansam. E fui rascunhando, sem saber, a tese que décadas depois viraria manuscrito, A Sabedoria da Incerteza: tudo é hevel, sopro, fumaça que não se deixa agarrar, e justamente por isso o pão, o vinho e o trabalho merecem alegria; fé que não atravessa o fogo da dúvida é fé ingênua. Rubem Alves, que conheci de ler muito jovem e depois de encontros felizes que a vida me presenteou, deu título definitivo a essa pedagogia: Ostra feliz não faz pérola. As minhas pérolas, se as tenho, nasceram dessa areia que incomoda.
Aprendi mais do que ensinei. Aprendi que a transcendência costuma esconder-se na simplicidade. Aprendi que defender os direitos humanos (ainda que outros nomes) nunca foi pauta política menor, mas proteção intransigente da dignidade. Aprendi que o povo guarda uma sabedoria que os concílios raramente registram em ata. Milton Nascimento tinha razão: o lugar de quem canta é no meio do povo, e o pastorado foi o meu jeito de chegar lá.
Enquanto pastoreava, a sala de aula me convocava. Em 2000 fui contratado pelo Instituto Metodista Bennett para lecionar disciplinas propedêuticas nos cursos de Direito, Economia, Arquitetura e Educação Artística. Cursava o mestrado em Teologia na PUC-Rio e, aos poucos, aproximei-me da faculdade de teologia da casa, onde me consolidei como professor de Antigo Testamento, de exegese e de teologia bíblica. Para minha honra, substituí o professor que me ensinara as primeiras e potentes lições da exegese. Lecionei também na Universidade Estácio de Sá, na Universidade Cândido Mendes e na Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia.
Em 2004 pedi licença temporária do pastorado: cursava o doutoramento na PUC-Rio, concluído em 2007 com uma tese sobre o incesto nas leis do Levítico, era recém-casado, dois filhos pequenos chegavam à família. Rubem Alves me ensinara que educar não é transferir conteúdo mensurável em balanças de precisão, mas seduzir e humanizar, convidar o outro a existir em plenitude. A queixa, a rigor, é antiga: Jeremias acusou a Deus de tê-lo seduzido e confessou que se deixara seduzir (Jeremias 20,7). Entre a sedução de Deus e a de Rubem, fui duplamente vencido. Já observei que profeta, mais que ocupação, é profissão, porque professar é dizer-se. Nunca senti contradição entre o púlpito e a cátedra: professor é quem professa.
A licença era temporária. O tempo é que não foi.
Devo confessar um sentimento mais antigo que qualquer crise: nunca me senti inteiramente em casa na instituição. Desconfio de que essa é a morada própria dos vocacionados. Amós avisou aos sacerdotes de Betel: “Eu não era profeta, nem filho de profeta” (Amós 7,14); antes um deslocado a serviço da Palavra. Escrevi certa vez, nas Jardinagens teológicas, com meu amigo Edson Fernando, que os profetas de Israel nutrem uma estranha relação de amor e ódio para com o Templo, para com a religião institucionalizada. Amei o Templo; meu amor nunca coube inteiro nele. Nos ambientes oficiais, sentia-me como os exilados do Salmo: “Como cantaremos a canção do SENHOR em terra estranha?” (Salmo 137,4). Cantei assim mesmo. A fé que me coube nunca foi a do repouso; foi a de Jacó no vau do Jaboque, corpo a corpo com o Anjo até a aurora, de onde se sai manco e abençoado.
Israel quer dizer isso: o que luta com Deus. Se me perguntarem pela minha fé, respondo com a etimologia e com a coxa deslocada.
Os anos correram, e a Igreja fez movimentos que, no meu modo de compreender, não condizem com os valores do Evangelho de Jesus Cristo: aproximações partidárias, candidatos nos altares, discursos de prosperidades, encontros "com deus", flertes com fundamentalismos, uma “teologia de mercado” que troca o escândalo da cruz pelas conveniências da ocasião. A Primeira Região foi dividida em duas. E então, o silêncio. Nunca fui convocado para um concílio regional. Nunca fui consultado sobre questão administrativa alguma, nem as que a mim diziam respeito. Nunca fui convidado a integrar comissão alguma.
Eu me distanciava da Igreja, a Igreja se distanciava de mim, e ninguém redigia a ata desse afastamento.
A ironia quis que eu, formado num seminário que fechou durante a minha passagem, visse a faculdade que o substituiu encerrar as atividades e renascer como seminário, onde segui lecionando. A crise profunda da Igreja parece que sempre chegava antes no seminário. É curioso que donde a Igreja poderia colher sua renovação, ela fazia sempre questão de podar. Ali atravessei tempestades ao lado da instituição: salários atrasados, insegurança, reajustes salariais de que abrimos mão para mantê-la de pé.
Em plena pandemia da Covid-19, fui demitido por telefone, sem explicação, sem justificativa, sem diálogo — depois de duas décadas de casa. Meu chefe? Um colega que nunca havia pisado numa sala de aula como professor, formado comigo lá em 1995, feito diretor na clara movimentação da nova liderança eclesiástica em tornar a Igreja mais "espiritual". A "despolitização" que desejavam era apenas cortina de fumaça da efetiva instrumentalização político-eleitoral para com os setores mais atrasados e perversos da política nacional.
