Eleições: fé e algoritmo


Época de eleições gerais no Brasil e o discurso religioso (especialmente o evangélico) tem tomado conta dos palanques (hoje também ocupados por pastores). E invadido também os púlpitos, hoje convertidos, eles próprios, em palanques.

Na mão e no imaginário desses personagens, a Bíblia. Uma espécie de símbolo de identificação. Uma espécie de senha. Votar, em vez de ser um exercício de cidadania, tem sido um instrumento de captura do Estado por setores específicos, que aspiram hegemonia.

Nada diferente do que já não ocorra há séculos no país - com grupos econômicos dominantes e mesmo com setores mais conservadores da igreja católica. A diferença agora é o simbolismo: a Bíblia na mão e os versículos no discurso.

Tem a ver com o ideário evangélico do protestantismo de missão aportado no Brasil em meados do século XIX, e que ganhou forças ao longo do século XX com a emergência do (neo)pentecostalismo. A missão é converter o Brasil.

Não há, todavia, que se pensar que, pelo fato de ser a Bíblia, livro sagrado para a maioria dos fiéis (católicos e evangélicos brasileiros), a inspiradora de certos discursos eleitorais, que sejam esses mesmos discursos pautados em valores condizentes com o Evangelho de Jesus.

Primeiro porque não há qualquer diferença da maioria dos políticos evangélicos para com a maioria dos políticos tradicionais brasileiros. O velhismo político de uns e de outros é o mesmo. Discursos pautados no que a maioria quer ouvir, beneficiamento de setores específicos (e já privilegiados) e esquemas que, não raro, se confundem com corrupção.

Segundo porque a Bíblia é uma coletânea de textos de tempos e lugares muito distintos dos nossos e cuja pluralidade interna é passível de interpretações e apropriações muito diferenciadas. Serve para justificar ideias e atos dos mais diferentes matizes e campos. São as contradições inerentes a um texto tão antigo e tão diversificado internamente.

Não se trata de a leitura ser mais ou menos ‘ao pé da letra’. É, antes, uma questão ideológica. Imaginar que o fundamentalista lê a Bíblia sem fazer concessões às metáforas e mitos não é exatamente a realidade. Há textos que são lidos literalmente. Há outros que são atualizados e ponderados. Mais importante de ‘o que’ o fundamentalista lê é o ‘como’ ele o faz. ‘A partir’ do que se baseia e se move.

Retrato disso é a agenda que subjaz o discurso religioso na política brasileira atual. Pautas como uniões civis homossexuais, descriminalização do aborto, porte de armas, imigração e refugiados, escola sem partido, ideologia de gênero, etc, são vistos pela perspectiva conservadora - talvez, pior, pela visão mais retrógrada e preconceituosa que há. Basicamente, assume-se como verdade um determinado conjunto de ideias pré-estabelecidas e se recusa a discutir e problematizar as questões.

Ao negar a reflexão e relativização sobre esses temas, as representações religiosas, mais do que garantir a doutrina e defender a fé, se distanciam da realidade contemporânea e contribuem para o retrocesso. Em nome de valores e verdades que o povo acredita cegamente serem absolutos (porque assim foram catequizados), cooperam essas lideranças para cada vez mais fechamento da sociedade. É uma cruzada rumo ao passado; ao obscurantismo.

Não há porque se iludir: se confrontadas com a realidade dos fatos, as pessoas (mesmo que sem acesso aos jornais e livros) são plenamente capazes de perceber a nocividade da doutrinação e a captura da liberdade.

Essas eleições contam, ainda, com um ingrediente novo: a regulação do uso das redes sociais.

Há 110 milhões de usuários ativos aqui no FB, por exemplo; e todos com mais de 18 anos. Os candidatos poderão patrocinar seus posts.

Partindo do princípio que, para uma mesma quantidade de dinheiro investido, a rede entregue as publicações igualmente para todos os usuários possíveis, as perguntas que surgem são as seguintes: para quem serão entregues? Que critérios escolherão que sejam esses perfis em detrimento de outros?

Em outras palavras: estaremos nas mãos de um algoritmo cuja inteligência (artificial?) não se sabe exatamente que critérios usa e que preferências assume.

Por isso, baseado no fato de que penso que pouca gente acredita de verdade no que se lê e no que se vê por aqui, é que considero que hoje mais do que nunca fará a diferença o testemunho pessoal e o depoimento sobre os candidatos.

Parece paradoxal, mas a campanha será vencida na rua. Fora das redes artificiais. E é nesse cenário que a fé é tão relevante na tomada de decisão.

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(*) Ricardo Lengruber é professor. Doutor pela PUC Rio, tem livros e artigos publicados nas áreas de Educação, Religião e Políticas Públicas. Foi Secretário de Educação em Nova Friburgo, presidente da ABIB e é membro da Academia Friburguense de Letras. Visite www.ricardolengruber.com

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