Sobre beleza e enigma

 

Meditações sobre a Palavra

 

 

Palavra prima

Uma palavra só, a crua palavra

Que quer dizer

Tudo

Anterior ao entendimento, palavra

Palavra viva

Palavra com temperatura, palavra

Que se produz

Muda

Feita de luz mais que de vento, palavra

Palavra dócil

Palavra d'água pra qualquer moldura

Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa

Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha

Matéria, minha criatura, palavra

Que me conduz

Mudo

E que me escreve desatento, palavra

Talvez à noite

Quase-palavra que um de nós murmura

Que ela mistura as letras que eu invento

Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa

Não de fazer literatura, palavra

Mas de habitar

Fundo

O coração do pensamento, palavra. (Chico Buarque)

 

Toda palavra é profecia. O ato de escrever é uma arte!

Sim, trata-se de obra artística a literatura. Qualquer literatura. E isso em qualquer sentido que se entenda o termo.

Não são artistas aqueles que conseguem ludibriar seu público com palavras e gestos encantadores, inebriantes?

 

Não obstante a arte da ilusão, literatura é obra de arte por algumas outras razões. A primeira porque obra é algo realizado apenas por quem consegue transformar. Os artistas plásticos, escultores e arquitetos nos ensinam quão belo é projetar. Vislumbrar antes de existir a obra acabada. Ou melhor, ver antes da obra pronta, mas nunca acabada. A completar-se na visão dos outros; a plenificar-se no deleite do próximo.

Uma outra razão se deve ao fato de que a arte é algo estranho a esse mundo. Você já percebeu que os artistas estão sempre na contra-mão da história?

 

Há uma tela de Edward Munch chamada O Grito. Enquanto as superpotências do mundo afirmavam-se pela força, pelas armas e pelo ‘progresso’, o artista gritava pelos sons das cores e chocava os modernos tanques da Segunda Guerra e os poderosos aviões de combate. Interessante: os aviões caíram, os tanques enferrujaram, os soldados tornaram-se anônimos, mas Munch continua gritando.

 

Ludwig van Beethoven, quando se descobriu surdo, passou a compor como ninguém mais faria igual. Seu lamento, sua dor, suas paixões e sua bravura constroem verdadeiras casas para se morar. É como se pudesse voltar para aquele lugar de onde nunca deveríamos ter saído. Os sons de Beethoven são imagens pintadas na alma. Acho que foi por isso que a NASA, quando enviou uma sonda para o universo sideral, sem rumo e sem destino, levando consigo informações sobre essa pequena poeira celeste chamada Terra, escolheu a Nona Sinfonia para exemplificar o que chamamos de Música. Beethoven morreu sem ouvi-la, mas não sei se alguém conseguiria viver sem ouvi-la. Parece que ela sempre existiu.

 

Quando Michelangelo esculpiu o Moisés, ele fitou-o e disse-lhe: ‘Parla!’

 

O artista só consegue obrar o que tem vida. Não porque ele seja capaz de fazê-la. Mas porque é alguém que consegue mergulhá-la.

 

As palavras são mais do que meras portadoras de significado. Por meio delas, conseguimos tornar a aparente desorganização das coisas em algo minimamente compreensível e, por conseguinte, domável.

 

As palavras são rédeas pelas quais tratamos de dirigir a realidade das coisas. As palavras não são apenas portadoras de sentido, antes, e ao mesmo tempo, são capazes de outorgar sentido àquilo a que se referenciam.

 

Não é muito claro se a realidade precede à palavra e a ela confere o significado que esta pretende transmitir ou se a palavra antecede ao mundo e o torna inteligível; mas qualquer que seja o caso, o fato é que são as palavras que concedem a quem as pronuncia e a quem as ouve a capacidade de habitar um mundo e nele encontrar sentido.

 

Mesmo entre os grunhidos dos nossos ancestrais mais distantes, já estava presente essa busca por fazer a realidade circundante menos selvagem. As pinturas de Lascaux, entre tantos exemplos, revelam que desde há muito tempo a busca humana por significar tem por instrumento essencial a palavra, mesmo que sob códigos ainda muito incipientes.

