Eclesiastes: O Estranho na Casa de Deus
- Ricardo Lengruber

- 7 de dez. de 2025
- 17 min de leitura
CAPÍTULO 1: O CHOQUE DE REALIDADE
Você abre a Bíblia procurando um porto seguro. É o movimento natural de quem busca o sagrado: esperamos a fé inabalável de Abraão, a libertação épica do Êxodo ou os Salmos que, mesmo no desespero, terminam em louvor. Esperamos a ordem, a retribuição justa e a certeza de que há um piloto no comando.
Então, você tropeça em Eclesiastes.
É um choque térmico. A sensação é de entrar em uma catedral solene, elevar os olhos esperando vitrais luminosos, e dar de cara com um espelho quebrado refletindo apenas o vazio. Ou, numa imagem mais nossa, é como estar no meio de um culto fervoroso e alguém desligar o som bruscamente para perguntar: "Para que todo esse barulho? Amanhã, todos seremos esquecidos".
Este livro, designado no cânon hebraico pelo nome enigmático de Qohélet, é o estranho sentado no fundo da sinagoga. Enquanto o restante das Escrituras se esforça para construir a teologia da Aliança e da promessa, Qohélet olha para a realidade crua e diz: "Não é bem assim que a banda toca". Ele permanece, há mais de dois milênios, como o texto mais provocativo e contemporâneo da Bíblia, oscilando entre o fascínio filosófico e a perplexidade dogmática.
O Filósofo da Modernidade Líquida
Ler Eclesiastes hoje gera uma vertigem de reconhecimento. Se ignorarmos as ocasionais referências a sacrifícios no Templo, poderíamos jurar que estamos lendo um autor do século XXI. Em um cenário global marcado pela fluidez das certezas e por crises sistêmicas, a voz deste antigo sábio ressoa com uma pertinência desconcertante.
Qohélet é o patrono da nossa ansiedade. Ele dialoga perfeitamente com o que Zygmunt Bauman chamou de "modernidade líquida": um tempo onde nada é sólido, onde as instituições se desmancham e a busca por sentido se torna uma corrida exaustiva. Mas o "mundo líquido" de Qohélet era a Judeia do período Ptolomaico ou Persa Tardio (c. 300 a.C.), uma era de globalização forçada e monetização da economia.
Naquele tempo, o dinheiro (kesef) começava a se tornar a medida de todas as coisas, corroendo os antigos valores comunitários. Impérios marchavam sobre Jerusalém, trazendo seus deuses e suas burocracias. Qohélet viu a "labuta" humana — o que ele chama de 'amal, o esforço desgastante — ser engolida pela máquina econômica ou pelo acaso.
Nós, brasileiros, entendemos essa linguagem visceralmente. Conhecemos o 'amal que não paga as contas. Sentimos na pele a instabilidade de construir a vida sobre a areia movediça de crises econômicas sucessivas, onde o esforço de uma vida pode evaporar numa mudança de governo. A nossa literatura de cordel, como na obra da sergipana Amorosa ("Eclesiastes em Septilha"), captou essa essência: a sabedoria que nasce não nos palácios, mas na dureza do sertão, na resiliência de quem sabe que a vida é dura e o destino, incerto.
A Fumaça nos Olhos
Diante dessa realidade fraturada, Qohélet lança sua palavra-chave, o conceito que ecoará como um refrão mórbido: Hebel.
As traduções antigas nos prestaram um desserviço ao verter Hebel quase sempre como "vaidade". Isso nos faz pensar em orgulho ou futilidade moral. Mas a filologia moderna é clara: Hebel é, concretamente, "vapor", "sopro", "fumaça".
Tente agarrar a fumaça com as mãos. Ela é real, você a vê, mas é insubstancial; ela escapa entre os dedos. Hebel é o enigma, o absurdo. É ver o justo sofrer e o perverso prosperar, e não encontrar lógica nisso. Para Qohélet, a vida não é necessariamente "inútil", mas é incontrolável e efêmera. É a neblina que nos impede de ver o futuro ou o propósito final das nossas ações.
