OS TRÊS
- Ricardo Lengruber

- 27 de jun.
- 6 min de leitura
Sobre as três pessoas que habitam a parábola do filho pródigo — e, quem sabe, nós
“Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, e vai para a terra que te mostrarei.”
Gênesis 12, 1
Lucas abre a parábola com uma aritmética que parece simples: um homem tinha dois filhos. Conta-se dois. Mas, quando o pano sobe e a história se move, são três os homens que pisam o assoalho desta casa. Dois filhos e um pai. Ou, talvez, três modos de ser filho. Ou três idades de uma mesma alma.
A parábola engana quem a soma.
Porque os três — o que partiu, o que ficou e o que esperou — não são personagens de uma história alheia. São hipóteses do humano. São retratos pendurados na parede de dentro de cada um de nós, e cada um deles nos encara e pergunta por onde andamos.
Olhemos para os três.
O primeiro homem: o que partiu
O gesto que inaugura a parábola não é a farra. É o pedido. Antes de gastar, o mais novo pede. E o que pede é monstruoso na sua delicadeza: a parte da herança. Ora, herança se reparte entre vivos somente quando alguém, simbolicamente, já se autorizou a enterrar o pai. Lucas é cru no vocabulário: o pai repartiu entre eles o seu bíos, a sua vida. O filho não pediu dinheiro. Pediu um pedaço da vida do pai, adiantado, como quem não tem paciência de esperar a morte chegar na hora dela.
E partiu.
Partiu movido por aquela força que mora dentro de todo ser humano e que já descrevi outras vezes: a inquietude, a sanha do desconhecido, o sonho de autonomia. Não o condeno por isso. Há mais coragem em quem arrisca o erro do que em quem se acovarda na segurança. O problema não foi sair. Foi para onde foi.
Porque o mais novo desceu. E desceu até o ponto mais baixo que um filho de Israel poderia imaginar: a pocilga. Repare que a Escritura não o coloca apenas pobre — coloca-o impuro. Para quem foi criado sob a Lei, o porco não é só o animal que fede; é o paradigma da imundície, a fronteira mesma entre o sagrado e o profano. O fundo do poço não é a fome. É a contaminação. O mais novo não chegou só à miséria: chegou à impureza, que para ele era pior do que a morte.
E foi ali, no chiqueiro, com inveja das bolotas dos porcos, que aconteceu o milagre. O texto diz, com uma beleza que se perde nas traduções apressadas: caindo em si. Não diz que caiu aos pés de Deus, nem que se converteu, nem que rezou. Diz que voltou a si. Porque o retorno à casa começa, sempre, por um retorno a si mesmo. Ninguém volta para o pai sem antes reencontrar quem é.
Mas aqui mora a provocação, e eu não a pouparei: o mais novo ensaiou um discurso. “Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno...” Ele decorou. Voltou com fome e com um roteiro. E nós, leitores piedosos, gostaríamos de saber: foi arrependimento ou foi estômago? A parábola não responde. E faz bem em não responder. Porque talvez nem ele soubesse — e talvez não importe.
O que importa vem depois. E é do pai.
O segundo homem: o que ficou
Há um homem nessa casa de quem quase ninguém fala, e que é, na minha leitura, o mais trágico dos três. O irmão mais velho. O que ficou.
Ficou, trabalhou, obedeceu, não esbanjou, não sujou as mãos na pocilga. É o homem correto. E é, justamente por isso, o que está mais longe de casa.
Pois há uma distância que os pés não medem. O mais novo esteve longe pela geografia; o mais velho está longe pela alma, e nunca saiu do quintal. Quando volta da roça e ouve a música, ele não entra. Para. Planta-se do lado de fora do portão. Chama um criado para saber o que se passa — como se fosse hóspede na própria casa. E se indigna.
Ouça as palavras dele, porque elas o denunciam: “Há tantos anos que te sirvo, e nunca transgredi mandamento teu, e nunca me deste um cabrito.” Que te sirvo. Ele se diz servo. Mora na casa do pai e se enxerga empregado. Cumpriu tudo, e por isso se julga credor. Onde o mais novo se via devedor indigno, o mais velho se vê justo lesado. São os dois lados da mesma moeda falsa: ambos confundiram a filiação com uma conta a ser acertada.