 

Essa é razão pela qual a Bíblia, ao menos em dois momentos angulares, faz referência à palavra. A Palavra pela qual o mundo fora criado e a Palavra que se fez carne e armou uma tenda entre os homens. Na narrativa da Criação, em Gênesis 1, “disse Deus: haja luz; e houve luz!” No evangelho de João, capítulo 1, há uma longa reflexão sobre o fato de a mesma palavra criadora – logos – ser aquela que ilumina o mundo e mora entre os homens.

 

Acho que era por essa mesma razão que os hebreus, quando explicavam suas origens, diziam que Deus criou o mundo. O verbo criar (bara’), aqui, tem como sujeito o próprio Deus. Qualquer obra humana nada mais é que a participação na criação divina.

 

O profeta, por exemplo, é um artista por causa disto. Profetas, poetas são capazes de professarem-se ao mundo, revelarem-se. São capazes de deixar sua alma à flor da pele. Parafraseando o Chico, ser profeta é

 

não ter certeza e nunca ter, não ter conserto e nunca ter, não ter tamanho ... é viver nas idéias dos amantes, e cantar como os poetas mais delirantes e jurar como os profetas embriagados ... é viver nas fantasias dos infelizes ... é não ter vergonha, não ter juízo ... em todos os sentidos ... é o que não faz sentido.

 

Os profetas são cozinheiros para os paladares mais refinados. Cozinham o arroz e feijão do cotidiano com sabores de mel, ou, mui constantemente, de fel. Temperam com sorrisos de esperança molhados pelas lágrimas da indignação e assam suas palavras no forno do Tempo.

 

A máxima cristã, sem a qual o Cristianismo perde sua essência, é a de que Jesus é Deus e, como tal, criador salvador de tudo e todos. Mas é curioso que o mesmo Deus que cria pela Palavra, Ele próprio é a Palavra.

 

Isso sem fazer maiores alusões à Bíblia como Palavra de Deus. Uma forma própria de a divindade judaico-cristã se comunicar com sua criação filial. Deus é, antes de tudo, comunicação. Tornar comum entre dois lados o que parece estranho e diferente entre ambos.

 

O mesmo propósito que há nas palavras ordinárias do dia-a-dia mora também na Palavra suprema que cria e resgata Tudo. Entre Deus e o Mundo não há mais um abismo intransponível; o que há é o esforço da comunicação, do diálogo, do encontro entre diferentes.

 

Por meio da Palavra, a Teologia judeu-cristã conseguiu exprimir a absurda diferença entre Deus e os homens, mas, ao mesmo tempo, e por paradoxal que seja, a mais profunda solidariedade e comunhão entre os dois.

 

O totalmente Outro é, agora, por meio da Palavra, um Próximo, semelhante.

 

É curiosa, ainda, na segunda narrativa do livro de Gênesis, a ordem do Criador para que o ser humano criado nomeasse o restante do mundo criado. (Lembro-me do filme “Deus é brasileiro” dirigido por Cacá Diegues: numa passagem em que o personagem Taoca caminha com Deus por uma cidade à noite e são surpreendidos por uma vaca que passeia pelas ruas, Taoca diz “isso é uma vaca”, ao que Deus retruca “eu sei, fui eu quem a criou!”, e Taoca, em tom espirituoso, mas profundamente teológico, finaliza “mas fomos nós quem a chamamos assim”.)

A palavra que, ao mesmo tempo, distancia e aproxima (e que é instrumento no gesto criador divino) é emprestada ao ser humano para sua empreitada de nomear e significar seu jardim recém criado. Essa aparente contradição revela que a Palavra parece ter vida própria ou, então, que não pertence a esse ou aquele.

 

E aqui moram os pilares sobre os quais se edifica o texto em geral, mas especialmente a literatura bíblica: a renúncia, a denúncia e o anúncio.

 

Semelhante aos Poetas, os Profetas são inveterados profissionais da renúncia. Diferente das mãos lavadas de Pilatos, a renúncia profética/poética está na mais absurda e ácida constatação da solidão.

 

Elias quis a morte porque já não sabia mais que caminho tomar. Engraçado: quis a morte para salvar a vida!

