A leitura da Bíblia em John Wesley


A leitura da Bíblia é um componente central na vida eclesial. É um elemento, ao mesmo tempo, primeiro e último na experiência religiosa dos cristãos; notadamente, dos cristãos evangélicos.

Primeiro porque é a fonte a partir da qual se constroem as matrizes de pensamentos e doutrinas. Último porque é a direção para qual se aponta a prática e para a qual se dirige e a própria fé.

A Bíblia é uma espécie de marca identificatória do ser cristão.

Se isso é verdade com relação ao Cristianismo, é ainda mais acertado no que diz respeito aos cristãos de tradição protestante e evangélica. Desde Lutero, com o Sola Escriptura, os textos bíblicos ganharam centralidade na prática devocional, bem como na orientação moral dos cristãos.

Em John Wesley, o que já era especialmente caro à Igreja, tornou-se elemento essencial na pregação efetiva do Evangelho. Ler, estudar, refletir, pregar e ensinar a Bíblia se tornaram princípios norteadores da prática metodista.

O próprio Wesley, que era bom conhecedor das línguas bíblicas (hebraico e grego), cultivava um apreço especial pelo estudo sério e sistemática das Escrituras. Publicou, além dos mais de cem sermões, um comentário sobre toda a Bíblia, sendo três volumes dedicados ao Antigo Testamento e um ao Novo Testamento; além disso, publicou muitos livros e um número expressivo de folhetos e cartilhas com vistas a educação bíblica popular.

Dizia de si mesmo ser homo unius libri, ou seja, homem de um livro só! Em outras palavras, reconhecia na Bíblia a fonte inspiradora para a vida humana baseada nas verdades do Evangelho de Jesus. Mas, por paradoxal que pareça, era um erudito na leitura dos clássicos da bibliografia disponível a seu tempo. Dizer-se homem de um único livro não o privou de ler (e produzir) vasta literatura de caráter extra-bíblico e teológico.

Talvez já esteja aqui uma bela contribuição da prática wesleyana à vida eclesial contemporânea: a Bíblia como fonte da experiência de fé, mas sempre lida ao lado da rica literatura disponível. Ler a Bíblia significa ler o mundo; ler o mundo compreende ler a Bíblia de forma ampla e criativa. Focar o olhar no passado faz perder a beleza da Bíblia como agente na transformação da vida concreta das pessoas de hoje, mas deixar de examinar a História é correr o risco de, perdendo a memória, perder também os traços que nos identificam.

Na leitura da Bíblia, Wesley sugeria que houvesse elementos iluminadores. Agentes externos que auxiliassem o leitor. Por isso, advogava sobre o uso consciente da Razão. Não que fosse ou seja possível ler sem o uso da mesma, mas que se tivesse clareza que a razão humana é a ferramenta por excelência da leitura da Palavra. Em Wesley, a piedade cristã não obedece ao simplismo da experiência mágica da leitura da Bíblia. Há uma ilustração requerida no processo de interpretar as Escrituras.

É bastante saudável conhecer as orientações de Wesley a esse respeito. Na sua metodologia de leitura dos textos, recomendava que fossem feitas comparações entre as passagens bíblicas. Sua ideia fundamental é que a Bíblia podia (devia) ser um agente explicador de si mesmo. É, de certa forma, um embrião da leitura exegética que quer compreender o texto nele mesmo.

Mas, ia além, e revelava o seu apreço pelo conhecimento das línguas e dos manuscritos bíblicos. Wesley tinha clareza quanto ao fato de que as traduções são sempre aproximações interpretativas do texto e não os textos propriamente. O leitor da Bíblia, ao ter a consciência da distância que separa o mundo do texto e mundo do leitor, torna-se um leitor mais lúcido e, portanto, mais bem capacitado para a compreensão do texto.