O Silêncio dos Traumas
O que torna esse livro ainda mais intrigante é o que ele não diz. Você notará que Qohélet nunca menciona o Êxodo, a Lei de Moisés ou a aliança com Abraão. A história da salvação de Israel simplesmente desapareceu das suas páginas.
Estudiosos recentes, como Jennie Barbour, sugerem que esse silêncio não é acidental; é o sintoma de um trauma coletivo. O livro é "assombrado" pelas catástrofes nacionais — o Exílio, a destruição, a dominação estrangeira. Quando a dor é grande demais e a história não faz sentido, as grandes narrativas colapsam. Qohélet escreve a partir dos escombros da teologia nacional, tentando encontrar fé quando a "história oficial" falhou.
Um Debate, Não um Dogma
Não espere coerência fácil. Qohélet se contradiz. Num versículo, ele elogia a sabedoria; no outro, diz que ela traz dor. Num momento, recomenda o prazer; no outro, louva o luto.
Michael V. Fox, uma das maiores autoridades no texto, argumenta que não devemos tentar "harmonizar" essas falas. Qohélet está engajado em uma "diatribe", um debate interno furioso. Ele usa a contradição como uma picareta para demolir certezas generalistas. Ele afirma uma verdade ("o sábio é melhor que o tolo") apenas para, logo em seguida, derrubá-la com uma observação empírica ("mas ambos morrem igual").
Ele não está confuso; ele é radicalmente honesto. Ele se recusa a vender ilusões.
Quem foi esse homem que ousou questionar os dogmas de Israel de dentro da própria Bíblia? Ele veste a máscara de Salomão nos primeiros capítulos, apenas para provar que nem mesmo o rei mais rico e sábio do mundo poderia escapar da fumaça do Hebel.
Prepare-se. Qohélet vai tentar roubar suas certezas. Mas, se você tiver coragem de atravessar a fumaça com ele, talvez encontre algo que a religiosidade de fachada nunca pôde oferecer: uma "Teologia da Alegria" que não nega a dor, mas floresce no meio dela. Uma fé que aprendeu a dançar na chuva, porque sabe que o sol é soberano e incontrolável.
Vamos entrar na casa desse estranho. Mas deixe suas ilusões na porta.
CAPÍTULO 2: O HOMEM POR TRÁS DA MÁSCARA
Se fôssemos filmar Eclesiastes, a primeira cena seria grandiosa. Um palácio reluzente, jardins suspensos, haréns, orquestras particulares e baús transbordando de ouro. A câmera focaria em um rei majestoso, sentado no trono de Jerusalém, contemplando sua obra com um olhar de tédio existencial. "Eu, Qohélet, fui rei em Jerusalém", diz o texto. A audiência imediatamente sussurra: "É Salomão!".
É o candidato perfeito, não é? O filho de Davi, o homem mais sábio e rico que já pisou na terra. Quem mais poderia escrever com tanta autoridade sobre ter tudo e não sentir nada? Durante séculos, essa foi a leitura padrão. Mas, à medida que avançamos na leitura, algo estranho acontece no set de filmagem.
A coroa começa a escorregar.
A Ficção Salomônica: Um Experimento Controlado

A crítica moderna nos convida a ler os dois primeiros capítulos de Eclesiastes não como uma autobiografia, mas como uma peça de teatro. O autor, um sábio anônimo vivendo séculos depois de Salomão, veste a "máscara" do grande rei. Por que ele faria isso? Não para enganar o leitor, mas para realizar o que poderíamos chamar de "experimento científico existencial".
Pense bem: se você ou eu dissermos que "dinheiro não traz felicidade", alguém pode retrucar: "Você diz isso porque é pobre". Mas se Salomão disser isso, o argumento muda de figura. O autor adota a persona real para eliminar todas as variáveis de escassez. Ele tem recursos ilimitados, sabedoria infinita e poder absoluto. Ele testa o prazer, a arquitetura monumental (os famosos "parques" do capítulo 2), o vinho e a filosofia.