 

Temendo, pois, Elias, levantou-se, e, para salvar sua vida, se foi, e chegou a Berseba, que pertence a Judá; e ali deixou o seu moço. Ele mesmo, porém, se foi ao deserto, caminho de um dia, e veio, e se assentou debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte e disse: Basta; toma agora, ó SENHOR, a minha alma, pois não sou melhor do que meus pais. Deitou-se e dormiu debaixo do zimbro. (I Rs 19, 3-5).

 

Sören Kierkegaard experimentou algo semelhante, mais de uma maneira menos pessimista. Ao orar, declarava-se como um amante:

 

Eu, esquecer-te!

Será pois o meu amor uma obra de memória?

Ainda que o tempo apagasse tudo das suas ardósias,

mesmo a própria memória,

as nossas relações manter-se-iam tão vivas como sempre, não te esqueceria.

Eu, esquecer-te!

De que lembrar-me então?

Pois se me esqueci de mim próprio

para me lembrar de ti;

se te esquecesse, logo seria obrigado

a recordar-me de mim próprio e,

ao fazê-lo, ia recordar-me instantaneamente de ti.

 

No caso de Jeremias, a situação é mais triste. Ainda que o Profeta tentasse, foi Deus que renunciou ouvi-lo.

 

Tu, pois, não intercedas por este povo, nem levantes por ele clamor ou oração, nem me importunes, porque eu não te ouvirei. Acaso, não vês tu o que andam fazendo nas cidades de Judá e nas ruas de Jerusalém? (Jr 7, 16-17)

 

Por fim, o Profeta é como o Artista cuja pele é vestida pelo Senhor Tempo. Impiedoso e soberano, não há quem consiga deixar de renunciar a si mesmo diante dele.

 

Chico Buarque conseguiu exprimir bem o destino dos Profetas/Artistas:

 

Imagino o artista num anfiteatro

Onde o tempo é a grande estrela

Vejo o tempo obrar a sua arte

Tendo o mesmo artista como tela.

 

Modelando o artista ao seu feitio

O tempo, com seu lápis impreciso

Põe-lhe rugas ao redor da boca

Como contrapesos de um sorriso.

 

Já vestindo a pele do artista

O tempo arrebata-lhe a garganta

O velho cantor subindo ao palco

Apenas abre a voz, e o tempo canta.

 

Dança o tempo sem cessar, montando

O dorso do exausto bailarino

Trêmulo, o ator recita um drama

Que ainda está por ser escrito.

 

No anfiteatro, sob o céu de estrelas

Um concerto eu imagino

Onde, num relance, o tempo alcance a glória

E o artista, o infinito!

 

Semelhante aos Poetas, os Profetas são intransigentes profissionais da denúncia.

 

Enquanto se acreditava na misericórdia irresponsável de Deus –

 

Vinde, e tornemos para o SENHOR, porque ele nos despedaçou e nos sarará; fez a ferida e a ligará. Depois de dois dias, nos revigorará; ao terceiro dia, nos levantará, e viveremos diante dele. Conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR; como a alva, a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra. (Os 6,1-3)

 

– o profeta advertia que mais certa que a chuva que rega a terra era a inconstância irreverente dos filhos de Judá –

 

Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque o vosso amor é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa. Por isso, os abati por meio dos profetas; pela palavra da minha boca, os matei; e os meus juízos sairão como a luz. Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos. Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim. (Os6,4-7)

 

Perenes como nenhum programa social premiado de governos são as ávidas denúncias rimadas de Vinícius de Moraes:

 

Era ele que erguia casas

Onde antes só havia chão.

Como um pássaro sem asas

Ele subia com as casas

Que lhe brotavam da mão.

Mas tudo desconhecia

De sua grande missão:

Não sabia, por exemplo

Que a casa de um homem é um

templo Um templo sem religião

Como tampouco sabia

Que a casa que ele fazia

Sendo a sua liberdade

Era a sua escravidão.