Pela mesma razão, Wesley recomendava o recurso a manuais bíblicos. Fontes de tipo enciclopédico que ajudassem na compreensão de dados filológicos, geográficos, históricos, sociais e culturais que esclareçam o mundo do texto. E, por semelhante modo, para que a leitura do texto antigo produza frutos no mundo de hoje, Wesley orientava que a leitura lúcida e crítica dos sinais dos tempos. Não basta compreender o mundo do texto; é urgente que se tenha em mente a verdadeira realidade do mundo dos leitores. Seu esforço de interpretação, do ponto de vista exegético, ia até onde servia para orientar os pobres, carentes e marginalizados da sociedade inglesa do século XVIII.

Embora não haja um protocolo bem definido (se pensado sob o ponto de vista exegético), a leitura bíblica empreendida por Wesley ainda pode ajudar muito ao agente de pastoral que deseja sinceramente fazer da Bíblia luz para o caminho dos cristãos no século XXI.

Creio que seja possível, com base na prática wesleyana, propor um caminho na leitura bíblica hoje:

1. Primeiramente, há que se ter em mente “como estudar”, “como ensinar”. Estas duas tarefas estão intimamente relacionadas. No caso da Bíblia, de maneira mais profunda ainda, pois quem a estuda, o faz para testemunhar, para ensinar. Portanto, quem ensina deve ter uma boa formação teórica; dominar o conteúdo e estar apto para lecionar. E quem aprende deve ser motivado a uma postura crítica, reflexiva e construtora, na medida em que se apropria dos recursos fornecidos e elabora a sua própria maneira de conhecer. Na verdade, é preciso aprender a aprender!

2. Em seguida, há que se ter mente os pressupostos para ler e estudar a Bíblia. Em outras palavras: reconhecer a Bíblia como fruto de um processo histórico longo e repleto de variantes. A História humana é o palco da Revelação de Deus. Os textos bíblicos não são frutos de uma experiência individual simplesmente; eles são o resultado de uma ampla e fecunda vivência comunitária e social. A Bíblia é um livro feito em mutirão. A Bíblia é uma espécie de testemunho da experiência de fé do povo de Israel e da Igreja Primitiva. Ela é, nada mais nada menos, que o diálogo travado entre Deus e sua Criação, especialmente com os homens e mulheres concretos de Israel, da Igreja e de hoje. É indispensável na leitura da Bíblia, manter o equilíbrio entre Fé e Razão. Perceber as distâncias entre nós e a Bíblia, no tocante à história, sociedade, valores, costumes e, até mesmo, religião. Procurar conhecer o máximo possível sobre a história de formação da Bíblia, para melhor compreender o lugar que ocupa cada uma de suas partes no todo. Buscar conhecimentos sobre o ambiente sócio-histórico do texto que se quer estudar; averiguar o seu contexto. Para cada texto, é necessário que se conheça o livro da Bíblia de onde foi extraído, para que sejam definidas as características dele; como, por exemplo, o gênero literário, os acentos teológicos e as suas peculiaridades.

3. Por fim, há que se estabelecer uma metodologia mínima de leitura e entendimento do texto bíblico. Algo, em suma, assim:

a) Tenha sobre a mesa várias traduções da Bíblia, para comparações. Use um dicionário e um comentário bíblico. Utilize, também, Bíblias de Estudo; com introduções, notas e referências. Sempre que possível, ao final do seu estudo, leia um estudo já feito (seja em revistas ou livros) para enriquecer criticamente o seu trabalho. Importante: selecione todo esse material com o maior senso crítico possível. Procure saber referências sobre os autores, editoras e obras. Não se deixe levar pelas aparências.

b) Diante do texto propriamente dito, há perguntas que podem ser feitas: onde e quando ocorreu este fato? Quem são os personagens mencionados na trama? Como se desenrola a história e qual o papel de cada personagem? Quais são as palavras chaves do texto? Aquelas que mais se repetem? Os verbos? Os conceitos centrais? Essas e muitas outras indagações poderão ajudar a clarear o significado dos textos.

c) E, depois de lido e compreendido o texto, é hora de olhar para frente: que lições estão sendo ensinadas? Sublinhar os valores do Reino de Deus que estão presentes no texto. Como tornar este texto algo que produza transformação em minha vida? Procurar fazer do texto não um instrumento para fins estranhos a ele, mas uma luz para a caminhada de fé dos cristãos.

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