O resultado do experimento é devastador. Mesmo no topo da pirâmide humana, o rei encontra apenas Hebel — fumaça. E é aqui que a mágica literária acontece: quando o experimento falha, a máscara cai.
A partir do final do capítulo 2, a pose real desaparece. O "rei" dá lugar a um observador melancólico que anda pelas ruas vendo a opressão. Em Eclesiastes 4:1, ele diz: "Vi as lágrimas dos oprimidos e não havia quem os consolasse; do lado dos opressores havia poder". Um rei absoluto não observa a opressão impotente; ele a corrige com um decreto. Qohélet, o verdadeiro autor, revela-se aqui: ele não é o soberano no trono, mas um sábio na multidão, tão vulnerável às engrenagens do sistema quanto nós.
CSI Jerusalém: As Pistas Linguísticas
Se a análise literária derruba a coroa, a análise linguística enterra o mito de vez. Ler Eclesiastes no hebraico original é como encontrar um personagem de um romance de José de Alencar dizendo que vai "postar uma selfie no Instagram". A linguagem simplesmente não bate com a época de Salomão (século X a.C.).
O hebraico de Qohélet está cheio de "estrangeirismos" que denunciam sua data tardia. É aqui que entra o trabalho de detetive filológico. O texto contém palavras que não existiam no vocabulário de Israel antigo, termos importados de impérios que só conquistariam a região séculos mais tarde.
O exemplo mais flagrante é a palavra pardes (em 2:5), traduzida como "parque" ou "pomar". Esta não é uma palavra hebraica original; é um empréstimo direto do persa antigo pairidaēza (que deu origem à nossa palavra "paraíso"). É uma palavra técnica para os jardins murados da elite persa. Outro termo, pitgam ("sentença" ou "edito" em 8:11), também vem do persa patigāma.
Essas palavras são como fósseis que datam a camada geológica do texto. Elas indicam que o livro foi escrito no período em que a Pérsia (e depois a Grécia) já havia dominado o Oriente Médio, inundando a língua local com seus termos administrativos e culturais. Estamos falando de um salto de quase 700 anos após Salomão.
O Admirável Mundo Novo (e Caro)
Então, onde e quando estamos? Bem-vindo a Jerusalém do século III a.C. (c. 300-250 a.C.).
Esqueça a capital isolada dos tempos bíblicos antigos. A Jerusalém de Qohélet é uma cidade cosmopolita, vibrante e perigosa, vivendo sob a sombra dos impérios sucessores de Alexandre, o Grande (provavelmente os Ptolomeus do Egito).
O cenário mudou drasticamente. A antiga economia de subsistência ("planto o que como") foi atropelada por uma economia agressiva de mercado e dinheiro vivo. Não é à toa que Qohélet é obcecado por termos comerciais. A palavra yitron, que traduzimos como "proveito" ou "ganho", é um termo de contabilidade: significa "lucro líquido", "saldo remanescente".
É um mundo de "modernidade líquida" avant la lettre. O dinheiro (kesef) tornou-se a resposta para tudo, mas também a fonte de uma ansiedade corrosiva. A identidade judaica tradicional estava em crise, espremida entre a fé dos pais e a sedutora filosofia grega que chegava com os ginásios e os mercados internacionais. Ideias estoicas e epicuristas sobre o destino e o prazer pairavam no ar como o cheiro de especiarias novas.
Conclusão: Um Sábio na Tempestade
Ao tirar a máscara de Salomão, Qohélet se torna muito mais interessante. Ele deixa de ser um monarca entediado brincando de filosofia e se torna um intelectual corajoso, um "expatriado" dentro da própria terra, tentando entender como ter fé em Yahweh num mundo globalizado onde o "lucro" é o novo deus e a justiça parece ter tirado férias.
Ele é um homem enfrentando o choque do novo, a monetização da vida e o silêncio de Deus. Ele soa familiar? Deveria. Qohélet não é um rei distante num pedestal de ouro; ele é o nosso contemporâneo mais antigo, sentado num café em Jerusalém, vendo o mundo mudar rápido demais e anotando em seu rolo: "Tudo isso é fumaça... mas vamos conversar sobre o que fazer com ela".
