Arte, Política e Simbologia. 200 anos: para quem?


Tenho feito críticas aos festejos dos 200 anos de Nova Friburgo.

Considero equivocadas as escolhas feitas. Entendo, além da festa em si, que estamos perdendo uma grande oportunidade de virada dos destinos da cidade (em vários quesitos: educação, saúde, mobilidade, economia, cultura, turismo etc).

Quem assumiu para si o planejamento da festa, esqueceu-se de convidar a população real da cidade a participar efetivamente. Acho que antes de festa, a gente precisa de motivos para festejar.

E é exatamente por isso que há tanta manifestação contrária. É a forma que se tem encontrado de exercer cidadania. Já que o governo não inclui, os que estão de fora questionam o banquete do salão de dentro. Aliás, banquetes muito caros.

Mas considero que seja preciso distinguir o “governo” da “cidade”. Governos passam. A cidade fica. E a pergunta que permanece com ela deve iluminar nossa reflexão e nossa ação: afinal, que cidade fica? Para quem fica?

Apesar disso tudo – e de tudo que tenho escrito e dito nos últimos anos – considero o monumento do artista Mario Moreira na Praça Demerval Barbosa Moreira uma bela exceção a isso tudo. Trata-se de uma obra de arte – com todos os desdobramentos que isso encerra.

Alude para o numeral 200, acena com as curvas de montanhas e rios da cidade e mistura-se ao universo urbano com a possibilidade de interação com as pessoas. Funde leveza e firmeza; graça e sobriedade. E está na rua. Está onde as pessoas estão.

Uma cidade não se constrói apenas com cifras; há, sempre, a presença dos símbolos. Existimos biológica, política e simbolicamente. Invariavelmente. Considerar a vida apenas por sua dimensão biológica é pobre demais. Do mesmo modo, é pequena a consideração apenas de sua dimensão política.

O ser humano é simbólico.

As obras de arte têm esse papel e essa potência. Ao mesmo tempo que transmitem uma mensagem “pensada” por seu autor, estão abertas às interpretações que a ela atribuímos. As obras de arte são sempre maiores que seus emissários e seus destinatários. Se é verdade que estejam situadas geográfica e historicamente, é verdade também que transcendem seu tempo e seu espaço e assumem significados múltiplos ao longo das gerações.

É o que o Paul Ricoeur chamava de “reserva de sentido”. Há um dado evidente, e há muitos e muitos aspectos a serem descobertos continuamente. O monumento da praça “pode” ser assim. Basta, é claro, repertório de quem o contempla. E exige, por óbvio, inteligência política e simbólica de quem dele se apropriar.

É nesse sentido que a estética de um objeto deixa de ser apenas uma questão de beleza. Toda estética demanda uma ética. O mundo será sempre visto a partir dos valores com os quais o habitamos. “Os olhos são a lâmpada do corpo”.

Não há mundos ideais (a não ser nos mitos ufanistas ideológica e anacronicamente capitaneados). Há mundos possíveis. E é essa a agenda que temos diante de nós: edifica-lo.

Se a robustez do concreto suportar ao vandalismo, o monumento talvez seja a única “obra” que, daqui a alguns anos, restará dessa festa esquisita.

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(*) Ricardo Lengruber é professor. Doutor pela PUC Rio, tem livros e artigos publicados nas áreas de Educação, Religião e Políticas Públicas. Foi Secretário de Educação em Nova Friburgo, presidente da ABIB e é membro da Academia Friburguense de Letras. Visite www.ricardolengruber.com

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