A CAMISA - Sobre um jogo que disse mais do que o placar
- Ricardo Lengruber

- 26 de jun.
- 3 min de leitura
“A pátria em chuteiras.”
Nelson Rodrigues
O Brasil ganhou. Três a zero da Escócia, ontem, em Miami, no terceiro jogo da fase de grupos da Copa. E ganhou jogando: um time entrosado, inteiro, que enfim se encontrou como equipe e parece, agora, competir de verdade. Houve até um quarto gol, de Vini Jr., anulado pelo juiz, e sobre o qual pairou a dúvida de praxe: foi ou não foi? Somos, no fim, um país que contesta até os próprios gols.
Mas não é do placar que quero falar. É do que estava em volta da bola. Porque há partidas em que o entorno diz mais do que o jogo.
Comece-se pela arquibancada. O estádio, na Flórida, amanheceu amarelo, quase noventa por cento de camisas da seleção. Bonito de ver. Não fosse um senão: boa parte daquela multidão dourada é gente de classe média alta, a única capaz de pagar ingressos cujos preços, há muito, se divorciaram do povo que inventou essa paixão. O futebol nasceu na várzea e foi exilado para o camarote. Quem fez do futebol o que ele é torceu de casa.
Depois, a camisa. Essa mesma camisa (a da CBF, convém lembrar, marca de uma empresa privada) foi, na última década, sequestrada. Virou fardamento de um grupo. Tornou-se símbolo de uma polarização que rachou famílias, amizades, igrejas, o país inteiro. O verde e o amarelo, aliás, nunca foram exatamente do povo: foram as cores do Império, foram as cores fardadas das nossas muitas militarizações; cores de cima, quase sempre distantes da paixão de baixo. E, no entanto, eis o paradoxo: é essa camisa ambígua que o Brasil parece estar, devagar, reavendo. Recolhendo do chão as próprias cores e vestindo-as, de novo, com algum orgulho.
Porque o futebol guarda essa mágica meio inexplicável. A CBF talvez seja uma das instituições mais corruptas que este país já produziu e convenhamos que o país produziu muitas. E, mesmo assim, a seleção une. Une o torcedor de carteirinha e o ranzinza que torce escondido, sozinho, de porta fechada, fingindo que não liga. A camisa divide; e a camisa junta. Tudo ao mesmo tempo.
E aí entra o capítulo mais saboroso de ontem. Enquanto o Brasil virava o jogo rumo a uma competitividade nova, o ninho que mais agitou a bandeira do patriotismo implodia em público. Durante a partida, exatamente durante, Michelle e Flávio Bolsonaro trocaram vídeos de crítica mútua, a família em ebulição em plena pré-campanha. Os que ergueram por anos o estandarte de Deus, pátria e família viram a família ruir no telão, ao vivo, justo na noite em que a pátria, em chuteiras, parecia se reencontrar. Não inventei a ironia. A vida é que a escreveu.
Some-se a isso o olhar de fora. O jogo foi nos Estados Unidos, país que mira a América Latina — e o Brasil em particular — com a sobrancelha erguida. Trump tem sinalizado preferências, namorado os Bolsonaro, anunciado que a eleição brasileira de 2026 lhe interessa de perto. Mesmo assim, diga-se, o presidente Lula soube impor, com altivez, o respeito que a diplomacia exige. O tabuleiro é grande, e a bola é apenas uma parte dele.
Não quero ser profeta. Não sei dos próximos jogos, não sei das urnas que virão, não sei se este time chega à taça. Ninguém sabe do dia de amanhã. Mas sei de uma coisa: o Brasil segue sendo este lugar rico, plural, criativo, dinâmico — e, sobretudo, um barril de contradições e de perguntas.
Ontem ganhamos de três. O resto continua em aberto.





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