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Carta aos amigos pais

9 de ago.
3 min de leitura

Meus caros amigos, pais como eu.


Fomos criados por um punhado de frases curtas. Homem não chora. Isso é coisa de menina. Engole o choro e reage. Ninguém perguntou se as queríamos; vieram no enxoval, com nosso nome e sobrenome. Durante muito tempo, chamamos essa herança de caráter. Era, em boa parte, medo bem treinado.


O nome técnico dessa pedagogia é conhecido. Machismo, misoginia, sexismo: três palavras para o mesmo hábito de rebaixar. Está no riso que diminui, na interrupção que silencia, no ciúme que vigia, no grito que encerra a conversa. Chico Buarque cantou as suas “Mulheres de Atenas”; demoramos a perceber que a canção fala de verdade dos maridos. Violência não é só a que sangra. Há uma, miúda e cotidiana, que apenas gasta, e gasta, até apagar alguém.


Ser homem, hoje, exige uma coragem que nossos avós não conheceram. E coragem vem de cor, coração no latim. O valente do nosso tempo não é o que endurece; é o que se dispõe a desaprender. Que força é essa, afinal, que precisa humilhar para se sentir forte?


E há a palavra provedor, título que carregamos como fardo. Prover vem de providere: ver antes, olhar por. Provedor não é somente quem paga as contas; é quem enxerga. Ver o cansaço da companheira antes da queixa. Ver a pergunta do filho antes do silêncio. Ver a filha inteira, e não um enfeite a proteger. Prover pão continua necessário; prover presença tornou-se urgente.


A Escritura guarda um pai assim. Na parábola, o velho corre ao avistar o filho que volta, e correr, naquele mundo, era indigno de um patriarca. Ele corre, abraça, beija, manda fazer festa; nenhuma palavra sobre a honra ferida, só colo. Drummond viu, no meio da rua, uma flor feia furar o asfalto. Junto as duas cenas e entendo: ternura é força que rompe crosta.


Nossos filhos e nossas filhas não escutam os nossos discursos; eles percebem os nossos gestos. Aprendem masculinidade na pia da cozinha, no trânsito, na derrota do time, no modo como tratamos quem nos serve o café.


Herdamos punhos; podemos legar mãos.

Que a velha profecia do Isaías valha primeiro dentro de casa: converter espadas e lanças em arados e enxadas. Tenho tentado aprender isso: transformar armas que matam em ferramentas que dão vida.


Sigamos, amigos, plantando um tempo menos armado e mais amado!


Feliz Dia pra vocês!




Aos meus filhos ... Miguel e Augusto!


Dois nomes


Eis que os filhos são herança do Senhor.

Salmo 127,3


Meus filhos cresceram dentro de uma escola. O pátio era o quintal; os corredores, a extensão da casa. Vi os dois atravessarem aquele chão em todos os números de sapato, do primeiro passo à formatura. Um dia, os sapatos deles alcançaram os meus. Aprendi ali o que dicionário nenhum registra: paternidade é a arte de ser ultrapassado com alegria.


Machado de Assis fechou as Memórias póstumas de Brás Cubas com uma frase de gelo: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” Respeito a sentença; recuso a contabilidade. Tive filhos, e o que se transmitiu entre nós correu em sentido inverso. Miguel e Augusto me legaram, de filhos a pai, uma herança que não constava de testamento algum: a correção diária da minha vaidade, o alargamento da minha esperança, a prova de que a vida ainda sabe o que faz.


Os nomes que lhes dei sabiam mais do que eu. Miguel, no hebraico, é uma pergunta: quem é como Deus? Augusto, no latim, descende de augere, o verbo que faz crescer. Sem perceber, batizei em casa uma interrogação e um aumento. Um me lembra, todos os dias, de que não sou Deus; o outro, de que ainda posso crescer. Dei-lhes os nomes; eles me devolveram o sentido.


Gibran comparou os pais a arcos e os filhos a flechas vivas; o salmista, séculos antes, já vira flechas na mão do guerreiro. O arco não decide o voo — apenas se curva, se tensiona e solta. Curvei-me. E vi cada flecha ganhar o próprio céu, numa trajetória que não desenhei e que, por não ser minha, me enche de espanto.


Agradecer é reconhecer a graça, aquilo que se recebe sem mérito e sem preço. Filhos não se conquistam; recebem-se. Este texto não é elogio nem balanço: é eukharistía, no sentido primeiro do grego, ação de graças.


Miguel, Augusto: obrigado por existirem. Obrigado por serem como são, com as arestas e as luzes que nenhum projeto de pai saberia desenhar. Um pai, no fim, não deseja mais do que isto: vê-los inteiros, vê-los sendo. Vocês não são a minha obra; vocês são a minha graça!


Papai



 
 
 

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