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O latim que (quase) ninguém entende

Atualizado: 30 de jul.

 


No dia 28 de julho de 2026, num teatro construído no século XVII para que a Universidade de Oxford tivesse onde realizar suas cerimônias sem incomodar a igreja, um rapaz nascido em Nova Friburgo foi admitido ao grau de Mestre em Matemática e Filosofia. A cerimônia foi conduzida em latim. Quase ninguém entre os presentes entendia o que estava sendo dito. O documento que ele recebeu informa que satisfez os examinadores em 6 de julho e que, tendo cumprido todas as condições prescritas pelos Estatutos, foi admitido ao grau vinte e dois dias depois. Duas datas distintas para duas coisas distintas: uma para o julgamento, outra para o acolhimento.


Uma instituição que se orgulha de produzir conhecimento de ponta mantém, no centro do seu ato mais importante, uma língua morta e um figurino do século XIV. Vale perguntar por quê.

 

A resposta começa na palavra. Universidade não vem de universalidade do saber, como se costuma repetir em discursos de formatura. Vem de universitas, que no latim medieval designava a corporação, o corpo coletivo, a pessoa jurídica formada por um grupo de pessoas físicas. A expressão completa era universitas magistrorum et scholarium: a corporação dos mestres e dos estudantes. Uma guilda. Um sindicato, se quisermos ser desagradáveis com a nostalgia. Nasceu como associação de trabalhadores do ensino que se organizaram para negociar aluguéis com as cidades, garantir a liberdade de ensinar e conquistar o direito de serem julgados pelos seus pares, e não pelas autoridades locais. A universidade é, na origem, um pacto de proteção mútua entre quem ensina e quem aprende.

 

Guildas se reconhecem por sinais. O latim incompreensível, a beca, a assinatura do Registrar, a distinção entre satisfazer os examinadores e ser admitido ao grau: nada disso é decoração. É a forma pela qual o colégio dele, fundado em 1249, declara que aquele rapaz agora pertence. Max Weber compreendeu isso melhor do que os que o citam de passagem. A formalidade não é o contrário da racionalidade. É o que impede que a decisão dependa do humor de quem manda. Onde não há forma, não há direito. Há vontade.

 

Mas a parte mais importante daqueles quatro anos não está escrita no certificado.

 

Está nos amigos. Pedro sai de Oxford com um punhado de pessoas espalhadas pelo mundo, gente com sotaques e passaportes que ele não sabia pronunciar aos dezessete anos, com quem discutiu até tarde, dividiu cozinha, brigou, se reconciliou. John Henry Newman, que pensou o assunto como poucos, chegou a sustentar que preferiria uma universidade que apenas reunisse jovens sob o mesmo teto por alguns anos a outra que os examinasse com rigor sem jamais os reunir. A afirmação é provocadora e continua correta. O currículo é o que se pode auditar. A formação é o que acontece nos intervalos.



Convém agora voltar ao começo, sabendo que o começo nunca é onde parece.

 

Uma criança descobre a matemática no dia em que percebe uma coisa espantosa: ali, o professor pode estar errado.

Em quase todas as outras matérias, a resposta certa é a que a autoridade sanciona. Na matemática, não. A demonstração decide, e ela não pergunta quem é o pai de ninguém. Para um menino do interior do Rio de Janeiro, essa é uma descoberta política antes de ser uma descoberta intelectual. Existe um lugar onde o argumento vale mais do que a posição de quem o enuncia. Quem prova, ganha. Quem não prova, não ganha, ainda que seja o dono da escola.


A dupla que ele escolheu estudar não é uma dupla. Leibniz escreveu o cálculo e escreveu a Teodiceia, com a mesma mão e nos mesmos anos, e foi ele quem inventou a palavra, juntando Deus e justiça para nomear o esforço de defender Deus diante do mal do mundo. Ninguém no tempo dele estranhou que o homem do cálculo estivesse fazendo aquilo. A separação entre as duas coisas é recente, filha da especialização que a universidade moderna adotou para caber em departamentos. Oxford mantém o curso conjunto porque se lembra do que existia antes da divisão.