 

Coisa semelhante Isaias reclamava com bravura, quando bradava pelas ruas de Jerusalém:

 

Criei filhos e os engrandeci, mas eles estão revoltados contra mim. (...) Ai desta nação pecaminosa, povo carregado de iniqüidade, raça de malignos, filhos corruptores; abandonaram o SENHOR, blasfemaram do Santo de Israel, voltaram para trás. Por que haveis de ainda ser feridos, visto que continuais em rebeldia? Toda a cabeça está doente, e todo o coração, enfermo. (...) De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? - diz o SENHOR. (...) Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e também as Festas da Lua Nova, os sábados, e a convocação das congregações; não posso suportar iniqüidade associada ao ajuntamento solene.(...) Pelo que, quando estendeis as mãos, escondo de vós os olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas. (Is. 1, 2-17)

 

Embora o tom do discurso de Isaias pareça um tanto quanto religioso, talvez fosse essa uma das suas últimas preocupações. A chave do texto está na sentença em que Iahweh reclama: “quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue”. Sangue de inocentes que pagavam os altos preços das oferendas templárias.

 

Manuel Bandeira teve a mesma sensibilidade:

 

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

 

O mundo dos profetas não tem a beleza artificial dos meios de comunicação de massa; sejam as redes de TV ou a eficiente máquina religiosa de Jerusalém. O mundo dos profetas é cru. Sem sal e sem açúcar. As verdades desnudas perante os olhos. O mundo dos profetas é o mundo que precisa de conversão. Carece de novos rumos.

 

Semelhante aos Poetas, os Profetas são incorrigíveis profissionais do anúncio e da esperança.

 

Mais do que ranzinzas, os profetas sabem amar como amam os poetas.

 

Vai outra vez, ama uma mulher, amada de seu amigo e adúltera, como o SENHOR ama os filhos de Israel, embora eles olhem para outros deuses e amem bolos de passas. Comprei-a, pois, para mim por quinze peças de prata e um ômer e meio de cevada; e lhe disse: tu esperarás por mim muitos dias; não te prostituirás, nem serás de outro homem; assim também eu esperarei por ti. (Os 3, 1-3)

 

Quem mais como um Poeta poderia ser resignado a ponto de amar com tanta singeleza. A limpidez das palavras de Drummond talvez tenham inspirado, na eternidade, a confissão de Oséias.

 

O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

 

Mais que chorões, os profetas sabem fantasiar como fazem com genialidade as crianças. Sabem, graciosamente, acolher a vida como dom, sem exigências.

 

Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intacta. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Não adules o poema. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave? (Drummond)

 

Os profetas são mais que como as crianças. Os profetas são crianças:

 

Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações. Então, lhe disse eu: ah! SENHOR Deus! Eis que não sei falar, porque não passo de uma criança. (Jr 1,5-6)

 

Mais do que críticos, os profetas sabem sonhar como sonham os heróis.

 

Lembro-me do discurso estimulante do Pr. M. L. King:

 

Digo-lhes, hoje, meus amigos, que apesar das dificuldades e frustrações do momento, ainda tenho um sonho. (...) Tenho um sonho que algum dia esta nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado de sua crença. Afirmamos que estas verdades são evidentes; todos os homens foram criados iguais. (...) Tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos viverão um dia em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Tenho um sonho, hoje. Tenho um sonho que algum dia (...) pequenos meninos negros, e meninas negras, possam dar-se as mãos com outros pequenos meninos brancos, e meninas brancas, caminhando juntos, lado a lado, como irmãos e irmãs. Tenho um sonho, hoje.(...). (Martin Luther King)

 

Os profetas estão em guerra com seu mundo, consigo mesmo, com seu Deus. Os profetas choram.

 

Um homem também chora, Menina morena

Também deseja colo, palavras amenas

Precisa de carinho Precisa de ternura

Precisa de um abraço da própria candura

Guerreiros são pessoas tão fortes, tão frágeis

Guerreiros são meninos no fundo do peito

Precisam de um descanso Precisam de um remanso

Precisam de um sono que os tornem perfeitos

É triste ver meu homem guerreiro menino

com a barra do seu tempo por sobre seus ombros

Eu vejo que ele berra Eu vejo que ele sangra

a dor que tem no peito pois ama e ama

Um homem se humilha se castram seus sonhos

Seu sonho é sua vida e vida é trabalho

E sem o seu trabalho o homem não tem honra

E sem a sua honra se morre, se mata

Não dá pra ser feliz (Gonzaguinha)

 

Os profetas são poetas pelo simples fato de sonhar; pelo simples gesto de crer num mundo onde Deus será Tudo em todos.

