A CASA SEMPRE GANHA
- Ricardo Lengruber

- 1 de jul.
- 4 min de leitura
Atualizado: 4 de jul.
Sobre a fé, o jogo e o desespero
Repartem entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica lançam sortes.
[Salmo 22]
A Copa chegou pela tela do telefone, de graça, narrada como quem conversa na mesa do bar. Na parada para hidratação (do marketing), o tom muda: convida-se o espectador a “colocar a paixão em jogo”. Surge um QR Code, sobe a odd, anuncia-se a cota turbinada, a oferta válida só para aquele lance. A Senacon abriu apuração; o Ministério da Fazenda prepara medida para conter o bombardeio. O narrador, Casimiro, foi honesto à sua maneira: é o que faz o negócio girar. Não há muito o que dizer contra a aritmética.
A lógica das bets tem uma liturgia clara: promessa, rito, sacrifício, a recompensa. E uma fé, a de que desta vez a sorte vai sorrir. Quem cresceu em parte das igrejas evangélicas Brasileiras reconhece o rito: no templo da prosperidade, o fiel deposita o dízimo e espera a bênção. Na casa de apostas, o apostador deposita a fé e espera o prêmio como milagre.
Mudou o altar. A oração é a mesma.

Max Weber escreveu sobre o desencantamento do mundo, a saída dos deuses diante de cena. Não previu entretanto a astúcia do tigrinho: reencantamento puro, uma espécie de probabilidade disfarçada de providência. Bourdieu mostrou que a salvação também tem mercado, uma economia de bens simbólicos que cobra pelo acesso ao sagrado. As bets apenas, mais uma vez, materializaram a transcendência. Vendem o que certas igrejas vendem, com a vantagem de não fingir piedade.
As duas práticas se nutrem da mesma teologia, a mais antiga e a mais cruel: a da retribuição. O justo prospera, o ímpio padece; quem semeia, colhe. Causa e consequência. Os amigos de Jó já a recitavam diante do homem em suas chagas: se sofres, pecaste. A prosperidade atualizou o dogma: se adoeceu, faltou fé; se empobreceu, faltou lançar a semente e crer. A casa de apostas prega a versão laica: se perdeu, foi azar, foi parar cedo demais. A culpa recai sempre sobre a vítima. A estrutura sai sempre ilesa.
Azar veio do árabe az-zahr, o dado de jogar; o nome do brinquedo virou o nome da desgraça. Sorte vem do latim sors, aquilo que se lançava para consultar os deuses. Apostar sempre foi isto: interrogar o oráculo, perguntar aos deuses, exigir do acaso uma resposta que o trabalho não deu.
Outra palavra merece atenção no dicionário ludo-teológico. Crer e crédito nascem do mesmo verbo latino, credere: colocar o coração, confiar, entregar-se, apostar no que ainda não se vê. O fiel recita o credo; o banco concede crédito; o apostador joga no cartão o dinheiro que não tem. Fé e finança partilham a raiz porque ambas são promessa: crer é adiantar ao futuro uma confiança que o presente não garante.
A diferença está no que se cobra por ela. A graça se dá sem juros. O crédito da casa vem com fatura, e a fatura chega quando a sorte já foi embora.
Nada disto é novo. A exploração da esperança alheia talvez seja o mais rendoso dos ofícios e o mais antigo dos cultos. Em Delfos cobrava-se pela profecia. Nos átrios do Templo de Jerusalém, os cambistas tomavam sua parte, até que um carpinteiro virou as mesas e os chamou de ladrões da casa de oração. Tetzel vendia indulgências como na feira: posta a moeda no cofre, a alma saltava do purgatório. Foi preciso um monge pregar noventa e cinco teses numa porta para lembrar que a graça não tem preço. Muda a vestimenta. O az-zahr gira igual.
Por baixo do rito existe um abismo, e é ele que move a roda. O apostador da madrugada não procura dinheiro apenas; procura saciar sua ganância, mas busca também tapar um vazio com o brilho da tela. Vazio: Hevel, dizia o sábio de Eclesiastes: fumaça, sopro, vapor. A labuta que não paga o aluguel é engolida pela máquina ou pelo acaso, e sobra a tentação de arriscar a sorte, lançar-se nessa fé. O sistema cobra dos dois lados do coração: da miséria extrai o desespero de quem nada tem; da ganância, a vertigem de quem quer mais. A roleta não distingue o faminto do ávido. Engole ambos com a mesma indiferença.
Seria desonesto fingir que a questão é simples. O adulto é livre para arriscar o próprio dinheiro, e proibir só empurra o jogo para o porão do crime. A atividade regulada gera tributo e paga a transmissão que milhões assistem de graça. O dízimo, no melhor sentido, é gratidão e partilha, a koinonia de quem reparte o pão. O problema nunca foi jogar nem doar; é a indústria que converte liberdade em compulsão e gratidão em tarifa.
A fé que vale de verdade não vende certeza; ela acompanha na incerteza. Não promete que o justo jamais perderá; promete que, mesmo perdendo, a vida segue e vale a pena. O milagre, no sentido das Escrituras, nunca foi o extraordinário do prêmio; antes, o ordinário de existir, do pão repartido, do abraço do pai que esperava o filho perdido. Quem faz da fé uma troca comercial com Deus, ou da esperança uma troca com o acaso, comete o mesmo pecado com dois nomes.
A casa sempre ganha. É a única certeza que o cassino e o falso altar de fato oferecem, e oferecem contra quem entra. Resta saber em que ainda vale apostar, quando a aposta já nasce viciada. Talvez na única que a matemática não trunca: a aposta no outro, no trabalho partilhado, na cidade menos desigual, no bem que se faz sem cobrar pedágio. O filho que voltou para casa não acertou na odd; arriscou tudo na generosidade de quem o aguardava, e a festa o recebeu. Há jogos que ninguém ganha sozinho, e graças que não cabem em prêmio. Apostemos nessas. Essas, a casa não leva.
Prof. Ricardo Lengruber




Perfeito texto e muito bem embasado. As Bets além de destruírem muitas famílias estão aos poucos desvirtuando o futebol.