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PRIVILEGIUM - a lei privada


Entro numa loja e ninguém me acompanha com os olhos. O segurança me chama de doutor. No banco, sou senhor antes de provar que tenho conta. Passo diante de uma viatura e não apresso o passo, não engulo em seco, não ensaio explicações. Caminho pelo mundo como quem não precisa pedir licença para existir.


Levei tempo demais para perceber que essa leveza tinha nome. E que o nome era antigo.


Os romanos chamavam de *privilegium* aquilo que hoje pronunciamos sem pensar. A palavra junta *privus*, o que é próprio, particular, e *lex*, a lei. Privilégio é, na origem, lei privada: norma feita para um só, isenção concedida a alguém em relação à regra que pesa sobre todos os outros. Vivi décadas sob uma lei escrita só para mim sem jamais ter lido o estatuto.


Sou homem, branco, heterossexual. Cresci com escola, médico, casa, comida na mesa, uma família que me quis. Nada disso conquistei; tudo isso herdei. A meritocracia é a fábula que se conta a quem chegou primeiro que chegou sozinho.


No Brasil, os negros ainda são "eles". A frase divide o país em duas margens, e a margem de onde falo é a que nunca precisou se explicar. Dizem que vivemos uma democracia racial. Basta enfiar a cabeça numa universidade pública e contar quantos negros há entre os professores, e quantos entre os que limpam o chão, para que a fábula se desfaça. A pobreza, neste país, tem cor. Fingir que não vejo é o luxo mais barato que o privilégio me oferece.


A mesma cegueira tem outras gramáticas. O homem que lava o carro com esmero litúrgico e jamais enxaguou um prato. A piada no grupo de WhatsApp. A colega interrompida na reunião pela terceira vez sem que ninguém note, exceto ela. O patriarcado não começou ontem; a tradição que herdo o nomeou como a primeira das estruturas de pecado, a iniciativa da mulher que ousou conhecer. Sou filho dessa estrutura. Reconhecê-la em mim dói mais do que denunciá-la nos outros.


E há o ódio que se traveste de fé. Lembro da noticia, tantas vezes repetida, de um homem que matou desconhecidos pelo simples fato de amarem quem amavam. O mundo é particularmente intolerante com o amor entre iguais, e quase sempre são as religiões que regam essa intolerância. Como se a capacidade humana de amar coubesse no estreito decreto da biologia. Como se Deus precisasse da minha homofobia para ser Deus.


O que fazer, então, de dentro da casa que me abriga e oprime os outros?


Aprendi que feminista, antirracista, antihomofóbico não são medalhas que se prendem ao peito e se exibem. São verbos. Converter vem de *con-vertere*: dar meia-volta, virar o corpo na direção contrária à que se vinha. Os profetas chamavam isso de *šuv*, *metanoia*. Não é um estado a que se chega, é um movimento que não termina, e quem mais precisa girar é justamente aquele a quem o sistema deu vantagem.


Esse giro tem armadilhas que conheço bem. A primeira é o salvador: o homem branco que, generoso, resolve falar pelas vítimas, ocupando até o microfone da denúncia. A segunda é a virtude de vitrine: a hashtag publicada de manhã e a colega calada à tarde. A terceira é o cinismo, esse conforto dos que decretam que nada muda para não terem de mudar nada. E a quarta, a mais sedutora, é a culpa que se basta a si mesma, lágrima morna que dispensa o gesto.


Calar para escutar. Ceder a vaga, o cargo, o turno de fala. Pagar pela cota sem reclamar do preço, porque o preço é a devolução de uma dívida antiga. Educar os filhos contra o que me ensinaram sem pensar. Errar, ser corrigido, agradecer a correção e seguir. Nada disso é heroico. É apenas o mínimo de quem, tendo nascido credor, descobre-se devedor.


Se o racismo, o machismo e a homofobia são estruturas de pecado, e não apenas falhas de caráter, então desmontá-las é vocação ética. E essa vocação convoca, antes de todos, aqueles que a estrutura beneficiou. A denúncia sem a conversão do próprio corpo é retórica. O anúncio sem a renúncia de algum privilégio é propaganda.


Não escrevo isto da posição de quem chegou. Escrevo de dentro do privilégio, ainda tropeçando nele, ainda flagrando em mim o gesto que critico. A honestidade possível não é a inocência; é a vigilância.


A justiça não é um endereço onde se mora — é um rumo em que se insiste. É para onde desejo caminhar.


Sigo virando o corpo. Todo dia, mais um pouco.


Prof. Ricardo Lengruber



 
 
 

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