Oxford guarda ainda o caso de Charles Dodgson, que lecionou matemática em Christ Church por vinte e seis anos, publicou trabalhos sobre determinantes e lógica simbólica e, sob o nome de Lewis Carroll, escreveu os dois livros de Alice. Gastou-se um século tratando a literatura dele como fuga da matemática. É o contrário. Alice é um tratado de lógica vestido de história infantil, no qual as regras são levadas às últimas consequências até revelarem o absurdo que já continham. Nenhum matemático estranha aquele livro. Quem estranha são os adultos que pararam de perguntar por quê.

 

Vieram as olimpíadas. A OBMEP, criada em 2005 e conduzida pelo IMPA, é provavelmente a política pública mais bem-sucedida da educação brasileira nas últimas décadas, e quase ninguém fora do ramo sabe disso. Milhões de estudantes por ano, provas aplicadas em cidades que não têm cinema, medalhistas descobertos em escolas sem laboratório. Pedro foi medalhista ali e na Olimpíada Brasileira de Matemática. Em 2021 esteve entre os cinco brasileiros classificados para a Olimpíada Internacional de Matemática, competição que naquele ano deveria ocorrer em São Petersburgo e acabou realizada de forma remota por causa da pandemia.

 

Aqui cabe a denúncia, e ela não é contra as olimpíadas. É contra o país que as usa como loteria. Um sistema que peneira milhões para encontrar algumas centenas é eficiente para achar talento e é uma confissão de fracasso quanto ao resto. O menino que ganha a medalha é a prova de que existe capacidade em toda parte. O que falta não é capacidade. É escola, é biblioteca, é professor pago, é comida, é transporte, é alguém em casa com tempo para perguntar como foi o dia. A cada medalhista encontrado, ficam para trás milhares que teriam encontrado a mesma alegria se alguém tivesse chegado até eles.

 

Em novembro de 2019, essa história deu uma volta que ninguém planejou. A nona Olimpíada de Matemática da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa estava marcada para Moçambique. Eventos climáticos severos atingiram o país e a competição precisou mudar de continente. O Brasil assumiu a organização, e o IMPA pediu apoio às escolas. Ela foi parar em Nova Friburgo, no Educandário Miosótis, entre os dias 3 e 8 daquele mês, com provas em 5 e 6 de novembro.

 

O detalhe que quase ninguém percebeu: aquela escola também havia sido destruída por um evento climático. Em janeiro de 2011, a maior tragédia da história da região deixou o prédio principal interditado pela defesa civil, e a comunidade escolar reconstruiu tudo em quarenta dias, num prédio abandonado que precisou ser refeito do zero. Escrevi essa história noutro lugar, com vagar. Oito anos depois, uma olimpíada expulsa de Moçambique pela chuva foi acolhida por uma escola que a chuva tinha derrubado.

 

Entre os quatro representantes brasileiros estava um aluno de quinze anos, da primeira série do ensino médio, o único da delegação nascido no interior. Ele terminou com a medalha de ouro. Jogava em casa, literalmente, no pátio da escola fundada pela sua avó.

 


Convém dizer quem é essa avó, porque boa parte da história está diretamente ligada a ela.

 

Maria Beethania Lengruber saiu de Duas Barras ainda menina. Filha de um músico chamado Beethoven, guardou da infância uma cena que carregou pela vida: a mãe se voluntariou como professora do MOBRAL, e a menina saía pelas ruas do bairro Ypu procurando adultos que quisessem aprender a ler, enquanto a sala de casa virava sala de aula. Fez o Normal, deu aula em rede pública e privada e, em 1990, aos trinta e sete anos, abriu uma escola em salas emprestadas por uma igreja metodista na Praça do Paissandu. Chamou-a de Miosótis, a flor que em várias línguas significa não me esqueças. Rubem Alves dizia que há escolas que são gaiolas e escolas que são asas. Ela escolheu o segundo tipo antes de ler a frase.

 

Trinta e seis anos depois, o neto dessa mulher recebe um diploma em Oxford. Não é uma história de mérito individual. É uma história de acumulação de gerações — coisa bem diferente.