 

Pois eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá lembrança das coisas passadas, jamais haverá memória delas. (Is 65,17)

 

Fato, entretanto, é que a nossa História é uma tortuosa história de palavras. O domínio da palavra é, não raro, o domínio da história.

 

A religião é uma colcha de palavras que pretende significar o mundo que mora dentro das pessoas. Os desafios que o mundo de fora empreende para com o mundo de dentro fizeram com que os homens procurassem um abrigo para se salvaguardar das ameaças tantas. As religiões são formas de enxergar a realidade, mas, acima de tudo, de interpretá-la. Daí o uso mais que instrumental da palavra. Em matéria de religião, a palavra torna-se Palavra e, como tal, ganha caráter sagrado e sacramental.

 

Dois registros pelos quais a religião se movimenta são baseados quase que exclusivamente na palavra. Tanto o mito quanto o rito da palavra dependem e dela sabem usufruir. Se, por um lado, o mito é a narrativa sobre as profundezas da alma empreendida pela palavra; por outro, o rito é a celebração que a mesma palavra empreende sobre si. Mesmo quando só há o silêncio, a palavra se faz presente exatamente por conta de sua ausência. Aliás, esse é um dado curioso: poucos fenômenos se revelam tão potentes como a palavra; mesmo quando de sua ausência, nada a torna estéril ou desnecessária.

 

As instituições nascidas das profundas e emblemáticas experiências religiosas descobriram desde há muito sobre o poder das palavras e delas aprenderam a fazer um uso especialmente importante e impactante, positiva e negativamente.

 

Os operadores dos cultos religiosos revelam-se tanto mais eficientes quanto mais capazes são de conduzir e administrar a palavra. A palavra criadora e a palavra que mora entre os homens é aquela que sacralizada no culto religioso se torna capaz de consolar ou culpar, de confortar ou instigar, de pacificar ou guerrear.

 

A potência das palavras as torna instrumentos perigosos se regulados por interesses espúrios.

 

Reside aí a razão pela qual os profetas de Israel possuíam uma estranha relação de amor e ódio para com o Templo, para com a religião institucionalizada. Quando se tratava dos primórdios da História israelita, homens como Elias, Gad ou Natan tinham uma clara e simples oposição a religião de Baal. Tratava-se da oposição mediante o projeto salvífico de Iahweh. Mais tarde, quando Israel já se configurava como uma nação razoavelmente organizada, homens como Isaias, Ezequiel e Amós ou Hulda, a profetiza, forjaram suas palavras numa contumaz denúncia dos abusos do Templo e do Palácio.

 

Há uma breve cena no filme O Discurso do Rei, estrelado por Colin Firth e Geoffrey Rush, que me ajuda a exemplificar. O jovem rei inglês George VI, recém entronizado, e com sérios problemas de fala que o atormentavam desde a infância, assiste a um filme em que o Führer alemão brada ferozmente num discurso diante de uma platéia imensa. A filha – que se tornaria a Rainha Elizabeth II – pergunta ao pai: “- Pai, você sabe o que ele está dizendo?”; o pai, então, devolve: “- Não sei o que ele diz, mas ele diz muito bem!”

 

Para um rei que mal consegue se comunicar com o público, a desenvoltura de Hitler é como um elixir. Independente do que se diga, importante é que se diga bem.

 

Essa talvez seja a questão na qual residem problemas sérios no mundo das religiões. Como há centralidade da palavra e como os sacerdotes são os seus articuladores, o uso que dela é feito é sempre com vistas à obtenção de determinados resultados. Via de regra, o resultado que se espera é a condução por uma experiência autêntica de encontro do ser humano com o significado de sua existência, mas há que se ter clareza que entre o mundo real e o ideal existe um largo e profundo abismo.

