ÉTICA: de onde vêm os 'nossos' valores?


Eis a questão que, de alguma forma, deveria incomodar mais: afinal, de onde são originários os valores? Por que se pensa, se sente e se age dessa ou daquela forma?

É exatamente sobre isso que a Filosofia se debruça. É sobre esse tipo de reflexão que a Ética se ocupa. Ética é reflexão crítica sobre a Moral, sobre o conjunto de valores que norteiam as ações humanas. De forma reduzida: moral é conduta, ética é reflexão.

Há na dinâmica moral humana, uma dimensão interna – comumente ligada ao que se denomina “caráter” – e uma dimensão externa – exemplificada pelo conjunto de valores instituídos pelo meio em que se convive. Moral é, portanto, uma mescla de caráter, adesão pessoal e construção, padrões sociais.

Uma frase lapidar (e bem-humorada) do Oscar Wilde dá o tom dessa ideia: “Chamamos de ética o conjunto de coisas que as pessoas fazem quando todos estão olhando. O conjunto de coisas que as pessoas fazem quando ninguém está olhando chamamos de caráter. ”

Outra questão que precisa ser enfrentada é que não dá para se fazer afirmações universais em termos de ética, bem como não se pode individualizar as questões. Não há uma ética universal, tampouco uma ética individual. Na medida em que ética tem a ver com ação/reação/omissão humana, e na medida em que esse conjunto de ações são históricos, circunscritos ao tempo e ao espaço, a moralidade humana está diretamente condicionada por esses vetores.

Quem bem sintetizou a questão foi o Augusto Branco: “A moral e a ética são duas invenções humanas que dependem muito do espaço geográfico que você ocupa. ”

E, por isso, cabe sempre o questionamento: de onde vêm e de quem são os nossos valores? Apesar da aparente contradição, é essa mesma a ideia: de quem são os valores que tornamos nossos? De onde vêm os valores que assumimos como sendo de nós mesmos?

Aliás, cabe, inclusive, uma ponderação sobre o conceito “valor”. Essa ideia que exprime uma relação entre as necessidades do indivíduo e a capacidade de as coisas satisfazerem-nas. Para a Filosofia, portanto, “valor” não é nem totalmente subjetivo, nem totalmente objetivo, mas como algo determinado pela interação – pela ralação - entre o sujeito e o objeto.

Valor, nesse sentido, é a “não-indiferença”. Ou seja, uma relação efetiva em que posições são assumidas em relação a vida. Por isso, ética tem a ver com política, com economia, com trabalho, com religião, com família, com educação e com tudo o mais que tenha a ver com a interação entre pessoas. Numa sentença bastante provocativa, Betinho ajuda a colocar os pés no chão: “Em resposta a uma ética da exclusão, estamos todos desafiados a praticar uma ética da solidariedade. ”

Ética tem a ver com “querer”, “poder” e “dever”. Tem a ver com os critérios que adotamos para escolhas efetivas na vida. Na medida em que a vida é uma permanente relação, as escolhas sobre as que privilegiamos passam necessariamente por aquilo que “valoramos”, daí sua densidade ética. Foi o professor Mario Sérgio Cortella quem lapidou a sentença: “Tem coisa que eu quero, mas não devo; tem coisa que eu devo, mas não posso; e tem coisa que eu posso, mas não quero. ”

De outro modo: ética parte da vontade, leva em conta a alteridade e pressupõe responsabilidade. Isso sintetiza o indivíduo ético – livre e autônomo.

Por fim, vale destacar a relação íntima que há nas discussões sobre ética, poder e corrupção, por exemplo. Máximas como “o poder corrompe” trazem consigo demasiado “determinismo”. Como se necessariamente uma coisa levasse a outra. Ética não se possui, mas se forja. E a construção ética subtende, além de racionalidade, liberdade. Só não há (possibilidade de) corrupção onde não há liberdade.

Ética não é sinônimo de “bondade”, Ética não é algo que se tem ou não se tem, antes aquilo que se constrói – por meio do esforço, da racionalidade e do hábito. Trata-se, repito, de escolha. “A virtude moral é uma consequência do hábito. Nós nos tornamos os que fazemos repetidamente. Ou seja: nós nos tornamos justos ao praticarmos atos justos; controlados ao praticarmos atos de autocontrole; corajosos ao praticarmos atos de bravura. ” (Aristóteles)

Vale, então, retornar ao ponto inicial: de onde são nossos valores? Por que pensamos, sentimos e agimos assim? Somos autônomos ou alienados? A quem servem nossas ideias?

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