 


Em 2022 vieram as aprovações. Várias universidades americanas, das que aparecem nas listas que as famílias colecionam. Pedro escolheu Oxford, e a escolha diz algo sobre ele que vale examinar.

 

Os dois modelos são honestos e, paradoxalmente, incompatíveis. O sistema americano de graduação aposta na amplitude: o estudante entra sem definir o curso, cumpre exigências de distribuição, experimenta áreas distantes e escolhe tarde, com mais informação e menos medo. É generoso com quem ainda não sabe o que quer, e é caro. O modelo de Oxford faz o contrário. Exige a escolha aos dezessete anos, elimina quase toda matéria fora do foco e organiza o ensino em torno do tutorial: uma ou duas pessoas na sala com o tutor, toda semana, defendendo por escrito e em voz alta o que escreveram. Não há onde se esconder. Não há nota de participação, não há trabalho em grupo que dilua a responsabilidade, não há colega para carregar. É a forma mais antiga e mais desconfortável de ensinar, e é a única em que o professor não consegue fingir que não percebeu.

 

Escolher isso aos dezessete anos, tendo a alternativa mais confortável na mão, é uma declaração de caráter.

 

Desde 2022 Pedro dá aulas. Trabalha para um colégio especializado em treinamento olímpico e em preparação para processos seletivos internacionais, ensinando adolescentes brasileiros a fazer aquilo que ele fez. Estudou de manhã e ensinou de tarde durante quatro anos, o que explica parte da conta que ninguém faz e que não aparece em certificado nenhum. Docendo discimus, diziam os antigos, e a frase não é um enfeite de sala de professores. Ninguém entende de fato um teorema antes de precisar explicá-lo a alguém que não o entendeu. O ensino é a única auditoria honesta do próprio conhecimento.

 

Há ainda a parte que a família toda comenta em voz baixa. O menino era muito dependente em casa. Do tipo que não andava sozinho pelas ruas e sempre estava acompanhado por um adulto. Quem o conheceu aos treze anos e o encontra hoje demora um instante para reconciliar as duas imagens.

 

Emancipar vem do latim. O verbo é formado por e, para fora, e mancipium, que por sua vez vem de manus e capere, tomar pela mão. No direito romano, a emancipação era o ato solene pelo qual o pai retirava o filho da sua mão, do seu poder, da patria potestas. Não era um sentimento. Era um ato jurídico, com fórmula, testemunhas e data. Alguém precisava abrir a mão, e o gesto precisava ser público.

 

É exatamente o que aconteceu. A avó abriu a mão pagando parte do que precisava ser pago e nunca transformando aquilo em assunto. O pai abriu a mão quando não disse ao filho que Filosofia não paga contas, coisa que a maioria dos pais diria. E o rapaz abriu a sua quando foi, com dezoito anos, morar sozinho a nove mil quilômetros de casa, num país onde precisava lavar a própria roupa, marcar o próprio médico e sustentar por escrito, toda semana, aquilo que afirmava. Independência não é temperamento. É passagem. E toda passagem exige que alguém, em algum momento, solte.

 

Agora ele vai para Bonn, seguir seus estudos. E é aqui que este texto precisa dizer a coisa que os discursos de formatura não dizem.



Bonn é um endereço com memória. Em 1864, um rapaz de dezenove anos se matriculou ali para estudar teologia e filologia. Largou a teologia depois de um semestre, foi embora no ano seguinte e gastou o resto da vida escrevendo contra aquilo que tinha largado. Era Nietzsche. Noventa e cinco anos depois, na mesma universidade, um professor bávaro de trinta e dois anos assumiu a cátedra de teologia fundamental e abriu os trabalhos com uma aula intitulada “O Deus da fé e o Deus dos filósofos”. Era Ratzinger, que viria a ser Bento XVI. Dois homens jovens, o mesmo endereço, a mesma pergunta, direções opostas. A universidade é o único lugar do mundo em que essas duas biografias constam da mesma lista de ilustres.

