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OUTRA CAMISA - A do Haiti: a vitória que a FIFA mandou apagar do tecido e o velho medo do mundo diante da rebeldia negra



“Dèyè mòn gen mòn.” — Atrás das montanhas, mais montanhas.

Provérbio haitiano

 


O Brasil venceu o Haiti por três a zero, no dia 19, na Filadélfia, e o eliminou da Copa. Vini Jr. marcou. Foi a quinta partida haitiana em Mundiais, em mais de meio século — a quinta derrota. Um país arrasado pela fome, pelos terremotos e pelas gangues, de volta ao maior palco do mundo depois de cinquenta e dois anos de ausência, despachado para casa por uma potência. O placar foi justo. A história, nem tanto.

 

Porque, por trás daqueles três gols, há uma conta muito mais antiga.

 

Comece-se pela camisa — de novo, a camisa. Dias antes da estreia, a FIFA obrigou o Haiti a apagar do uniforme uma ilustração. O desenho lembrava a Batalha de Vertières, travada em 18 de novembro de 1803, quando os exércitos de escravizados comandados por Jean-Jacques Dessalines derrotaram, de vez, as tropas que Napoleão mandara para reescravizá-los. Daquela vitória nasceu, em 1º de janeiro de 1804, o Haiti: a primeira república negra do mundo, o único país parido por uma revolta vitoriosa de gente escravizada. A FIFA disse que aquilo era mensagem política. E mandou apagar.


Reparem na delicadeza do absurdo. A memória de uma guerra de libertação é “política”; as camisas tatuadas de patrocinadores, não. Uma Copa sediada por um país metido em guerras, não. Os hinos da velha Europa cantam, sem o menor pudor, as batalhas que venceram — a Marselhesa convoca às armas; brasões nacionais ostentam, como joias, as guerras ganhas, e a ninguém ocorre chamar aquilo de manifesto. Político, ao que parece, só quando a vitória foi do escravo. Há, no mundo, uma hierarquia silenciosa das memórias: algumas histórias têm licença para representar a humanidade; outras ficam confinadas ao porão da controvérsia. E há um detalhe que parece roteiro: o Haiti carimbou a vaga nesta Copa no dia 18 de novembro de 2025 — exatamente o aniversário de Vertières. Meses antes, nos Jogos de Inverno, na Itália, já haviam proibido o rosto de Toussaint Louverture no uniforme haitiano. É sempre a mesma memória que mandam apagar.

 

E aqui está a tese que me persegue: o centro do mundo nunca soube o que fazer com a rebeldia negra vitoriosa. Tolera o escravo que apanha. Não suporta o escravo que vence. Tanto não suporta que, em 1825, a França cobrou do Haiti o preço de sua própria liberdade — uma indenização monstruosa, paga com juros por mais de um século, que estrangulou no berço a nação que ousou nascer livre. Fizeram a primeira república negra pagar, à vista e a prazo, a fatura de ter se atrevido. Esse é o pecado original que o centro jamais perdoou: não a violência da revolta, mas o seu sucesso.

 

Temeram o Haiti os senhores de engenho do Brasil. Havia até nome para esse pavor: o medo do haitianismo, o terror de que a revolta atravessasse o mar. E quase atravessou. Em 1835, em Salvador, os Malês — africanos muçulmanos, muitos deles letrados em árabe, mais cultos que seus senhores — protagonizaram a maior revolta urbana de escravizados das Américas. Foi afogada em sangue, forca e deportação. O medo do Haiti escreveu lei, escreveu polícia, escreveu a brancura brasileira.

 

Temeram-no os impérios da Europa, que engasgaram também com a Etiópia — a nação africana que, em Adwa, em 1896, humilhou o exército italiano e permaneceu livre quando todo o continente fora repartido. Outra negritude rebelde que o centro não conseguiu digerir.

 

Temem-no ainda hoje os que apagam uma batalha de uma camisa de futebol. Mudam as armas; o medo é o mesmo.

 

E o futebol é o palco mais exato desse paradoxo. Jogo de brancos — elitista, britânico, importado pelos filhos da burguesia, que não queriam negro no gramado nem por engano. O povo, então, tomou-o para si. O negro e o pobre fizeram dele o que ele é: arte, gingado, Brasil. Tornaram seu o jogo que os expulsava. E, no entanto — eis o nó —, a mesma arquibancada que adora o ídolo negro em campo é capaz de chamá-lo de macaco da arquibancada. Adoram o deus e apedrejam o homem. Vini Jr. sabe disso na pele: o maior símbolo do nosso futebol virou, na Europa, alvo de gritos de macaco e, por isso mesmo, bandeira da luta antirracista. O gramado é verde por fora e contraditório por dentro.

 

Há ainda um fio que quase ninguém puxa. O Brasil não venceu o Haiti apenas em campo. O Brasil ocupou o Haiti. Por treze anos, de 2004 a 2017, sob a bandeira da ONU, na chamada Minustah, quase trinta e sete mil soldados brasileiros estiveram lá. O general que abriu essa ocupação, Augusto Heleno, comandou em 2005 a operação Punho de Ferro, em Cité Soleil: milhares de tiros numa favela de Porto Príncipe, dezenas de mortos, muitos deles mulheres e crianças. A mesma casta de generais que foi “pacificar” os pobres negros do Haiti — Heleno, Braga Netto — a história recente levaria ao banco dos réus pela trama golpista de 2022. A farda ensaiou lá fora o que sonhava em casa.

 

E há a ironia que dói. Em 2004, em pleno início da ocupação, o Brasil mandou a seleção jogar contra o Haiti em Porto Príncipe — o “Jogo da Paz”, seis a zero, presente diplomático entre duas formas de repressão. Em 2026, três a zero e eliminação. A bola, às vezes, é a continuação da ocupação por outros meios.

 

Não deixa de ter graça amarga que o Brasil dispute esta Copa comandado por um italiano — Ancelotti, o primeiro estrangeiro a nos dirigir num Mundial. A Itália, justamente, que a Etiópia derrotou em Adwa; a Itália que, neste mesmo ano, sediou os Jogos em que proibiram o rosto de Toussaint. O mundo é redondo como a bola, e teima em girar sempre para o mesmo lado.

 

Caetano e Gil já avisaram, faz mais de trinta anos, que talvez o Haiti não estivesse tão longe quanto gostaríamos. Não está. O Haiti é a memória que o mundo manda apagar da camisa e que insiste em permanecer na pele. É a pedra que os construtores rejeitaram — e que a história, mais cedo ou mais tarde, faz voltar ao alto do muro.

 

Apagaram Vertières do tecido. Não conseguiram apagá-la da história. Dèyè mòn, gen mòn: atrás de cada montanha, ainda há outra. E o Haiti segue subindo.



 
 
 

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