O RODEIO: A PAIXÃO NACIONAL
- Ricardo Lengruber

- 4 de jul.
- 5 min de leitura
A poeira e a tela: sobre a fabricação de uma paixão que se assiste
Nestes primeiros dias de julho, o país inteiro se debruça sobre as telas. Amanhã o Brasil enfrenta a Noruega, e já se ensaia a liturgia de sempre: os telões nas praças, a multidão reunida em torno de uma transmissão gratuita, o hino cantado com uma emoção que raramente sobra para os dias comuns. Entre um lance e outro, os anúncios das casas de apostas prometem a cada torcedor a chance de virar a própria sorte com um clique. Repete-se, como um dogma, que o futebol é a paixão nacional.
Gosto de duvidar dos dogmas. Sobretudo dos que ninguém mais examina. Futebol é mesmo uma paixão nacional?

Enquanto as capitais assistem, o interior se ajunta. A Confederação Nacional de Rodeios calcula que o Brasil realiza entre 900 e 1.500 festas de peão por ano, que reúnem cerca de 8 milhões de pessoas e movimentam algo próximo de R$ 8 bilhões. Só a Festa do Peão de Barretos levou, em sua última edição, quase um milhão de visitantes em onze dias, com ingressos vendidos para moradores de 2.739 cidades, praticamente metade dos municípios do país reunidos, em carne e osso, num único parque do interior paulista. Ribeirão Preto ajunta 600 mil pessoas; Americana, mais de 400 mil; e assim seguem Jaguariúna, Piracicaba, Cajamar, cidade após cidade, num calendário que não conhece entressafra.
E há a trilha sonora. O sertanejo reina nas plataformas há anos, sem disputa séria: na retrospectiva do Spotify de 2025, a dupla Henrique e Juliano liderou pela segunda vez consecutiva, e o gênero ocupou boa parte das dez primeiras posições. A música que embala o rodeio é, literalmente, a mais ouvida do Brasil.
Compare-se com o futebol que enche a boca. A Série A do Campeonato Brasileiro reuniu, em 2025, pouco mais de 10 milhões de torcedores ao longo de 380 partidas: uma média de 26 mil pessoas por jogo, com quase um quinto delas fechando no vermelho, incapazes de pagar o próprio custo. A conta é simples e desconcertante. A paixão nacional esvazia os próprios estádios durante o ano e só se reacende, febril, de quatro em quatro anos, diante de uma tela.
Por que, então, o futebol se tornou o que é?
A resposta cabe numa palavra que o próprio esporte ajudou a consagrar: espetáculo. Do latim spectaculum, de spectare, olhar. Espetáculo é o que existe para ser visto. E o que existe para ser visto se molda, com o tempo, às exigências de quem vende o olhar alheio.
O modelo mais acabado dessa engenharia não está no futebol, e sim no Super Bowl norte-americano, final da liga mais rica do planeta, que fatura mais de 20 bilhões de dólares por temporada. A decisão gera, sozinha, mais de 600 milhões de dólares, e trinta segundos de comercial custam 7 milhões. É o jogo em que o esporte virou o intervalo entre as propagandas. A mesma lógica reveste tudo: a Premier League inglesa arrecada mais de 6 bilhões de libras e alcança 212 países; a liga indiana de críquete, segundo esporte mais popular do mundo, movimenta perto de 10 bilhões de dólares e reúne 400 milhões de telespectadores em sua final, tudo isso em 74 partidas espremidas em sete semanas. Máquinas afinadas para a tela.
A popularidade que interessa a essa indústria não é o amor de um povo. É a audiência que se revende ao anunciante.
No Brasil, a engrenagem encontrou terreno fértil porque o futebol foi soldado à própria ideia de nação. Já observei, noutro lugar, que o hino só se popularizou de fato nos estádios, cantado antes das partidas, e não nas salas onde se poderia problematizar nossa história controversa. Trocamos a consciência de cidadania pela camisa da seleção. É mais fácil chorar por um gol do que por um direito.
