ESQUERDA x DIREITA


INTRODUÇÃO

O Brasil vive uma polarização política que tem produzido muito rancor, violência e, ainda pior, tem gerado muita discussão mas pouca proposição.

De um lado, “esquerdistas”; de outro, “direitistas”. E outros tantos nomes elogiosos ou depreciativos, ao sabor de quem faz o discurso.

Mas, afinal, o que são esses conceitos e o que efetivamente eles representam?

1.

Antes de tudo, é preciso lembrar que essa ideia de polarização binária – entre bem e mal, eles e nós, certo e errado – é algo ancestral na cultura humana. É uma espécie de marca de identificação desde a pré-história quando tribos que disputavam territórios, alimentos e água digladiavam.

2.

Além disso, é preciso destacar que não existe política sem ideologia. Essa história de que há grupos ideológicos e grupos não ideológicos é falsa. Toda ação humana é ideológica. Toda ação política é ideológica. Falar de ciência, de gestão, de pragmatismo, de tecnocracia, de meritocracia, de fé, de valores, de família, de humanidade e de qualquer outra bandeira é fruto de orientação ideológica. Mesmo que inconscientemente, pensamos, agimos e fazemos escolhas ideológicas. Ideologia tem a ver com a maneira como damos significados ao nosso mundo. É o conjunto de representações da nossa realidade.

3.

Outro dado que não pode ser esquecido é que posicionamentos diferentes em termos de política sempre houve. Monarquistas e republicanos; oligarcas, aristocratas e democratas, por exemplo. Mas foi somente na construção do estado constitucional que a coisa ganhou forma e conteúdo mais claros. Em nome da garantia de se proferir opiniões e credos distintos (especialmente por causa da Reforma Protestante), o constitucionalismo moderno passou a ter a missão fundamental de garantir os direitos individuais e o espaço do pluralismo de ideias. Não demorou para que a própria concepção de Estado fosse alvo de visões distintas e conflitantes.

E é nesse contexto que nascem as disputas de ideias, narrativas e concepções sobre o Estado, a política, a economia e a sociedade. É aqui que surgem as ideologias políticas que sintetizam as principais visões de mundo: o conservadorismo e o progressismo; ou, mais especificamente: o conservadorismo, o liberalismo e o socialismo.

Em outras palavras: num eixo horizontal, direita e esquerda. Num vertical, conservadorismo e progressismo. Política e economia se alimentando mutuamente.

4.

Foi no finalzinho do século XVIII, com a Revolução Francesa, que as categorias esquerda e direita surgiram com os significados que, em certo sentido, perduram.

Quando os Estados Gerais foram convocados na França em 1789 pelo rei Luiz XVI e se transformaram em Assembleia Nacional Constituinte, os representantes do povo, do clero e da aristocracia se sentaram na sala de reuniões em uma disposição por afinidades ideológicas e programáticas. Mais à esquerda, os que se opunham ao veto legislativo do rei. À direita, os que eram favoráveis à manutenção do rei como tendo a palavra final na nação.

E um pouco depois, já após a Revolução e o período napoleônico, em 1815, essa dicotomia ficou mais acirrada. À esquerda, os liberais, representantes de uma nova França. À direita, os ultrarrealistas, defensores da velha França. E, nesse cenário de disputas, entre os polos, surge um “centro”. O que era dicotomia tornou-se tricotomia. E mais: novos espaços nos extremos e ao centro. Assim, configuraram-se grupos da extrema direita, direita, centro direita e centro até a extrema esquerda, atravessando a centro esquerda e a esquerda propriamente dita. Em outras palavras, a polarização já nasceu bem mais complexa e diversificada do que prometia.

Por isso, desde a origem, a polarização entre direita e esquerda, nas mais diferentes sociedades, é bem mais elástica do que as simples definições permitem. Falar apenas de direita e de esquerda é uma simplificação, talvez para ajudar na compreensão, mas que empobrece muito a reflexão. Além disso, essa simplificação reproduz esquemas mentais e simbólicos muito antigos, segundo os quais a direita está ao lado do poder estabelecido e a esquerda contra ele. Na própria linguagem (nos mais diferentes idiomas, inclusive), a direita é associada à retidão e à destreza, enquanto a esquerda é olhada como desastrada e torta. A direita é a destra. A esquerda é a sinistra.

