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Corpo de delito

2 de set.
4 min de leitura


Vai, come o teu pão com alegria.

(Qohélet 9,7)


Há trinta e cinco anos carrego um corpo que chega antes de mim. Entro numa sala e ele já foi visto, medido, julgado. Quando abro a boca, o veredicto está pronto. Aprendi cedo que, para o obeso, a primeira impressão não é a que fica. É a única.


Comecei na adolescência, idade em que o corpo é a única biografia que se tem. Desde então, fiz o que a medicina mandou e o que a moda sugeriu. Duas cirurgias bariátricas. Uma lipoaspiração. Uma abdominoplastia. A vesícula, que se foi pelo caminho. Remédios de balcão e de tarja. Injeções. Reeducação alimentar, dieta restritiva, academia, nutricionista, endocrinologista, psicólogo. Tudo. E, depois de tudo, o reganho. O peso volta como quem nunca foi embora. A ciência tem nomes para isso: resistência à insulina, síndrome metabólica. Chama-se doença. O senso comum tem outro nome: “falta de vergonha na cara”.


A palavra não ajuda. Obesus, em latim, é particípio de obedere, comer até o fim, devorar. O obeso seria, portanto, aquele que comeu. A língua decidiu a culpa antes do julgamento. Sou teólogo e advogado (ofícios idênticos de tempos distintos) e conheço o mecanismo: a linguagem que nomeia já condena. Mas a experiência ensina o contrário da etimologia. A palavra diz que o obeso é o que comeu — a vida mostra que ele é aquele que foi comido. Comido pelo olhar, pelas piadas, pelos provadores de loja, pelas cadeiras com braço, pelas catracas, pelas fotos de grupo em que se procura, por instinto, a última fila.


As roupas, por exemplo. Quem veste manequim 42 não sabe o que é entrar numa loja como quem entra num tribunal. O vendedor percorre as araras com os olhos e já sabe que não tem. Diz “não temos o seu número” com uma delicadeza que dói mais do que a grosseria. O gordo não escolhe roupa; aceita o que a roupa escolhe dele. A camisa vem sempre um pouco mais comprida, a calça um pouco mais larga na perna, tudo desenhado para esconder, nunca para vestir. Os aviões têm cintos que não fecham, os restaurantes têm cadeiras que rangem, os parques têm brinquedos com placa de limite. Há um mundo inteiro medido para outro corpo, e o meu paga a diferença todos os dias.


A academia é o palco mais cruel dessa pedagogia. Fui muitas vezes, com a boa vontade dos convertidos. Ali aprendi que o exercício, para o obeso, é antes de tudo mimético. Copiam-se os gestos dos corpos que dão certo, os movimentos que nos outros parecem naturais e em nós parecem paródia. O espelho, que para os magros é aliado, para nós é delator. Girard diria que o desejo é sempre desejo do desejo do outro. Na academia, deseja-se o corpo do outro pela mediação do corpo do outro, e o próprio fica ali, na esteira, cumprindo pena.


Vêm então as paranoias. O obeso desenvolve uma vigilância que não desliga. Sabe quantas calorias há no pão, na fruta, no azeite, no ar. Sabe que ninguém acredita quando diz que comeu pouco. Sabe que, se pedir sobremesa, haverá um olhar; se recusar, haverá outro, o de quem diz “depois volta tudo”. Toda refeição é uma audiência pública. A própria palavra dieta, que os gregos usavam para dizer modo de vida, díaita, virou entre nós lista de proibições. Escrevi certa vez, sobre a opressão do sucesso, que se confunde utopia com paranoia. Com o corpo é igual: o ideal que deveria inspirar passou a vigiar. Rubem Alves falava do olho sem pálpebras, o juiz interno que nunca dorme. O obeso conhece esse olho de perto.


E há o prazer. Não se fala disso, mas comer é bom. Muito bom. Foi Deus quem inventou o sabor; podia ter feito a nutrição sem gosto, como quem abastece um carro. Não fez. Pôs doçura na fruta e gordura na castanha, e chamou tudo de bom. O problema é que herdamos, junto com o paladar, uma teologia da retribuição que transformou o prazer em prova de acusação. Perguntaram a Jesus quem havia pecado para que aquele homem nascesse cego. Perguntam ainda hoje, com outras palavras, quem pecou para que este homem seja gordo. A resposta continua a mesma, e continua sendo ignorada: ninguém. Há doença, há genética, há metabolismo, há trinta e cinco anos de dietas que ensinaram o corpo a estocar. Não há crime. O que há é aquilo que a lei chamaria de corpo de delito sem delito algum: a prova material de uma culpa que não existe.


Agora chegaram as canetinhas. Injeta-se uma molécula que engana a fome e a promessa é que, com ela, tudo o mais se trate: a pressão, o açúcar, o sono, o joelho, o ânimo. Não sou ingênuo. Já vi promessas. Mas também não sou tolo a ponto de recusar uma ferramenta por orgulho de quem já tentou todas as outras. Uso, acompanho, desconfio e espero. Pode haver nessa esperança alguma ingenuidade. Mas o fato é que, pela primeira vez em muito tempo, o tratamento parece se dirigir à doença, e não ao caráter.


Escrevo isto sem pedir pena e sem oferecer lição. Escrevo porque o silêncio também engorda. Trinta e cinco anos me ensinaram que o obeso não precisa de mais uma dieta; precisa de uma mesa. Mesa em que caiba a cadeira, em que caiba o prato e em que caiba a pessoa, sem que a comida seja julgamento e o corpo seja réu. Qohélet, que de tudo desconfiou, deixou uma única ordem que vale a pena obedecer: vai, come o teu pão com alegria. Não disse com culpa. Não disse depois de emagrecer.


O corpo que carrego não é prova de nada. E de tudo, ao mesmo tempo. É apenas quem eu sou!



 
 
 

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