CAPÍTULO 3: TUDO É HEBEL? A GRAMÁTICA DA INCERTEZA
Se você cresceu ouvindo a Bíblia, a frase ecoa na sua memória com a solenidade de um sino fúnebre: "Vaidade de vaidades, tudo é vaidade".
O problema é que, para o ouvido moderno, "vaidade" evoca uma imagem muito específica: alguém apaixonado pelo próprio reflexo, preocupado com a aparência, o pecado de Narciso. Mas quando Qohélet escreve sua famosa abertura (Habel havalim, hakol havel), ele não está falando sobre gastar muito tempo no espelho ou postar fotos editadas nas redes sociais. Ele está falando sobre a textura da própria realidade.
Precisamos de uma cirurgia semântica aqui. Esqueça a "vaidade" moralista. A palavra hebraica Hebel significa, literalmente, "vapor", "sopro" ou "fumaça".
A Vida como Fumaça
Imagine que você está diante de uma fogueira numa noite fria. Você vê a fumaça subir. Ela é real, tem forma, ocupa espaço. Mas tente agarrá-la com a mão fechada. Quando você abre os dedos, não há nada lá.
Isso é Hebel. A vida não é uma ilusão inexistente, mas é insubstancial e efêmera. Você tenta segurar o tempo, a saúde, os filhos ou o sucesso, mas eles escorrem por entre os dedos. Mais do que isso, Hebel carrega a nuance de enigma ou absurdo. É a palavra que Qohélet usa quando a conta não fecha: quando ele vê o justo sofrendo e o canalha vivendo dias felizes.
Traduzir Hebel como "fumaça" ou "absurdo" nos liberta da culpa moral e nos coloca diante da vertigem existencial. Não é que a vida seja "inútil" ou "sem sentido" (uma leitura niilista moderna equivocada), mas ela é incontrolável. Nós não seguramos o vento.
A Contabilidade da Ansiedade: 'Amal e Yitron
Se Hebel é a atmosfera que respiramos, 'Amal é o que fazemos para tentar dissipá-la.
Qohélet usa a palavra 'Amal de uma forma dolorosamente ambígua. Ela significa tanto o processo ("trabalho árduo", "labuta") quanto o produto desse trabalho ("riqueza acumulada"). É o suor do rosto e o saldo no banco.
A ironia trágica que o autor aponta é que nós nos desgastamos ('amal-verbo) para acumular coisas ('amal-substantivo), apenas para descobrir que teremos de deixar tudo para alguém que não suou por aquilo. É o "corre" brasileiro elevado à categoria filosófica.
Aqui entra a pergunta de um milhão de dólares de Qohélet: "Que Yitron tem o homem de todo o seu trabalho?" (1:3).
Yitron é um termo comercial, técnico, que praticamente só existe neste livro. Significa "lucro líquido", "saldo remanescente", "vantagem". Qohélet está olhando para a vida como um contador olha para um balanço patrimonial. Ele pergunta: depois de todo o estresse, de todo o burnout, de todas as noites mal dormidas, o que realmente sobra na linha final?
A resposta implícita é assustadora: nada. A morte zera o caixa. Ninguém leva o yitron para o túmulo. Em uma época de monetização da vida como a dele — e a nossa —, onde a produtividade é um ídolo, essa constatação é um soco no estômago.
O Sertão Entende Qohélet
Talvez o ambiente acadêmico europeu ou os púlpitos de mármore tenham dificuldade em captar a crueza dessa mensagem. Mas o sertanejo brasileiro entende.
A sensibilidade do Nordeste, forjada na luta contra a seca e na transitoriedade da chuva, é o solo perfeito para a semente de Eclesiastes. Não é coincidência que a obra tenha encontrado uma tradução vibrante na literatura de cordel. A artista sergipana Amorosa (Antônia Amorosa), em seu livro "Eclesiastes em Septilha", transpõe essa sabedoria antiga para a métrica e a rima do nosso povo.
