Ler o Brasil antes de votar - entre a estante e a urna
- Ricardo Lengruber

- 5 de ago.
- 8 min de leitura
Atualizado: 9 de ago.
Somos um povo em ser, impedido de sê-lo.
Darcy Ribeiro
Explicar o Brasil tornou-se, entre nós, um gênero literário. Nenhum outro país produziu tantos livros para responder à pergunta sobre si mesmo. Há uma prateleira inteira na minha biblioteca dedicada a esse ofício; ela começa em 1902 e não terminou ainda. Isso diz algo. Um povo que precisa se explicar tanto é um povo que ainda não se entendeu; ou, pior, que se entendeu e não gostou do que viu. Percorro essa prateleira como quem percorre um processo: há autos, testemunhas, laudos periciais e, ao final, uma sentença que ninguém se atreve a assinar.
O primeiro depoimento é de Euclides da Cunha. Os Sertões, de 1902, nasceu de uma reportagem e virou tribunal. O engenheiro que foi a Canudos cobrir a vitória da República voltou de lá com uma acusação: a campanha fora, na sua palavra exata, um “crime”. O litoral letrado, europeu de fachada, descobria espantado que existia outro país dentro do país; um sertão que a Constituição não alcançava e que o exército alcançou a bala. Ali já estava, inteiro, o padrão que se repetiria: o Brasil oficial resolve pela força o que não quis resolver pela justiça. Canudos foi arrasada. Canudos permanece.
Trinta e um anos depois, Gilberto Freyre olhou para dentro da casa. Em Casa-Grande & Senzala (1933), o país se explica pela arquitetura: de um lado, a varanda patriarcal; do outro, o alojamento dos escravizados; entre os dois, a cozinha, a cama, o terreiro, a língua temperada de palavras tupis e iorubás. Freyre teve o mérito imenso de levar o cotidiano ao centro da interpretação do Brasil, num tempo em que a elite letrada tinha vergonha da própria mestiçagem. Mas é preciso lê-lo de olhos abertos. A intimidade que descreveu era também violência; a doçura da casa-grande repousava sobre o açoite da senzala. E a mestiçagem que celebrou virou álibi: a fábula de uma democracia racial que dispensaria o país de encarar o próprio racismo.
Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil (1936), deu nome ao personagem central dessa fábula: o homem cordial. A expressão costuma ser lida como elogio e é quase o contrário. Cordial vem do latim cor, cordis, coração: o brasileiro age pelo coração, não pela norma; trata o público como extensão do privado; quer encontrar no guichê um amigo, não um funcionário. A cordialidade não é bondade. É a recusa da impessoalidade que sustenta qualquer república. Por isso Buarque pôde escrever que a democracia foi entre nós “um lamentável mal-entendido”: aristocracias rurais assinaram constituições liberais como quem veste roupa emprestada para a fotografia.
Caio Prado Júnior, em Formação do Brasil Contemporâneo (1942), fez a pergunta que organiza todas as outras: qual o sentido da colonização? Sua resposta permanece incômoda. O Brasil não foi fundado para ser; foi fundado para render. Antes de sermos uma sociedade, fomos uma empresa. A terra, o trabalho e as gentes daqui existiam em função de mercados situados do outro lado do oceano. A palavra colônia deriva do latim colere, verbo que abriga três ofícios: cultivar, habitar e honrar. Portugal cultivou — habitar e honrar ficaram para depois, e o depois nunca chegou. Quando a metrópole se foi, a lógica ficou. Trocamos de senhores sem trocar de estrutura.
Celso Furtado deu números e nexos a essa empresa. Em Formação Econômica do Brasil (1959), mostrou que nossa economia foi uma sucessão de ciclos que enriqueceram sem desenvolver. O açúcar fez fortunas que não fizeram escolas. O ouro atravessou Minas a caminho de Lisboa e de Londres. O café ergueu palacetes e manteve analfabetos. A riqueza passou por aqui; não ficou aqui. E Furtado ensinou algo que ainda escandaliza os manuais: o subdesenvolvimento não é uma etapa no caminho do desenvolvimento; é uma construção histórica, obra acabada, funcional para quem dela se beneficia. Já observei, noutro lugar, que ele alertava, na década de 1960, para o fato de um décimo da população acumular quase metade da riqueza nacional. De lá para cá, a proporção mudou de roupa, não de natureza.