Uma espécie de chama apagada nas próprias cinzas
A história metodista começa com um homem cansado caminhando pela Rua Aldersgate, em 24 de maio de 1738, carregando nos ombros o peso de suas próprias tentativas falhadas de ser santo. John Wesley voltara da Geórgia abatido, cercado por dúvidas que nem todos os seus jejuns, disciplinas e métodos conseguiam silenciar. No íntimo, ele sabia que a fé que praticava com tanta determinação ainda não lhe havia tocado o coração. Confessou que fora à América para converter os outros, mas descobriu que ele mesmo precisava ser convertido.
A conversão, porém, não veio como conquista, mas como rendição. Ao ouvir a leitura do prefácio de Lutero à carta aos Romanos, Wesley sentiu algo que escapava às estruturas religiosas que o haviam moldado: uma confiança simples e profunda, uma graça que não exigia façanhas, mas abertura. O coração “estranhamente aquecido” que ele registrou não foi mero arrepio emocional; foi o momento em que a fé deixou de ser dever e se tornou encontro. A partir daí, deixou para trás a rigidez institucional que o sufocava e assumiu que o mundo inteiro poderia ser sua paróquia. Daquele fogo interior nasceu um metodismo que unia reflexão rigorosa, experiência espiritual concreta e compromisso real com transformação social. Era um movimento vivo, cuja ordem existia para servir ao Espírito e não para aprisioná-lo.
É por isso que se torna tão doloroso olhar para o metodismo brasileiro de hoje. A tradição que nasceu como resposta à frieza e à burocracia tornou-se, em tantas de suas expressões, vítima do mesmo enrijecimento, apesar do desejo quase doentio de parecer viva, pulsante e sensivel ao Espírito. Em vez de ser espaço de liberdade, pensamento crítico e ousadia pastoral, transformou-se num sistema que valoriza mais a manutenção de estruturas do que a vitalidade da missão. As ordens que antes davam direção e profundidade hoje, com frequência, funcionam como mecanismos de contenção, instrumentos de controle e silenciamento. O que nasceu leve, criativo, inquieto, tornou-se pesado, hierárquico e temeroso da própria história que diz honrar.
A crise financeira que assola a denominação — dívidas vultosas, fechamento de escolas e universidades, perda de relevância pública — revela algo mais profundo que falhas administrativas. Ela denuncia uma desconexão radical da vocação wesleyana, para a qual a educação era mais que um ministério: era extensão de uma graça que se compromete com o bem comum. Cada escola metodista que fecha suas portas é como uma chama que se apaga; um sinal de que o movimento esqueceu que a mente também faz parte da salvação.
Esse esquecimento se manifesta igualmente na perseguição a teólogos e a vozes que tentam recuperar a densidade intelectual e espiritual da tradição. Em nome de uma suposta ortodoxia, ameaça-se justamente aquilo que deveria ser protegido: o pensamento vivo, a reflexão honesta, a coragem pastoral.
Nesse cenário, sempre faço uma crítica. A Faculdade de Teologia em São Paulo aparece como um símbolo desconfortável. Com sua excelente estrutura, salários privilegiados e décadas de história, seria natural que fosse um polo vibrante de renovação e diálogo. Mas tornou-se o oposto: uma academia fechada em si mesma, distante da realidade pastoral e institucional da própria Igreja que a sustentava. A "teologia" que ali se produziu, estéril e autorreferente, parecia ignorar o clamor de uma denominação que sangrava, afundava financeiramente e perdia sua identidade. Enquanto comunidades lutavam para manter ministérios básicos e enfrentar crises profundas, parte da reflexão teológica permanecia confinada a discursos que tocam pouco o chão concreto da vida metodista. Era algo parecido com teologia, que falava muito, mas dizia pouco — e quase nada do que a Igreja realmente precisava ouvir.
Ao revisitarmos Aldersgate, percebemos que ali permanece um chamado insistente. Aquele momento em que Wesley foi tomado pela graça não é apenas memória; é uma advertência. Ele se libertou de uma igreja que havia perdido o contato com o coração humano e encontrou Deus na vulnerabilidade. Hoje, quando a instituição metodista se fecha em autoritarismos internos, sufocamentos administrativos e disputas doutrinárias que ignoram sua própria tradição, é como se a chama de 1738 tentasse novamente atravessar séculos para nos lembrar que nenhuma igreja vive sem calor interior. A crise atual não nasce apenas de falhas operacionais, mas de uma amnésia espiritual: esquecemos que o metodismo surgiu não de cofres, cargos ou regulamentos, mas de um coração aquecido que ousou mudar o mundo.
Talvez esse seja o ponto de retorno possível: admitir que o metodismo brasileiro se tornou, em muitos aspectos, aquilo de que Wesley fugiu — uma instituição que perdeu o contato com as ruas, com a dor, com a justiça, com a ousadia, com a graça. A história só continua quando reencontramos o que a fez começar. Sem isso, o metodismo corre o risco de sobreviver apenas como mais um edifício vazio, cheio de métodos, vigílias e até do que se convencionou chamar de "avivamento". Mas sem coração.