Quando o cordelista canta a fatalidade, ele não está sendo pessimista; está sendo realista. A sabedoria popular do sertão sabe que a vida é Hebel — é como a nuvem de chuva que promete e passa sem cair. Essa "conexão brasileira" nos mostra que a resiliência não vem de negar o sofrimento, mas de encará-lo com a sabedoria de quem sabe que "tudo passa". O trabalhador brasileiro, lidando com a precarização e a desigualdade, compreende visceralmente o conceito de "trabalho sem proveito" garantido.
Debaixo do Sol: O Limite do Olhar
Por fim, precisamos entender onde Qohélet está pisando. Ele repete constantemente a expressão "debaixo do sol" (tahat hashemesh).
Isso não é apenas poesia; é método. "Debaixo do sol" delimita o campo de visão. É a esfera horizontal, histórica, humana. Qohélet se recusa a resolver os problemas da vida apelando para milagres místicos ou escapismos celestiais.
Ele está nos dizendo: "Olhando apenas para a engrenagem do mundo, sem filtros religiosos cor-de-rosa, é isso que temos: fumaça, labuta e morte". Isso não é ateísmo. É uma honestidade brutal que limpa o terreno para que, mais tarde, uma fé madura possa nascer — não baseada em trocas comerciais com Deus, mas na aceitação do mistério.
A vida é fumaça. Mas, como veremos, até na fumaça é possível respirar.
CAPÍTULO 4: LÁGRIMAS E VINHO
Até agora, caminhamos com Qohélet pelos corredores do poder e da filosofia. Vimos a máscara de Salomão cair e a fumaça (Hebel) envolver as grandes ambições humanas. Mas é no capítulo 4 que o tom muda drasticamente. O sábio sai do palácio e desce às ruas, onde a vida sangra.
Se você achava que Eclesiastes era apenas um devaneio filosófico de um intelectual deprimido, prepare-se. Qohélet está prestes a agir como um repórter de guerra.
O Trauma da Opressão: "Não Havia Consolador"
"Voltei-me e vi todas as opressões que se fazem debaixo do sol", escreve ele (4:1). O verbo hebraico para "vi" aqui implica um olhar demorado, analítico. E o que ele vê não é bonito.
"Eis as lágrimas dos oprimidos, e não havia quem os consolasse; do lado dos opressores havia poder, mas não havia quem os consolasse."
Essa repetição obsessiva — "não havia quem os consolasse" (ein lahem menahem) — é a chave. Qohélet está diagnosticando uma sociedade colapsada. Segundo os Estudos de Trauma aplicados à Bíblia, esse tipo de linguagem reflete uma comunidade onde as redes de apoio social e religioso foram rompidas. Não é apenas que as pessoas sofrem; é que elas sofrem sozinhas.
Qohélet observa a estrutura do mal: o poder está firmemente "do lado" (literalmente, "na mão") dos opressores. Ele não oferece uma solução política ingênua. Ele não promete que uma revolução está chegando amanhã. Ele faz algo talvez mais difícil: ele se recusa a desviar o olhar. Ele valida a dor da vítima. Numa era de impérios esmagadores (Persa ou Ptolomaico), onde a vida humana era triturada pela máquina econômica, Qohélet atua como a testemunha da dor que a história oficial tenta apagar.
A conclusão dele é brutal: diante de tanto sofrimento estrutural, talvez os mortos sejam mais felizes que os vivos (4:2). É o grito de quem viu demais.
A Virada Inesperada: A Taverna no Fim do Mundo
E então, quando estamos prestes a sucumbir ao desespero, Qohélet faz uma curva acentuada. Ele não nos convida ao suicídio, nem à revolução armada, nem ao ascetismo religioso. Ele nos convida para jantar.
No capítulo 9, ele lança o imperativo que define sua ética:
"Vai, come com alegria o teu pão e bebe o teu vinho com coração contente... Sejam sempre alvas as tuas roupas, e nunca falte o óleo sobre a tua cabeça. Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida de vaidade" (9:7-9).
Isso soa contraditório? Como podemos falar de "roupas brancas" (símbolo de festa) logo depois de falar das lágrimas dos oprimidos? Será que Qohélet se tornou um alienado, sugerindo que "comamos e bebamos porque amanhã morreremos"?