Se a economia foi feita para render, o Estado foi feito para pertencer. Raymundo Faoro rastreou, em Os Donos do Poder (1958), a longa viagem de um estamento que confunde o cargo com o patrimônio e o Tesouro com a fazenda particular; entre nós, o Estado nunca foi de todos porque sempre foi de alguns. Victor Nunes Leal, em Coronelismo, Enxada e Voto (1949), descreveu a capilaridade dessa dominação: o coronel que troca a estrada e o posto de saúde pelo voto de cabresto, o favor no lugar do direito, a gratidão no lugar da cidadania. O leitor de hoje reconhece a cena sem esforço. Mudaram os nomes e as moedas; não mudou a natureza da troca.
Foi preciso, porém, que a sociologia crítica e a inteligência negra desmontassem a fábula pela raiz. Florestan Fernandes demonstrou, em A Integração do Negro na Sociedade de Classes (1965), que a Abolição libertou sem incluir: ao negro não se deu terra, escola nem trabalho; deu-se-lhe a rua. A democracia racial não era um retrato, era um mito, e um mito funcional. Abdias do Nascimento foi além e chamou as coisas pelo nome mais duro: genocídio; não apenas o extermínio dos corpos, mas o projeto de embranquecimento que quis apagar do futuro a presença negra que não conseguiu apagar do passado. E Lélia Gonzalez enxergou o que os dois ainda não viam por inteiro: raça e gênero se cruzam no corpo da mulher negra, ama de leite da casa-grande e empregada do apartamento; e o racismo brasileiro tem uma especialidade, a denegação: exerce-se negando-se, sorri enquanto exclui, ama o samba e teme o sambista. Foi Lélia quem anunciou, com a ironia dos profetas: “o lixo vai falar, e numa boa”.
O lixo, na verdade, já havia falado. Em 1960, uma catadora de papel da favela do Canindé publicou o diário que a crítica não soube onde classificar. Carolina Maria de Jesus escreveu, em Quarto de Despejo, que
“a favela é o quintal onde jogam os lixos”;
a cidade como casa, a favela como despejo. Nenhum sociólogo formulou com tanta exatidão a geografia moral do país. Escrevi certa vez que a realidade não é o nosso quintal. Carolina sabia disso antes de mim, e sabia por experiência: ela morava no quintal.
Beatriz Nascimento arrancou o quilombo do passado e o devolveu ao presente: não ruína histórica, mas sistema alternativo de organização, prova de que os escravizados não apenas resistiram; propuseram. Sua autodefinição cabe numa frase que é um programa inteiro: “Eu sou atlântica”. E Conceição Evaristo deu nome ao gesto de escrever a partir dessa travessia, a escrevivência, que segundo ela não existe “para adormecer os da casa-grande, mas para acordá-los de seus sonos injustos”. A frase responde a Freyre com sessenta anos de atraso e uma precisão definitiva: a casa-grande dormia; a senzala tomava nota.
Antonio Candido e Roberto DaMatta leram, na cultura, a mesma gramática. Candido encontrou nas Memórias de um Sargento de Milícias a dialética da malandragem: uma sociedade instalada na zona movediça entre a ordem e a desordem, na qual a lei existe para ser negociada. DaMatta traduziu essa gramática num rito nacional: o “sabe com quem está falando?”, a frase que suspende a norma diante da pessoa. Onde a cidadania funciona, a pergunta não faz sentido; entre nós, ela decide quem espera na fila e quem passa por dentro. A casa venceu a rua. E demos a essa derrota o nome afetuoso de jeitinho.
Milton Santos deu a essa desigualdade um endereço. O geógrafo ensinou que o território não é palco neutro; é, ele mesmo, instrumento de exclusão. Nascer em determinado ponto do mapa define o tempo gasto para chegar ao trabalho, o hospital que existe ou não existe, a escola possível, a polícia que protege ou a polícia que atira. Em O Espaço do Cidadão (1987), cunhou uma categoria dolorosa: há entre nós cidadãos mutilados, pessoas cuja cidadania foi amputada pelo lugar. A periferia não é acidente urbano. É projeto.