E aqui está o escândalo que Jesus armou de propósito — pois contava a parábola para os fariseus, os corretíssimos que murmuravam por vê-lo comer com pecadores. O mais velho passou a vida inteira dentro da festa e nunca soube que ela existia. Tinha o pai, tinha a casa, tinha tudo — “tudo o que é meu é teu” — e morria de fome diante do banquete. Seu inferno não é estar excluído. É estar dentro e se sentir de fora.
A parábola termina com ele no umbral. A porta aberta, a música tocando, o pai a suplicar. E Jesus não nos diz se ele entrou.
Esse silêncio é a pergunta que sobra. E ela não é sobre o irmão. É sobre quem ouve.
O terceiro homem: o que esperou
Falta o terceiro. E o terceiro é o mais pródigo de todos.
Porque, se prestarmos atenção, o esbanjador da história não é o rapaz. É o pai. Pródigo, no sentido próprio da palavra, é aquele que gasta sem medida, que desperdiça, que não calcula. E ninguém nessa parábola desperdiça como o pai desperdiça. Ele esbanja perdão. Joga fora a sua honra a mancheias. É perdulário no amor.
Veja o que ele faz, e veja com olhos daquele mundo. Ao avistar o filho ainda longe, o velho corre. Um patriarca não corre. Correr exige levantar a túnica, mostrar as pernas, expor-se ao ridículo diante da aldeia inteira. O pai abre mão de toda a sua dignidade e atravessa o pátio correndo — em direção ao filho que pedira a sua morte. É o esvaziamento de Deus encenado numa estrada de terra.
E o abraça e o beija antes do discurso. O roteiro decorado do mais novo nem chega a ser dito por inteiro; a graça atropela a confissão, torna o ensaio inútil. Não há, na boca do pai, uma única palavra de cobrança. Há sandálias.
Já escrevi sobre essas sandálias e volto a elas, porque me comovem. Sandálias são sinal de homem livre, escravo andava descalço. Calçar sandálias novas no filho que voltou não é só repor o que se gastou na estrada. É devolver-lhe a liberdade. É dizer, sem dizer: você é livre para ficar e livre para partir de novo. O pai não acorrenta o filho ao alpendre. As sandálias são, ao mesmo tempo, porta de entrada e porta de saída.
E há um detalhe que quase ninguém nota: o pai sai duas vezes. Sai para correr ao encontro do mais novo. E sai, depois, da festa, para o lado de fora, onde o mais velho se recusa a entrar. O pai abandona o próprio banquete para implorar ao filho que sobrou. Esse pai não espera parado no trono. Esse pai vive saindo. Vai ao que voltou e vai ao que não quer voltar. A um, dá o abraço; ao outro, a súplica. A nenhum dos dois cobra justiça. Aos dois oferece a casa.
Um pai pouco preocupado com o que é justo. Um pai inteiramente ocupado com a digna peregrinação de seus filhos.
O nome teológico disso é Graça. A mais complicada dimensão de ser compreender e de se viver qualquer fé. As religiões formaram-se e firmaram-se quase que exclusivamente sobre a ideia de justiça. A Graça, invariavelmente, é sempre "o" problema das religiões, notadamente a cristã. É seu fundamento quase que exclusivo, mas sobre ela (e para relativizá-la) escreveram-se centenas de milhares de páginas teológicas pela História.

⁂
São três, então. O que partiu e voltou. O que ficou e não entrou. E o que, em vez de esperar, correu.
E a parábola, que começou contando dois, nos devolve a conta em aberto. Porque o mais novo somos nós quando ousamos demais e nos sujamos; o mais velho somos nós quando obedecemos sem amar e nos amarguramos do lado de fora; e o pai é o que somos chamados a nos tornar — o que esbanja, o que corre, o que sai de casa não para se perder, mas para buscar os que se perderam.
O portão continua aberto. A música, tocando. O pai, do lado de fora, ainda espera. Ainda corre. Ainda chama.
Só falta entrar.




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