Se é verdade que direita e esquerda nasceram como posicionamentos em relação à figura do rei na França do século XVIII, é verdade também que esses grupos (e todos os subgrupos formados a partir deles) foram assumindo formas, conteúdos e posições diferentes ao longo do tempo. E isso tem a ver com a própria mutabilidade da política e da história.

Até mesmo a linguagem e o conteúdo dos “ismos” são mutantes.

O conservadorismo de séculos atrás é diferente do conservadorismo de hoje. Ele nasceu como uma reação às mudanças produzidas pelas revoluções liberais, inclusive como reação ao próprio Iluminismo. Por isso, é também chamado de pensamento reacionário.

O liberalismo é aquele conjunto de ideias que se identifica com a própria modernidade e sua afirmação de liberdade. Por isso, defende a liberdade econômica com a mínima interferência do Estado; justamente porque nasceu como oposição ao poder absolutista do rei.

O socialismo, por seu turno, se desenvolveu preocupado com a situação concreta das classes trabalhadoras, especialmente por conta da industrialização. É atento a tal questão social.

DIREITA E ESQUERDA NA EUROPA

Um bom exercício é tentar compreender a relação entre direita e esquerda (num eixo horizontal), e conservadorismo, liberalismo e socialismo (num eixo vertical). E, além disso, compreender a evolução de todos esses conceitos ao longo do tempo.

1.

Numa primeira fase, ainda no século XIX, a esquerda política é liberal do ponto de vista econômico; enquanto a direita política é representada pelo pensamento conservador.

A esquerda era favorável a um mercado livre, a um Estado mais fraco, mais igualdade social e contrária aos privilégios do Antigo Regime. Por isso, boa parte da esquerda, nesse momento, é favorável às mudanças sociais, à democracia, à república e ao anticlericalismo.

A direita, pelo contrário, é favorável a um Estado mais forte, e acaba por se tornar anti-igualitária em termos sociais e econômicos, na medida em que favorece as hierarquias tradicionais, e defende a ordem, a tradição, a monarquia e a religião estabelecida.

2.

Num segundo momento, entre o final do século XIX e o início do século XX, as ideias socialistas ganharam força e passaram a ocupar a esquerda no espectro político. Os socialistas, na origem, têm uma visão de recusa dos privilégios e também de igualitarismo social e econômico. Com o amadurecimento do capitalismo na Europa, as análises socialistas mostraram que o livre mercado promoveu concentração de riqueza e desigualdade social.

Por isso, nesse momento, quando os socialistas ocupam a esquerda, os liberais são empurrados para o centro e os conservadores, para a direita. E, além disso, os socialistas começam a defender que o Estado tenha uma função mais forte para controlar a economia e garantir direitos iguais para todas as pessoas.

É nesse cenário que os conservadores passam a ser identificados com a direita e os liberais, ocupando o centro político, tendem a quase desaparecer ou a serem absorvidos pela direita ou pela esquerda. Quanto mais tradicionais são os liberais, mais capturados são pela direita conservadora; quanto mais atentos às questões sociais, mais os liberais se tornam afinados com os ideais socialistas da esquerda.

3.

Uma terceira fase, que resumiria o coração do século XX (a tal “era dos extremos”), é caracterizada por ideias extremistas e, em certo sentido, contrárias até à manutenção do constitucionalismo e do pluralismo.

De um lado, à esquerda, dá-se a ascensão do comunismo – posicionando-se contrariamente ao regime constitucional burguês ou contra os populismos autoritários.

De outro lado, ocorre a ascensão dos autoritarismos conservadores e do próprio regime nazifascista.

Para esse momento da História, a esquematização direita e esquerda e as ideias liberais e conservadoras não são exatamente as únicas, uma vez que os regimes autoritários extremistas e ditatoriais, independentemente do lugar ideológico em que se situam, são uma contestação ao próprio constitucionalismo. Por isso, talvez, seria necessário incorporar a esse esquema uma outra vertente de análise: a polarização entre autoridade e liberdade.