Foi Darcy Ribeiro quem recolheu tudo isso e devolveu em forma de espanto. Em O Povo Brasileiro (1995), escreveu que o brasileiro é um povo novo, nascido de matrizes desfeitas: indígenas arrancados de seus mundos, africanos arrancados de seus povos, europeus pobres arrancados de suas aldeias. A empresa colonial foi, em suas palavras, um “moinho de gastar gentes”. Do que sobrou do moinho, fez-se outra coisa: nem índio, nem africano, nem português. Ninguém, primeiro. Depois, brasileiro. Darcy chamou a isso de ninguendade, essa orfandade original que nos obrigou a inventar uma identidade em vez de herdá-la. E aqui está o paradoxo que ele sustentou até o fim: o mesmo processo que nos moeu nos fez. A dor da formação é também a potência do formado.
A prateleira segue. Sueli Carneiro propôs “enegrecer o feminismo”: mostrar que a mulher universal dos manifestos nunca lavou roupa na casa das outras, e que não há emancipação pela metade. Djamila Ribeiro deu circulação nacional a um conceito que reorganiza o debate público: o lugar de fala, a constatação de que falar não é apenas emitir palavras, é poder existir. O incômodo que a expressão provoca em tanta gente confirma a tese.
Jessé Souza, em A Elite do Atraso, ergueu-se contra boa parte dos nomes aqui citados: para ele, nem herança ibérica nem cordialidade explicam o Brasil; explica-o a escravidão, que naturalizou a existência de uma classe inteira tratada como corpo sem alma. Discordo, por vezes, de seu tom sumário com a tradição, mas reconheço a força do golpe: ele nos impede de estetizar o diagnóstico. E Ailton Krenak devolveu ao debate a voz que Darcy viu moída no moinho: a matriz indígena, não como passado a lamentar, mas como mestre a escutar. Enquanto interpretávamos o Brasil, os povos originários interpretavam o mundo; e suas ideias para adiar o fim dele talvez sejam a contribuição mais urgente dessa biblioteca inteira.
O que torna, afinal, o Brasil, Brasil?
Torna-nos Brasil a desigualdade que não é acidente de percurso, mas o próprio percurso. Torna-nos Brasil o racismo que não é resíduo do passado, mas engrenagem do presente. Torna-nos Brasil o Estado que funciona como balcão e a cordialidade que funciona como máscara. A escravidão não terminou em 1888; mudou de endereço. Mora no trabalho precário, na periferia sem saneamento, na bala que encontra sempre o mesmo corpo. Mais de vinte autores e autoras, um século de pesquisa, e a sentença é unânime: nossas mazelas não são desvios de um projeto bom. São o funcionamento regular de um projeto que nunca teve o povo como finalidade.
Mas torna-nos Brasil, também, o que esse povo fez com o que fizeram dele. A língua mais musical do que a gramática permite. A comida que transformou resto em banquete. A fé que misturou santos e orixás sem pedir licença ao catecismo. A malandragem que Candido leu como forma de sobrevivência e que é, no fundo, a inteligência dos que não podiam vencer pela força. A alegria que não é alienação, como querem os apressados, e sim teimosia: a recusa de entregar aos senhores também a capacidade de festejar. Darcy via nisso a promessa de uma civilização nova nos trópicos. Confesso que, em certos dias, a promessa me parece distante. Em outros, ela caminha pela rua.
Ler essa biblioteca é aceitar uma dupla tarefa. A primeira é a lucidez: parar de contar a nós mesmos as fábulas do país cordial, da democracia racial, da nação que só não deu certo por causa dos corruptos. A segunda é a esperança: entender que, se a desigualdade foi construída, pode ser desconstruída; que aquilo que uma história fez, outra história pode desfazer. A sentença que ninguém se atreve a assinar talvez precise, afinal, ser reescrita por nós:
o Brasil que temos foi projeto de poucos. O Brasil que podemos ser terá de ser projeto de todos.
Escrevo às portas de uma eleição. Votar supõe escolher; escolher pressupõe conhecer; e conhecer, quando honesto, obriga a transformar. Os livros não indicam candidatos. Indicam critérios. Diante de cada nome na urna, valem as perguntas que eles nos ensinaram a fazer: a quem serve o projeto? O Estado como balcão ou como república? A periferia como pendência ou como prioridade? O voto é o instante raro em que a sentença passa das mãos de poucos para as mãos de todos. Quem lê o Brasil vota de outro jeito.
Não somos herança. Somos tarefa!
Prof. Ricardo Lengruber





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