Não. A filologia e a história literária nos mostram que isso é algo muito mais profundo.
Este conselho não é original de Qohélet. Ele está citando, quase palavra por palavra, uma sabedoria ancestral da Mesopotâmia. Na Epopeia de Gilgamesh (tábua de Sippar), a taverneira Siduri dá um conselho idêntico ao herói Gilgamesh, que estava desesperado buscando a imortalidade. Ela diz: "Gilgamesh, enche a tua barriga... que tuas roupas sejam limpas... alegra-te com a criança que segura tua mão".
Ao evocar Siduri, Qohélet está dizendo: "Parem de tentar ser deuses. Parem de tentar resolver o enigma do universo ou controlar a história. Vocês não vão conseguir". A resposta à morte e à opressão não é a onipotência, é a humanidade compartilhada.
A Teologia da Alegria como Resistência
Esta é a "Teologia da Alegria". Não é hedonismo de quem foge da realidade. É um ato de resistência.
Num mundo governado por tiranos e regido pelo acaso, onde o amanhã é incerto (Hebel), a única coisa que realmente possuímos é o presente. Comer o pão com gosto, beber o vinho com gratidão e amar a companheira ou companheiro não é "perda de tempo"; é reivindicar a nossa humanidade na cara do caos.
É o Carpe Diem redimido. Não é o "aproveite o dia" do marketing moderno que quer te vender experiências caras. É a disciplina espiritual de encontrar o sagrado no ordinário. Qohélet afirma que a capacidade de desfrutar essas pequenas coisas é, em si mesma, um "dom de Deus".
Nossa conexão brasileira brilha aqui novamente. É a sabedoria do sambista que, mesmo vivendo na favela sob a mira da violência (as "lágrimas dos oprimidos"), ainda se reúne no fim de semana para o churrasco e o pagode. Isso não é alienação; é a recusa em deixar que a opressão roube a última fronteira da dignidade: a alegria de estar vivo, aqui e agora.
Conclusão: Entre a Lágrima e a Taça
Eclesiastes nos deixa equilibrados nessa corda bamba. De um lado, a honestidade brutal de reconhecer as lágrimas e a injustiça do mundo. Do outro, a coragem teimosa de vestir roupas brancas e abrir uma garrafa de vinho.
A fé de Qohélet não resolve a tensão. Ela vive nela. Ela chora com os oprimidos, mas se recusa a dar aos opressores a vitória final de amargar nossa alma. A vida é Hebel — é fumaça — mas, como o sábio nos ensina, até a fumaça pode ter cheiro de pão fresco.
CAPÍTULO FINAL: O FIM DO DISCURSO E O CÂNTARO QUEBRADO
Chegamos ao fim da estrada. O sábio que nos guiou pelos palácios da riqueza, pelos tribunais da injustiça e pelas tavernas da alegria agora para diante da porta derradeira. O tom muda novamente. A prosa filosófica cede lugar a uma das poesias mais belas e terríveis da literatura mundial: a alegoria do envelhecimento e da morte em Eclesiastes 12.
A Casa em Ruínas
"Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias", adverte Qohélet (12:1). O que se segue é uma descrição somática e pungente do corpo humano se desfazendo.
Ele descreve o corpo como uma casa nobre que entra em decadência. Os "guardas da casa" (os braços) tremem; os "homens fortes" (as pernas) se curvam; as "moedoras" (os dentes) cessam porque são poucas; e aqueles que "olham pelas janelas" (os olhos) escurecem. A porta da rua se fecha (a audição falha), e o som do pássaro — o despertar da manhã — torna-se um fardo para quem tem insônia.
É uma leitura poética da biologia do fim. Qohélet não doura a pílula. Ele nos força a olhar para a fragilidade da nossa tenda terrena. Ele fala do "cântaro que se quebra junto à fonte" e da "roda que se despedaça no poço" (12:6). A imagem é de uma irreversibilidade brutal. A água da vida para de fluir. O pó volta à terra como era, e o espírito volta a Deus que o deu (12:7).
