O SOPRO E O ABISMO
- Ricardo Lengruber

- 27 de jun.
- 5 min de leitura
Religião, Bíblia e teologia: notas para uma leitura inspirada
A letra mata, mas o espírito vivifica.
2 Coríntios 3,6

Há um livro que está em toda parte e que quase ninguém leu. Ele decora paredes de tribunal, abre sessões de câmara, sustenta promessas de campanha, justifica condenações e absolvições. Vende-se em bancas ao lado de horóscopos e em templos sob luzes de led. Citam-no de cor os que jamais o abriram. Brandem-no como arma os que dele fizeram negócio. A Bíblia talvez seja o texto mais influente, e ao mesmo tempo o mais maltratado, da cultura ocidental.
Convém começar pelo nome. Ta biblia, em grego, é um plural: os livros, os rolos, a pequena biblioteca. Não um livro, mas muitos, escritos em línguas distintas, por mãos que não se conheceram, separadas por mais de mil anos de história. Quem diz Bíblia diz pluralidade. E lê-la, antes de ser conforto, é despojamento: há ali mais perguntas do que portos seguros, mais abismo do que corrimão.
Dos originais autográficos, nada restou. O que temos são cópias de cópias de cópias, e cópias que divergem entre si, umas em detalhes inofensivos, outras em variantes que mudam o sentido de um versículo inteiro. Sobre esse chão movediço se debruça o exegeta. Escolhe um manuscrito, arrisca uma tradução, pesa cada palavra, investiga o gênero, persegue as tradições orais e escritas, pergunta pelo Sitz im Leben, o lugar na vida de onde o texto brotou. Pergunta, inclusive, por seus autores e autoras, quase sempre anônimos. Trabalho de paciência e de luto.
Um texto assim, feito de muitos textos que o antecederam e sobre os quais sabemos tão pouco, só se sustenta sob a lógica da inspiração. E inspiração nada tem de mágica. A palavra guarda no ventre o spirare latino, o sopro, o fôlego, o mesmo ruach que paira sobre as águas no primeiro capítulo do Gênesis. Inspirar é deixar entrar ar. É respirar junto. Inspiração é capacidade de conviver com a contradição, de habitar a dúvida sem morrer dela. É pluralidade, liberdade e criatividade respirando no mesmo peito.
Há, grosso modo, dois modos de ler. A leitura sincrônica toma o texto tal como chegou às nossas mãos, observa-o como inteireza, escuta a harmonia de suas imagens, lê a Bíblia como a grande literatura que ela é. A leitura diacrônica desce ao subsolo: investiga a longa formação do texto, sua trajetória oral e escrita, as costuras do redator que juntou fontes diversas numa só obra. Sincronia e diacronia não se excluem; completam-se. Umberto Eco chamaria a isso obra aberta, o texto que só se acaba na participação ativa de quem lê, ressignificando-se a cada leitor.
O perigo mora alhures. Chama-se anacronismo. Quando arrancamos o texto de seu tempo para que ele diga o que já decidimos ouvir, a leitura vira tortura, e o texto, sob suplício, confessa qualquer coisa. Aí já era, e salve-se quem puder.
Por baixo de toda leitura respira uma fé. E aqui a Bíblia toca a religião. Não tenho fé porque leio as Escrituras; leio-as como sagradas porque já creio. A fé é o a priori, o antes de tudo. Religião, de resto, é palavra de etimologia disputada, e por isso mesmo reveladora: os antigos hesitavam entre religare, religar, atar de novo o humano ao seu fundamento, e relegere, reler, retomar com cuidado aquilo que merece atenção. Religar e reler.
As religiões nasceram desse duplo gesto, como expressões recortadas da mesma busca humana por sentido. São variações sobre um só tema, formas distintas de significar a vida, o trabalho, a morte, o bem e o mal que assediam a todos. A religião do outro não diminui a minha; mostra-me o que a minha, sozinha, não alcança. O drama começa quando se privatiza o transcendente, quando se confunde a parte com o todo, e a fé, que deveria abrir janelas, ergue muralhas.
E a teologia? Há quem a confunda com religião, há quem a tome por simples ciência sobre o religioso. É um pouco disso, e é mais. Uma definição já clássica diz que teologia é atualização da revelação. Parte-se de palavras e gestos tidos por inspirados, presos a um tempo e a uma cultura, que pedem tradução para o humano de hoje. Sem fé não há teologia, porque há, no princípio, fé numa revelação: os judeus na Torá, os cristãos na Bíblia, os muçulmanos no Alcorão. Mas há, sob essa, uma segunda fé, mais silenciosa: a fé na própria realidade, a vida olhada sob a perspectiva de sua sacralidade. Fé na palavra e fé na vida.
Por isso a teologia é uma espécie de apocalipse da atualidade, no sentido exato do grego apokalypsis, desvelamento. Revelação do agora. Esforço de diálogo com a filosofia, a sociologia, a literatura, para significar o tempo presente.
Costumo dizer que o olhar teológico é uma rede. Toda linguagem é uma rede que lançamos sobre o real para outorgar-lhe sentido. A da teologia, porém, é de outra trama: não trata disto ou daquilo, mas é aquilo a partir do qual alguém pensa sobre isto ou aquilo. Não uma rede a respeito, mas uma rede de onde se parte. Henri de Lubac, lendo os medievais, já sabia que sob o sentido literal pulsam sentidos que convidam o leitor a caminhar, pois a letra mata e o espírito vivifica. Paul Ricoeur diria que o símbolo dá o que pensar, que há no texto um excedente de sentido que nenhuma leitura esgota.
Teologia não é dogma. É dúvida e fé na mesma corda bamba, estendida sobre um abismo escuro e silencioso. Quem teologiza atravessa: não está na saída nem na chegada, mas no meio da travessia de que falava Guimarães Rosa.
Daí nasce a tarefa, quase missão. Renunciar aos holofotes e aos comércios da fé. Denunciar as injustiças e as máquinas que oprimem. Anunciar a esperança e a legitimidade de quem luta por justiça, por liberdade, pela vida. Karl Marx, que via na religião o suspiro da criatura oprimida e o ópio do povo, talvez não medisse quanta verdade incômoda morava naquele suspiro. Toda teologia é também um suspiro diante do real, olhar de indignação e de esperança no mesmo lance.
Leonardo Boff e Rubem Alves, cada um a seu modo, ensinaram a teologia brasileira a descer do céu metafísico e a dignificar o humano, a erguer altares à beira do abismo com poesia e música, sabendo que o abismo permanece escuro. A boa teologia, como a boa literatura, é necessariamente ambígua.
Religião, Bíblia e teologia respiram do mesmo fôlego. A religião religa e relê. A Bíblia, plural e aberta, oferece a palavra inquieta. A teologia atualiza esse sopro e o devolve à rua, à vida concreta, ao chão de onde nunca deveria ter saído. É a vida, sempre a vida, o critério maior para ler os textos e interpretar suas mensagens.
Não temos os originais, não temos certezas, não temos o porto. Temos a travessia, e nela o essencial — uma palavra que se renova a cada leitor, um sopro que insiste em soprar. A letra mata. O espírito, esse vento que ninguém sabe de onde vem nem para onde vai, vivifica!
Prof. Ricardo Lengruber




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