Atacama: uma viagem de muitas descobertas


Participei no dia 16 de julho de 2018 do programa Direto ao Ponto com o jornalista Márcio Madeira. Conversamos sobre minha viagem em março ao Deserto do Atacama, no Chile.

Viajei para o Deserto do Atacama dias atrás. Era um sonho. E, em algum sentido, uma aventura. De moto, a viagem exigia muito planejamento, preparo físico e psicológico, e uma boa dose de perseverança.

Foram 8.700 km em mais de 100 horas de pilotagem, ao longo de 15 dias. Três países. Dezenas de cidades. Do Atlântico ao Pacífico. Serras, baixadas, desertos, rios e mares; frio, calor, chuva, sol, vento, umidade e altitude. Lugares, paisagens, pessoas, culturas. Experiências de conhecimento de mundo, de encontro com as pessoas e, especialmente, de descoberta de si mesmo. Superação de limites.

Fomos um grupo de 9 amigos motociclistas (e mais 2 num carro de apoio). Saímos na quinta, 08/03, as 5h da manhã rumo a Ourinhos. No segundo dia, alcançamos Foz do Iguaçu. No terceiro, quarto, quinto e sexto dias, viajamos por dentro da Argentina (Corrientes, Thermas de Rio Hondo, Salta e Susques - no alto da Cordilheira) e, por fim, no sétimo dia, atravessamos a tríplice fronteira (Argentina, Chile e Bolívia) em Paso de Jama, rumo a San Pedro do Atacama, Chile. Por lá ficamos uns dias (visitando as maravilhas do deserto e uma rápida viagem a Antofagasta, às margens do Pacífico).

Foram meses de planejamento, revisão de motos, preparo físico, organização da bagagem e tudo mais que exige um experiência dessa natureza exige.

Essa viagem foi uma travessia por dentro de mim mesmo. De quem eu sou na direção de quem eu posso ser. E isso foi bom.

Fomos e voltamos bem. Felizes por conseguir. Realizados por tudo que experimentamos na jornada. Desde o conhecimento de mundo, passando pelo desafio da convivência em grupo, até a descoberta e o autoconhecimento também.

Pretendo escrever mais a respeito. Registrar as experiências e catalogar o que acumulamos no planejamento para, quem sabe, outros amigos se inspirarem e fazerem travessia semelhante.

Por ora, apenas um registro: já no primeiro dia, descobri que levei muita bagagem. É bem verdade que usei quase tudo que levei, mas tive a certeza, ao fim da expedição, que fui pesado demais.

O fato de ter utilizado quase tudo não quer dizer nada. Usei porque estava ali à mão. Era quase que uma obrigação. Talvez uma forma de minimizar o arrependimento de ter sido tão acumulador.

Se tivesse levado a metade do que pus na bagagem, a viagem não teria qualquer mudança na sua qualidade. Acho até que aumentaria a experiência da entrega e do mergulho. Precisava, seguramente, de muito pouco.

Vi andarilhos a pé, de bike e em motonetas muito pequenas. Cada um fazia sua própria travessia.

Disso aprendi duas lições:

1. a gente usa o que tem não porque precisa - mas porque tem; há muita coisa útil sem qualquer necessidade;

2. a gente tende a querer mais do que precisa (por precaução, às vezes; mas, em geral, por ganância mesmo).

Para atravessar o deserto, é preciso muito pouco. Por isso, em algum momento da viagem, me perguntei a mim mesmo: ‘onde estou?’

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(*) Ricardo Lengruber é professor. Doutor pela PUC Rio, tem livros e artigos publicados nas áreas de Educação, Religião e Políticas Públicas. Foi Secretário de Educação em Nova Friburgo, presidente da ABIB e é membro da Academia Friburguense de Letras. Visite www.ricardolengruber.com

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