Para o leitor moderno, obcecado pela juventude eterna, botox e biohacking, ler isso é um ato de rebeldia. É aceitar que a fragilidade não é um erro de sistema, mas parte do design de uma existência "debaixo do sol".
A Voz do Narrador: O Editor Entra em Cena
E então, abruptamente, a voz de Qohélet silencia.
A partir do versículo 9 do capítulo 12, quem fala não é mais o nosso cético atormentado. É o "Narrador" ou "Editor". A crítica acadêmica, liderada por nomes como Michael V. Fox e Tremper Longman III, identifica aqui uma estrutura crucial: a "Narrativa em Moldura". O livro não é a voz direta de Deus, mas a apresentação do diário de Qohélet por um narrador sábio, que agora toma a palavra para avaliar tudo o que lemos.
O Narrador não censura Qohélet. Pelo contrário, ele diz que o sábio procurou "palavras agradáveis" e escreveu com retidão "palavras de verdade" (12:10). Mas ele oferece um aviso pedagógico: "As palavras dos sábios são como aguilhões" (12:11). Elas machucam. Elas servem para picar o gado e fazê-lo andar.
O Narrador trata Qohélet como um "estudo de caso". Ele nos permitiu ouvir o ceticismo radical, a dúvida corrosiva e a honestidade brutal, porque uma fé que não passa pelo fogo da dúvida é ingênua. Mas agora, ele precisa nos dar um chão firme onde pisar.
O Resumo de Tudo: O Temor num Mundo de Fumaça
"De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem" (12:13).
Pode parecer um anticlímax. Depois de tanta filosofia complexa, voltamos ao básico da Escola Dominical?
Não se engane. Esse "teme a Deus" não é o mesmo do início da jornada. Agora, é um temor pós-crítico. É a fé de quem olhou para o abismo do Hebel (o absurdo, a fumaça) e não piscou. O Narrador não está cancelando as perguntas de Qohélet, mas as enquadrando.
O "Temor de Deus" aqui não é pavor supersticioso. É o reconhecimento da nossa finitude diante do Deus Elohim — o Criador soberano, distante e inescrutável. É saber que "Deus está no céu e tu na terra" (5:2). É abandonar a arrogância de querer entender toda a obra de Deus e aceitar viver com o mistério.
Essa conclusão reorienta a vida sem negar o absurdo. Ela nos diz que, mesmo que a justiça terrena falhe (e ela falha), e mesmo que a riqueza seja fumaça (e ela é), existe uma Referência Última que dá peso moral às nossas escolhas.
Pastoral para o Século XXI: Dançando na Neblina
Como, então, fechamos este livro e encaramos a nossa segunda-feira?
Qohélet nos oferece uma espiritualidade madura para a modernidade líquida. Ele nos vacina contra dois vírus mortais: o desespero niilista (achar que nada importa) e a alienação religiosa (achar que, se tivermos fé, tudo dará certo e seremos ricos).
A proposta final é uma vida de realismo alegre.
Aceite o Hebel: A vida é incontrolável. Pare de tentar segurar a fumaça. Relaxe o punho cerrado da ansiedade.
Pratique a Alegria: Coma seu pão com gosto. Beba seu vinho (ou seu café). Ame quem está ao seu lado. Isso não é distração; é liturgia. É a "espiritualidade da criação".
Mantenha o Temor: Viva com integridade ética, não porque isso garante sucesso financeiro (não garante), mas porque você vive diante dos olhos de Deus.
Nós, brasileiros, com nossa "saudade" e nossa capacidade de reconstruir sobre escombros, temos uma vantagem hermenêutica aqui. Sabemos que o cântaro vai se quebrar um dia. Mas, enquanto ele não quebra, nós o enchemos de água fresca e oferecemos a quem tem sede.
O livro termina, mas o enigma permanece. E talvez seja esse o ponto. Deus não nos deu Eclesiastes para resolvermos a vida, mas para vivermos a vida — com todas as suas lágrimas, risos e mistérios — diante Dele.
O discurso acabou. Agora, vá viver.




Comentários