 

O fato de Hitler saber dizer bem e conseguir verdadeiros prodígios em sua comunicação não significou, em absoluto, que sua mensagem fosse legitimamente libertadora. As palavras são tão poderosas que, mesmo quando não há lastro em sua significação, elas podem conduzir as pessoas por experiências muito impactantes. E, de modo especial, no mundo das religiões, em que as palavras são utilizadas com a eficiência dos ritos, essa condução por experiências às vezes vazias e estéreis não é rara.

 

Minha intuição é que isso ocorre porque a vida das palavras nasce da experiência que elas são capazes de impulsionar em seus protagonistas. Palavras ditas e ouvidas que não foram geradas de uma autêntica experiência não conseguem empreender nada em quem as fala ou em quem as ouve. No mundo da religião, todavia, há uma busca séria e legítima por experiência e os sacerdotes conseguem manipular bem essa demanda. Conseguem, por exemplo, ser porta-voz de uma massa imensa que não quer ou não consegue se expressar e, ao invés de ajudá-la a superar tal limitação, a torna cativa de seu discurso e a estimula a mimeticamente seguir seus passos meramente rituais. Isso é o que tem feito a religião ser recorrentemente acusada de ser o “ópio do povo”.

 

Aliás, as palavras de Marx nos ajudam a compreender o fenômeno:

 

É este o fundamento da crítica irreligiosa: o homem faz a religião, a religião não faz o homem. E a religião é de fato a autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ou não se encontrou ainda ou voltou a se perder. Mas o Homem não é um ser abstrato, acocorado fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Este Estado e esta sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido. A religião é a teoria geral deste mundo, o seu resumo enciclopédico, a sua lógica em forma popular, o seu point d'honneur espiritualista, o seu entusiasmo, a sua sanção moral, o seu complemento solene, a sua base geral de consolação e de justificação. É a realização fantástica da essência humana, porque a essência humana não possui verdadeira realidade. Por conseguinte, a luta contra a religião é, indiretamente, a luta contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião. A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo. (Marx, K. Crítica da filosofia do direito de Hegel, Deutsch-Französischen Jahrbücher, 1844)

 

Com esse raciocínio, Marx ajuda a perceber, por um lado, que a abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. A crítica que faz da religião é, na verdade, a crítica de um mundo injusto, é a tentativa de transformação do estado atual das coisas.

 

Por essa mesma razão, termina seu artigo assim:

 

Consequentemente, a tarefa da história, depois que o outro mundo da verdade se desvaneceu, é estabelecer a verdade deste mundo. A tarefa imediata da filosofia, que está a serviço da história, é desmascarar a auto-alienação humana nas suas formas não sagradas, agora que ela foi desmascarada na sua forma sagrada. A crítica do céu transforma-se deste modo em crítica da terra, a crítica da religião em crítica do direito, e a crítica da teologia em crítica da política.

 

Vale a pena pensar, então, sobre o papel, ao mesmo tempo, opressor e libertador das religiões e sua competente capacidade de manipular as palavras.

 

É urgente que se aprenda a observar melhor o conteúdo do discurso em detrimento de sua forma e que não se permita ser conduzido pela força do rito e das emoções que esse gera no coração humano. A potência das palavras – sobretudo as palavras religiosas – emerge quando elas são ditas a partir de um autêntico encontro com seu significado.

 

Sempre que se permitir ser conduzido por outro, o homem abdica de sua identidade e se torna mero repetidor alienado. Isso ocorre mesmo quando se tem a ilusão de liberdade que o culto religioso pode fazer crer que se experimenta.

 

A beleza da religião está no fato de conseguir ser o suspiro da criatura oprimida e conseguir nela estimular a busca por liberdade.

 

Curioso, entretanto, é que esses vocábulos (libertação, cura, vitória, realização etc) fazem parte do dia-a-dia dos templos e sermões, mas não significam exatamente o que essas palavras podem expressar. As palavras dependem de seu contexto, mas, acima de tudo, fazem com que seu meio signifique isso ou aquilo. Assim, no discurso religioso, liberdade expressa obediência e, por meio dela, o suspiro dos oprimidos apenas se recrudesce.

 

Por fim,

 

Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Ai, palavras, ai, palavras,

sois de vento, ides no vento,

no vento que não retorna,

e, em tão rápida existência,

tudo se forma e transforma! (Cecília Meireles)

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