E há o que se cobra por baixo do pano.
O futebol tornou-se, entre nós, o principal veículo de uma economia de sombra. As casas de apostas, as tais bets, são hoje as maiores patrocinadoras do esporte, e não por acaso: o jogo é o cavalo de Troia do cassino. O Banco Central estimou que os brasileiros destinaram cerca de R$ 240 bilhões a apostas em 2024, com fluxos mensais entre R$ 18 e R$ 21 bilhões, movimentados por quase 24 milhões de pessoas. O que mais deveria envergonhar já foi dito pelo próprio Tribunal de Contas da União, que apelidou o fenômeno de cassino de bolso: em janeiro de 2025, famílias do Bolsa Família repassaram R$ 3,7 bilhões às apostas, mais de um quarto de tudo o que o programa lhes pagou naquele mês. Um estudo recente calcula em quase R$ 39 bilhões ao ano o custo social do jogo, entre adoecimento, endividamento e mortes, contra uma arrecadação de R$ 12 bilhões. É uma conta que não fecha do lado de quem paga, e fecha muito bem do lado de quem recebe.
Sangra-se o mais pobre com a promessa de que a bola, um dia, cairá a seu favor.
A conta pública é da mesma linhagem. Os doze estádios erguidos para a Copa de 2014 custaram R$ 8,4 bilhões à época, R$ 14 bilhões em valores corrigidos, com participação privada de irrisórios 7%. O Mané Garrincha, em Brasília, consumiu quase R$ 2 bilhões, três vezes o orçamento original, e o próprio Tribunal de Contas o classificou como elefante branco antes mesmo de a poeira da festa assentar. Doze anos depois, oito das doze arenas ainda devem R$ 232 milhões, drenando dos estados o dinheiro que faria falta à saúde e à escola.
Um retrato basta. Em 2021, enquanto os hospitais de Manaus racionavam oxigênio e médicos escolhiam quem viveria, o governo do Amazonas gastava R$ 1 milhão por mês para manter acesa uma arena vazia — a mesma que se ergueu, com festa e fogos, sobre a promessa de um legado.
Os clubes, coroando o enredo, fecharam 2025 com receita recorde de quase R$ 15 bilhões e dívidas que beiram os R$ 16 bilhões. Cinco deles concentram metade de toda a arrecadação. O dinheiro entra pela porta da televisão e sai pela porta dos poucos. À torcida, que sustenta o mito, sobram a arquibancada e a fatura.
Volto ao interior, e volto a uma palavra. Peão vem do latim pedonem, o que anda a pé: o soldado raso, o trabalhador do eito, a peça menor do tabuleiro. O rodeio celebra, no centro da arena, exatamente a figura que a economia do espetáculo nunca se deu ao trabalho de vender: o homem simples do campo, o corpo que trabalha, a moda de viola. Enquanto a indústria global fabrica ídolos para a tela, o interior ainda se reúne em torno do peão.
Seria ingênuo fingir que o rodeio escapa ao mercado. Barretos também se aburguesa: seu visitante médio tem curso superior, renda alta e gasta R$ 600 por dia. Onde o povo se ajunta, o comércio o segue, e o que era festa vira, aos poucos, produto, como já vi acontecer com o carnaval, engaiolado em regras, notas e quesitos até quase perder o vigor. A diferença, por ora, é de natureza. O rodeio ainda mobiliza corpos, não apenas olhos. Ainda se dança na poeira, e não só se assiste da poltrona.
Há uma pista simples para encontrar a paixão de um povo. Não é onde a vendem, mas onde ela se ajunta de graça. Não na tela iluminada que nos cobra a alma em apostas e nos empurra a fatura de estádios vazios, e sim nos corpos que ainda cantam e dançam na poeira do interior, sem que ninguém lhes venda nada além de uma noite de alegria.
O Brasil que assiste cabe numa tela. O Brasil que se ajunta, não!
Prof. Ricardo Lengruber




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