O curioso, no entanto, é que os regimes autoritários e totalitários se posicionaram tanto à direita quanto à esquerda; e o mesmo ocorreu com os regimes que preconizavam a garantia de liberdades. Em outras palavras, o século XX assistiu a eclosão de ditaduras de esquerda e de direita, indistintamente.

4.

Depois da Segunda Guerra Mundial, socialistas e conservadores, direita e esquerda, tornam-se mais moderados. Ambos, cada um à sua forma, aproximam-se do centro – marcadamente liberal.

É por isso que nas democracias do pós-guerra o socialismo é mais liberal, situando-se na centro-esquerda; e o conservadorismo, também mais sensível à economia de mercado, passa a ocupar a centro-direita.

E é assim que surgem, na Europa, por exemplo, as democracias com forte atenção às questões sociais. O Estado de bem-estar social nasceu e cresceu graças às vantagens econômicas dos liberais e a sensibilidade social dos progressistas.

Essa esquematização em quatro fases ajuda a compreender bem a história política e econômica na Europa. Mas, embora as categorias esquerda e direita estejam presentes no mundo todo, elas não funcionam de igual maneira para todos os países.

LIMITAÇÕES E SIMPLIFICAÇÕES DAS DEFINIÇÕES

Apesar de direita e esquerda serem categorias muito complexas e muito diversificadas em si mesmas, pode-se dizer que há, sim, um núcleo que identifica cada uma delas. A esquerda é historicamente associada ao igualitarismo e a direita é vinculada ao não igualitarismo.

O mesmo ocorre com o liberalismo, que se assenta na crença da liberdade individual; com o socialismo, que defende as teses de igualdade social; e com o conservadorismo, que se ressente diante das permanentes transformações das sociedades.

Essas simplificações, no entanto, são muito reducionistas, se se levar em consideração que há uma série de conceitos e de práticas adjacentes que interferem diretamente em cada uma dessas ideologias. É o que ocorre, por exemplo, com as teses neoliberais em relação ao liberalismo, com a democracia cristã em relação ao conservadorismo, e com o comunismo em relação ao socialismo. Isso sem falar nas chamadas ideologias transversais, como nacionalismo, trabalhismo e o ecologismo.

DIREITA E ESQUERDA NOS EUA

Nos EUA, por exemplo, os liberais permanecem à esquerda, enquanto que os conservadores, à direita. Isso tem a ver com o fato de as ideias socialistas nunca terem vingado nos EUA.

Vale destacar, no entanto, que depois da Grande Depressão nos anos de 1930, os liberais passaram a defender um Estado grande, e os conservadores, a menor interferência possível do Estado na economia.

Por isso, até hoje, os Republicanos (que são conservadores e ultraliberais) estão à direita na política norte americana e os Democratas (que são mais progressistas) estão ao que seria uma esquerda política. Mas isso só faz sentido nos EUA.

Nos EUA, o Partido Democrata é um dos dois maiores partidos políticos. É o partido político mais antigo do mundo. O Partido Democrata tem sido a força progressista do país, se posicionando a favor do trabalho nas questões econômicas e sociais. A filosofia econômica de Franklin D. Roosevelt, que influenciou enormemente o liberalismo estadunidense, tem moldado boa parte da agenda política do partido desde a eleição de 1932. A coalizão do New Deal – uma união dos democratas com sindicalistas, operários, minorias (raciais, étnicas e religiosas), fazendeiros, sulistas brancos, intelectuais e com a máquina pública de várias cidades – controlou a Casa Branca até 1953.

O Partido Republicano é o outro grande partido político dos Estados Unidos. Desde a década de 1880 é conhecido pela alcunha Grand Old Party (Grande Partido Velho). Fundado em 1854 por ativistas antiescravidão e modernizadores, o Partido Republicano ganhou notoriedade em 1860 com a eleição de Abraham Lincoln, que usou a máquina partidária para conseguir apoio para vencer a Guerra Civil Americana. O GOP dominou a política estadunidense por dois períodos, de 1854 a 1932. Atualmente, o Partido Republicano apoia uma plataforma política conservadora, que prega o liberalismo econômico, o conservadorismo fiscal e o conservadorismo social.