Crer e/ou não Crer
- Ricardo Lengruber

- 2 de ago.
- 8 min de leitura
Foi em Antioquia que, pela primeira vez,
os discípulos receberam o nome de cristãos.
Atos 11,26
Na fila da padaria, um senhor de camisa tricolor encerrou o assunto com a autoridade de quem não admite réplica: sou cristão, mas não sigo religião. O amigo concordou e emendou que Jesus foi o maior homem que já pisou nesta terra. Passaram em seguida ao Brasileirão.
Nada do que disseram, até ali, seria reconhecido por um concílio ecumênico como fé cristã. E nenhum dos dois mentiu.
Convém dizer desde já aonde isto vai dar. Definir vem de finis: limite, fronteira, fim. Definir é traçar uma linha e admitir que do outro lado dela existe mundo. Toda definição é, portanto, menos uma coroa do que uma confissão de finitude. O que se segue é o esforço de descrever com alguma exatidão por onde passa a linha que separa aquilo que a tradição cristã chama de fé cristã daquilo que, no Brasil de hoje, atende pelo mesmo nome. Descrever o limite de um terreno não é declará-lo superior aos terrenos vizinhos. Marcos de divisa servem à boa vizinhança: informam onde termina a minha posse, não decretam a excelência da minha lavoura.
Feita a advertência, o nome. Christianós é palavra híbrida e desajeitada: um sufixo latino, -ianus, colado a um título grego, christós, que traduzia o hebraico māshîaḥ, o ungido. O sufixo marcava facção. Herodianos, pompeianos, gente de alguém. Em Antioquia, os vizinhos apontaram um grupo esquisito de judeus e gentios que comiam à mesma mesa e lhe deram nome de partido político. Cristão nasceu crachá alheio, provavelmente com alguma ironia, talvez com alguma suspeita policial. Identidade, veio depois. Definição, muito depois.
E definições têm autor, data e endereço.
Quem quiser saber o que se exige oficialmente de um cristão não deve procurar no coração, e sim nas atas dos concílios, aquelas assembleias de bispos que, entre os séculos IV e VIII, resolveram na base do voto e da política o que a fé deveria dizer. Niceia, 325, respondeu à tese do presbítero Ário, para quem o Filho seria a primeira e mais nobre das criaturas, algo entre Deus e nós: o Filho é homooúsios, da mesma substância do Pai, gerado e não criado. Em português corrente, Jesus não é um semideus nem um enviado de luxo; é Deus mesmo. Constantinopla, 381, estendeu a afirmação ao Espírito Santo, que deixa de ser força impessoal e passa a ser adorado e glorificado com o Pai e o Filho: um só Deus em três pessoas distintas.
Éfeso, 431, declarou Maria Theotókos, a que gera Deus, e a disputa nunca foi sobre a honra dela. Nestório preferia chamá-la mãe do Cristo, e o que se decidia ali era outra coisa: se aquele bebê de Belém já era Deus ou se a divindade só teria descido depois, sobre um homem pronto. Calcedônia, 451, fechou o raciocínio com quatro advérbios gregos que custaram carreiras, exílios e cismas: em Cristo há duas naturezas numa só pessoa, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação. Traduzindo, ele é integralmente Deus e integralmente humano ao mesmo tempo, sem que a divindade dilua a humanidade nem a humanidade rebaixe a divindade, e sem que se produzam dois sujeitos morando no mesmo corpo. Constantinopla, 681, foi ainda mais longe e lhe atribuiu duas vontades, porque uma humanidade sem vontade própria seria teatro, e a obediência de Cristo teria sido encenação. Niceia, 787, devolveu as imagens aos templos com um argumento coerente: se Deus se fez visível, pode ser pintado.
Ao lado das atas, o Símbolo, o texto que católicos, ortodoxos e protestantes históricos recitam de pé. Ali se confessa um Deus trino, um Verbo encarnado, uma virgem, uma cruz, um sepulcro, um terceiro dia, uma ascensão, um retorno para julgar vivos e mortos, um batismo, o perdão dos pecados, a ressurreição da carne e a vida do mundo futuro. Ressurreição da carne, note-se bem, não é sobrevivência de uma alma que escapa do corpo; é a reconstituição da pessoa inteira, com a história e a corporeidade que teve. E, no meio dessa metafísica altíssima, um nome de funcionário público romano. Padeceu sob Pôncio Pilatos. A fé cristã datou-se pelo calendário de um prefeito medíocre, e é essa teimosia histórica que a impede de virar filosofia.
A lista oficial, note-se também, já nasce excluindo cristãos antiquíssimos. Calcedônia deixou do lado de fora coptas, armênios, siríacos e etíopes, que julgaram a fórmula das duas naturezas uma concessão excessiva; Éfeso já havia afastado a Igreja do Oriente, que evangelizava a Pérsia, a Índia e a China enquanto boa parte da Europa ainda engatinhava. Séculos mais tarde, o Ocidente acrescentou por conta própria uma palavra ao credo comum, o Filioque, afirmando que o Espírito procede do Pai e também do Filho, sem consultar as igrejas do Oriente que haviam redigido o texto com ele. O resultado foi 1054. As três grandes famílias cristãs não concordam sequer quanto à letra do credo que as une.