 

Felix Hausdorff foi professor em Bonn a partir de 1910, voltou à cidade em 1921 e ali produziu a obra que fundou a topologia como disciplina autônoma. Era judeu. Em 1935 perdeu a cátedra: sua matemática abstrata foi denunciada como judaica, inútil e antialemã. Continuou pesquisando sem poder publicar na Alemanha, escreveu a colegas no exterior pedindo uma bolsa que lhe permitisse sair e não conseguiu. Em janeiro de 1942, quando ele, a mulher, Charlotte, e a cunhada, Edith, receberam a ordem de se apresentar ao campo instalado em Endenich, a oeste da cidade, escolheram morrer em casa. Hausdorff tinha setenta e três anos. Publicava literatura sob o pseudônimo Paul Mongré, detalhe que me comove por motivos que não preciso explicar.

 

Hoje o centro de matemática da Universidade de Bonn se chama Hausdorff Center for Mathematics.

 

É a mesma figura que se repete. O University College, colégio de Oxford em que Pedro estudou, expulsou Percy Bysshe Shelley em março de 1811, aos dezoito anos, e o registro do colégio esclarece que ele não foi mandado embora pela tese do panfleto que escrevera sobre o ateísmo, e sim por recusar-se, com contumácia, a responder às perguntas e a desautorizar a autoria. A instituição não puniu a ideia. Puniu a insubordinação. Oitenta e um anos depois, esse mesmo colégio mandou esculpir em mármore um memorial ao poeta que havia expulsado.


O mesmo colégio formou C. S. Lewis, que se matriculou ali em 1917, foi para a guerra, voltou ferido e gastou a vida escrevendo em defesa exatamente daquilo que Shelley negara. Um foi expulso por não recuar. O outro ficou e virou o apologista cristão mais lido do século. Os dois aparecem hoje na mesma relação de antigos alunos, impressa no mesmo folheto, sem que ninguém ache aquilo estranho. Instituições longevas desenvolvem uma capacidade que os indivíduos não têm: a de abrigar contradições sem precisar resolvê-las.

 

A academia expulsa e depois celebra. Demite o judeu e batiza o instituto com o nome dele. Manda embora o rapaz insolente e o transforma em estátua. Quem entra numa universidade acreditando que está entrando num lugar moralmente superior vai se decepcionar cedo, e a decepção costuma ser cara. A universidade colaborou com regimes, produziu a antropologia racial, assinou laudos, calou-se quando falar custava o emprego. Também abrigou quem resistiu, guardou textos proibidos, formou gente que derrubou governos e corrigiu a si mesma décadas depois, tarde demais para os mortos e a tempo para os vivos. As duas coisas são verdadeiras, e quem esquece uma delas está mentindo.

 

Talvez seja isso o que uma corporação que ensina desde o século XI oferece: não virtude, mas duração. Ela sobrevive aos seus próprios covardes.

Há um teorema que descreve essa condição melhor do que qualquer sociologia. Em 1931, Kurt Gödel provou que todo sistema formal consistente e forte o bastante para conter a aritmética abriga verdades que não alcança, e que nenhum sistema desses demonstra a própria consistência de dentro de si mesmo. Nenhuma instituição se funda a si mesma. Nenhuma tradição prova sozinha que merece ser seguida. Nenhum de nós encontra dentro de si o critério que o justifica. A universidade não é exceção: ela não consegue provar, com os próprios instrumentos, que vale a pena. Precisa ser julgada por algo que está fora dela, e esse algo são as pessoas que ela formou e o mundo em que elas foram viver. O mesmo Gödel passou os últimos anos escrevendo, em lógica modal, uma prova ontológica da existência de Deus, que mostrou a pouquíssima gente. Nunca consegui imaginar essas duas coisas separadas dentro da mesma cabeça.

 

E o que ela ensina, quando ensina alguma coisa?

 

Simone Weil, que era irmã de André Weil, um dos maiores matemáticos do século, escreveu sobre isso um texto breve e desconcertante.


Sustentava que o conteúdo dos estudos escolares importa menos do que se imagina, porque a função real do estudo é desenvolver a atenção.