Mais recentemente, apresentei-me como candidato à direção do Seminário Teológico Paulo Lockmann, na Sétima Região, onde moro. Reuni currículo e credenciais. A resposta veio por ouvir dizer: o conselho regional teria recusado a minha transferência. Até hoje não recebi um documento, uma razão, uma palavra. Antes, solicitei minha transferência de Região. Negada também.
Seria desonesto, porém, procurar culpados apenas do outro lado do rio. Houve inércia da minha parte. Também eu silenciei; também eu não bati à porta do episcopado; também eu me deixei absorver pelas urgências de uma vida que pedia passagem. O pastor que aprendeu a pregar a parábola da ovelha perdida ficou, ele mesmo, solto pelo aprisco, e ninguém saiu à sua procura. Faço aqui um juízo de fato, não um juízo de valor.
Não busco maldosos nesta história; busco apenas nomear a realidade posta: há muitos anos eu já não integrava essa Igreja, e custei a perceber.
Com o passar do tempo, eu penso que fui me tornando mais metodista, e a Igreja Metodista foi se tornando menos metodista. E, sem exagero, menos evangélica. Wesley pregou nos campos porque as catedrais lhe fecharam as portas; hoje há quem feche os campos para caber melhor nas catedrais. Que fé é essa que troca a santidade social pelo cálculo partidário? Deixo a pergunta plantada, como se planta uma semente.
Por isso a minha carta. Aos 50 anos de idade: idade que simboliza a percepção de que a vida já havia feito uma conversão. Peço a baixa do rol de obreiros e do presbiterato com profunda dor, porque o gesto toca aquilo que me constitui. Mas o faço em paz: apenas formalizo uma decisão que a instituição já tomara para comigo, de forma tácita, jamais comunicada. Rubem Alves, ele de novo, fez travessia parecida antes de mim: pastor que os quadros da própria igreja não souberam abrigar, saiu deles sem sair da fé (na vida!), e passou o resto da vida semeando beleza.
Devolvo as credenciais; não devolvo a vocação. Credencial se guarda em gaveta; vocação, não. O vento sopra onde quer (João 3,8); nunca precisou de credencial.
O menino de catorze anos que se encantou com os irmãos Wesley segue vivo, e segue metodista, ainda que fora dos quadros. Aprendi no seminário que semente não pertence ao canteiro; pertence ao chão. Lançada, dispensa a autorização do semeador para germinar: a terra por si mesma frutifica, primeiro a erva, depois a espiga, depois o grão. Chico Buarque apostou, no escuro da ditadura, num amanhecer que ninguém enxergava; com ele e com os profetas entendi que a esperança é uma teimosia bem fundamentada.
Rogo a Deus que a Igreja siga o seu rumo e se aperfeiçoe no serviço do Evangelho. E guardo a esperança de que a vida ainda nos reencontre, com memórias em paz e planos cheios da novidade própria do Reino. A colheita não me pertence. A semeadura, sim!
Prof. Ricardo Lengruber

Dezembro de 1995: Formatura no Bacharelado em Teologia. Seminário Metodista César Dacorso Filho. Pra. Joana D´arc Meirelles me entrega o Diploma. Ao fundo, o saudoso Prof. e Pr. Waldemar Augusto de Barros Neto. Local: Auditório Tücker, Instituto Metodista Bennett, Flamengo, Rio de Janeiro (em processo de demolição, em 2026, após venda por dívidas, para se erguer um prédio de apartamentos do tipo airbnb).
Pós-escrito, trinta dias depois
A resposta do bispo chegou um mês após a carta: três parágrafos de protocolo, com a secura própria dos ofícios. Acolhe o pedido, agradece o tempo servido, deseja bênçãos. A ata do nosso afastamento, que ninguém lavrou em vinte anos, foi enfim redigida, e coube em meia página.
Releio a carta, porém, e sorrio. O vocativo ainda me chama pastor, no ato mesmo de recolher o título. O texto me deseja frutificar onde quer que eu esteja, sem perceber que assina embaixo da minha tese: semente não pede licença ao canteiro. Garante que o trabalho nunca foi em vão, e nisso cita, sem citar, o apóstolo: o vosso trabalho não é vão no Senhor (1 Coríntios 15,58). Promete portas abertas na mesma carta em que se despede. Não conheço ironia mais delicada do que a verdade dita por quem não a percebe.
Aceito a bênção. Bênção não se recusa, nem quando vem seca; água de ofício também rega. E aceito-a no ano em que completo cinquenta anos, idade que o Levítico, tema do meu doutoramento, chama de jubileu: o ano em que se proclama liberdade na terra e cada um retorna à sua possessão (Levítico 25,10). É o que faço. Retorno ao meu chão. Que as portas fiquem abertas, as deles e as minhas; semente, já se sabe, não entra por portas. Entra pela terra!




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