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Carta ao meu avô

7 de ago.
3 min de leitura



Meu Deus, muito obrigado pela vida que eu tenho!

Beethoven Wermelinger Lengruber


Querido vovô,


Nunca lhe escrevi uma carta. Escrevi sobre o senhor: no domingo da despedida, no aniversário que não houve, um ano depois da partida. Escrevi cartas aos meus filhos, à minha mãe, ao meu irmão, ao meu afilhado, a muita gente. Ao senhor, nunca. Talvez porque carta se escreve para quem está longe, e o senhor nunca esteve.


Descobri, esses dias, uma frase que precisava lhe contar:


a saudade é o azar de quem teve muita sorte.

Gostei dela porque me explica. Faz quase catorze anos que o senhor se foi e a falta não aprendeu a diminuir. Se dói assim, é porque a sorte foi grande. Tive trinta e sete anos de um canto de cama sempre disponível, de um chocolate guardado no bolso, de uma mão forte abrindo covas para as sementes que eu deixava cair. Penso até hoje nos ciprestes do Macaco e na sombra que fazem para quem chega.


Aprendi a ler debaixo dos seus olhos. A professora ensinava que a casa do Davi era bonita; o senhor me punha a copiar o Hino Nacional. A professora ensinava a tabuada do dois; o senhor varava a madrugada contando comigo até cinco mil. Depois vieram a clarineta, a semibreve e a afinação, de que o senhor reclamava antes do professor. Nunca me cobrou nada além do que eu podia dar. Só me estimulou.


Há herança maior?

Preciso lhe dar notícias. Os meninos que dormiram no seu colo cresceram; estão de pé sobre as próprias pernas, caminhando para escolhas que já não me pertencem, como deve ser. O senhor, que deixou a fazenda de Duas Barras para tentar a vida em Nova Friburgo, tem agora um bisneto formado em Oxford. Não sei medir essa distância; sei que ela começou nas suas mãos.


E tem retreta na terra, vovô. A escola da sua filha mantém hoje três bandas. A principal, a dos sopros, com seus trompetes, trombones e bombardinos, recebeu no ano passado um nome: Banda Beethoven. Dirão que homenageia o compositor alemão. Nós sabemos a verdade. São crianças de Nova Friburgo desfilando sob o seu nome, e quando um piston acerta a afinação, desconfio que o senhor anda por perto.


Guardei a notícia difícil para o fim. Em junho, devolvi minhas credenciais de pastor. Lembro do seu sorriso largo, “meu filho, quer dizer, pastor...!”, e me pergunto o que o senhor diria agora. Acho que sei. O senhor não me cobraria nada; nunca cobrou. Quando a música ficou para trás, o senhor não reclamou: foi à igreja comigo, e cantamos, oramos e lemos a Bíblia juntos. E é isso: a Bíblia não ficou para trás. Devolvi um documento — não devolvi o amor pela Bíblia e sua potência. Aprendi com o senhor que se pode perder o ofício sem perder a gratidão. O senhor foi furtado do piston aos cinquenta e um anos e ainda orava, de uma cama, agradecendo a vida que tinha. Se o senhor pôde, eu posso.


Os filólogos ensinam que saudade nasceu de solidão; contam também que a palavra, pelo caminho, se deixou contaminar por saúde e por saudar. Acho que ela, a palavra, sabia o que fazia. Toda saudade verdadeira acaba virando saudação. Esta carta é a minha.


Por isso termino como tantas noites no sobrado, chegando devagar ao seu quarto:


vovô, é Kiko. Como o senhor está?

Conheço a resposta; o senhor nunca variou. E se agora for a sua vez de perguntar por mim, depois de tudo, com os meninos crescidos, os livros nas estantes e a fé meio fora do lugar, tenho enfim coragem de responder com as suas palavras: tudo bem, graças a Deus.



Com toda gratidão e muita saudade,

o filho querido do pai,

Kiko



 
 
 

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