Um problema de geometria enfrentado durante uma hora e não resolvido não foi tempo perdido: o esforço aprofundou em quem estudou uma capacidade que depois se aplica a tudo, inclusive ao sofrimento alheio. Para ela, a atenção era a substância da oração, e aprender a olhar demoradamente para um problema era aprender a olhar demoradamente para uma pessoa.

 

É a melhor definição de estudo que conheço. Não é acúmulo. É treino de atenção num tempo que industrializou a distração. Quem passou quatro anos provando teoremas e sustentando argumentos toda semana adquiriu, sem perceber, uma capacidade que o mercado ainda não sabe precificar: a de permanecer diante de uma dificuldade sem fugir.

 

Sobre a carreira que vem, a honestidade recomenda avisos. O doutorado é longo e solitário. Depois vêm os anos de pós-doutorado, os contratos temporários, as mudanças de país, a fila para um número decrescente de vagas permanentes, a pressão por publicações que ninguém lerá, os índices que medem o que é fácil medir e ignoram o que importa. First Class em Oxford não protege ninguém disso. E ainda assim há uma coisa que a vida acadêmica oferece e quase nenhum outro ofício oferece: o direito de passar anos numa pergunta que ninguém encomendou, sem precisar justificar a utilidade dela na próxima reunião.

 

Quem tiver essa chance e não a usar terá desperdiçado algo raro.


 



Penso na sequência: um músico chamado Beethoven que saiu de Duas Barras; a filha dele, que fundou uma escola em salas emprestadas de uma igreja e nunca deixou de ser professora; o filho dessa mulher, que não disse ao próprio filho para escolher uma coisa séria; e o neto, que agora atravessa um pátio de pedra com o sobrenome da família impresso num certificado de Oxford. Penso também nos meus filhos, Miguel e Augusto, que acompanham tudo daqui, felizes, orgulhosos do primo.

 

Ninguém chega sozinho.

A mitologia do talento que se faz por conta própria é uma mentira conveniente, e serve exatamente a quem não quer pagar impostos para construir escolas. Por trás de cada medalha há uma professora que ficou depois da aula, uma avó que assinou o cheque em silêncio, uma cidade que emprestou o ginásio, um instituto público que organizou a prova, um país que decidiu, num momento de lucidez, procurar seus talentos em vez de esperar que se apresentassem.

 

Vale dizer os nomes, porque nome é história comprimida. Nos mesmos pátios que Pedro atravessou nestes quatro anos em Oxford, John Wycliffe traduziu a Bíblia para o inglês e foi condenado por isso depois de morto. Erasmo passou uma temporada e saiu outro. Thomas Hobbes estudou lógica antes de escrever que o homem é lobo do homem, e John Locke, na mesma cidade, escreveu quase o contrário. Christopher Wren desenhou o teatro em que Pedro recebeu o grau. Edmond Halley calculou a volta de um cometa que só voltou dezesseis anos depois da morte dele. Adam Smith detestou os professores que teve e escreveu, anos mais tarde, que universidade em que o salário não depende do desempenho produz docente que abandona até a aparência de ensinar. Jeremy Bentham matriculou-se aos doze anos. Charles Dodgson lecionou matemática por vinte e seis anos e inventou Alice. Oscar Wilde saiu de lá com um prêmio de poesia e voltou, tempos depois, arruinado. Tolkien inventou línguas inteiras. Dorothy Hodgkin decifrou a estrutura da penicilina e ganhou o Nobel. Numa Oxford esvaziada pela guerra, quatro mulheres jovens ocuparam as salas que os homens convocados deixaram vagas e refizeram a filosofia moral do século: Elizabeth Anscombe, Philippa Foot, Mary Midgley e Iris Murdoch. Stephen Hawking estudou física no mesmo colégio de Pedro e dizia, com algum exagero, que quase não trabalhava. Andrew Wiles saiu dali e passou sete anos trancado provando o último teorema de Fermat. Tim Berners-Lee saiu dali e inventou a web. Benazir Bhutto presidiu a união dos estudantes e foi assassinada num comício em Rawalpindi. Aung San Suu Kyi recebeu todas as honras que aquela cidade tinha para dar e, décadas depois, foi a Haia defender o próprio governo de uma acusação de genocídio. Malala Yousafzai colou grau em 2020, oito anos depois de levar um tiro na cabeça a caminho da escola.


Em Bonn a lista não é menor e é bem mais desconfortável. Karl Marx matriculou-se em direito aos dezessete anos e arranjou confusão suficiente para que o pai o transferisse de universidade. Heinrich Heine estudou ali e escreveu a frase que o século seguinte cumpriria ao pé da letra: onde se queimam livros, acaba-se queimando gente. August Kekulé sonhou com uma serpente mordendo o próprio rabo e acordou com o anel do benzeno. Heinrich Hertz provou que as ondas eletromagnéticas existem e morreu aos trinta e seis anos. Karl Weierstrass deu rigor à análise. Joseph Schumpeter explicou por que o capitalismo destrói aquilo que ele mesmo constrói. Jürgen Habermas doutorou-se ali. Konrad Adenauer estudou direito e depois reconstruiu a Alemanha ocidental a partir daquela mesma cidade, transformada em capital de um país partido ao meio. Carl Schmitt lecionou ali e depois emprestou forma jurídica à ditadura; Otto Kirchheimer, que foi seu aluno, fugiu do país e gastou a vida escrevendo contra aquilo que o mestre ajudara a erguer. Joseph Goebbels também passou por Bonn. E Karl Barth ensinou teologia ali até 1935, quando se recusou a jurar fidelidade incondicional a Hitler e perdeu a cátedra, pouco depois de redigir naquela cidade o texto que rachou a igreja alemã ao meio.


Goebbels e Barth na mesma relação de antigos alunos. Hausdorff morto em janeiro de 1942 e o instituto de matemática com o nome dele. Shelley expulso e Shelley em mármore. Não é uma contradição à espera de solução. É o que uma instituição de séculos necessariamente é:


um lugar grande o bastante para conter o melhor e o pior de nós, e teimoso o bastante para continuar aberto depois dos dois.

E aqui as duas linhas se encontram, a de Pedro e a de todo mundo. Em 1729, num quarto de Oxford, um punhado de rapazes começou a se reunir em horário marcado para orar, estudar os clássicos e visitar presos, e os colegas os apelidaram de metodistas por causa da mania de método. Duzentos e sessenta e um anos depois, do outro lado do Atlântico, uma professora sem capital abriu uma escola em salas emprestadas por uma igreja que carrega aquele apelido até hoje, na Praça do Paissandu, em Nova Friburgo. Trinta e seis anos depois disso, o neto dessa mulher recebeu um diploma exatamente no lugar onde o apelido nasceu.


Ninguém planejou nada disso. É assim que as gerações funcionam. Elas não se sucedem. Elas se somam.

Em Bonn, Pedro vai morar na rua onde nasceu o outro Beethoven, e vai atravessar todos os dias uma calçada que, para o resto do mundo, é apenas turismo. Vai estudar num centro que leva o nome de um homem que aquela universidade expulsou. Vai aprender uma língua nova para poder xingar nela. Vai sentir falta de arroz com feijão e vai descobrir que a saudade também é uma forma de atenção.

 

Qohélet, na Bíblia, que examinou tudo o que se faz debaixo do sol e não vendeu ilusão a ninguém, termina o seu livro recomendando que se coma o pão com alegria e se beba o vinho de coração contente. Não é fuga. É conclusão.


Depois de olhar de frente para o pouco que sabemos e para o pouco que dura, o que resta é o pão, o vinho, o trabalho bem-feito e as pessoas com quem se divide a mesa.

 

Que Pedro estude muito, prove teoremas difíceis, escreva coisas que durem e continue perguntando quem está embaixo. E que, entre uma coisa e outra, jante bem, ande à beira do Reno e siga telefonando para sua avó!

 

Prof. Ricardo Lengruber


Universidade de Bonn
Universidade de Bonn
Casa de Beethoven, em Bonn
Casa de Beethoven, em Bonn


 
 
 

2 comentários

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31 de jul.
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Maravilhoso! Emoção pura!!!!

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Convidado:
29 de jul.

Belíssimo! E emocionante.

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