A Reforma, ao contrário do que se imagina, não tocou nesse arcabouço. Lutero e Calvino eram calcedonianos convictos. A Confissão de Augsburgo abre confirmando Niceia; os Trinta e Nove Artigos anglicanos recebem os três símbolos antigos; Westminster repete a doutrina trinitária sem hesitar. A briga do século XVI foi sobre justificação, autoridade e sacramentos, não sobre a homoousía. Trento e Augsburgo se odiaram professando cristologia rigorosamente idêntica.
Conferido o que se exige, vale conferir o que se diz. Não está no credo que Deus escreve certo por linhas tortas, provérbio português que a devoção promoveu a versículo. Não está no credo que Deus não dá fardo maior do que se possa carregar, leitura torta de um texto paulino que fala de provação e não de luto. Não está no credo que o céu ajuda quem se ajuda, sentença de um fabulista francês. Não está no credo que os mortos viram anjos, criaturas de outra ordem em qualquer antropologia cristã minimamente cuidadosa. Não está no credo o universo conspirando a favor de ninguém. Não está no credo aceitar Jesus no coração.
Esta última merece nota. O chamado ao altar, com música ao fundo e mãos erguidas, é invenção do século XIX americano. Charles Finney popularizou o banco dos ansiosos nas queimadas religiosas do interior do estado de Nova York, região sobre a qual já escrevi noutro lugar, e converteu a conversão em decisão datável, com hora marcada e testemunhas. Nenhum concílio jamais exigiu isso de ninguém. Quinze séculos de cristãos morreram sem nunca ter levantado a mão.
O inventário do que entrou sem convite é longo. O purgatório como lugar geográfico é construção latina dos séculos XII e XIII, e Jacques Le Goff mostrou como o substantivo nasceu bem depois do adjetivo. O inferno em andares é de Dante, não de Jesus. A maçã do Éden é trocadilho latino entre malum, o mal, e mālum, a fruta. Os magos não são três, não são reis e só ganharam nomes numa compilação latina tardia. A reencarnação, hoje professada com naturalidade por multidões de batizados, foi expressamente anatematizada quando o século VI condenou a preexistência das almas atribuída a Orígenes.
O caso mais grave, porém, é o mais discreto. Oscar Cullmann perguntou, em 1956, se a esperança cristã é a imortalidade da alma ou a ressurreição dos mortos, e respondeu com o Novo Testamento inteiro na mão: são coisas opostas. A alma imortal que se desprende do corpo na hora da morte é Platão. A ressurreição da carne é apocalíptica judaica, nasce em Daniel 12 sob a perseguição de Antíoco IV e afirma que a injustiça não terá a palavra final porque corpos concretos de mártires concretos serão levantados do pó. Recito há décadas um credo que confessa a ressurreição da carne e sepulto meus mortos com discursos platônicos sobre almas que partiram — a contradição não é dos outros.
Assim vão sumindo, sem debate e sem ata, os elementos judaico-cristãos mais duros de digerir. A espera da parusia, palavra grega que significa chegada, a vinda do Cristo que encerraria a história e organizava a vida das primeiras comunidades, sobrevive em duas versões igualmente constrangedoras: o literalismo dos mapas proféticos e o silêncio embaraçado dos púlpitos instruídos. A descida aos infernos virou nota de rodapé. O juízo virou má educação. A apocalíptica, cuja palavra de origem, apokálypsis, significa retirar o véu e não fim do mundo, era literatura de resistência escrita por perseguidos e virou entretenimento de catálogo. Do Cordeiro que vence a Besta pela recusa da violência restou o merchandising da Besta.
É neste vazio que o vocabulário espírita fez sua obra silenciosa. Allan Kardec codificou o Livro dos Espíritos em 1857 e o Evangelho segundo o Espiritismo em 1864, e foi honesto quanto ao que propunha: Jesus como modelo e guia da humanidade, espírito de pureza incomparável, mestre insuperável de moral. Não Deus. Não consubstancial ao Pai. Não segunda pessoa da Trindade. Concílio algum reconheceria ali um cristão, e Kardec jamais pediu esse reconhecimento.
Curiosa, contudo, é a aritmética. O Censo de 2022 contou 1,8% de espíritas, em leve queda desde 2010, contra 56,7% de católicos e 26,9% de evangélicos. A menor das grandes correntes brasileiras forneceu o léxico do país inteiro. Missão, provação, resgate, evolução, energia, plano espiritual, espírito de luz. Fala assim o pentecostal no velório do vizinho; fala assim a senhora do terço; fala assim o ateu quando perde o pai.
O paradoxo fica mais divertido quando se amplia a mesa. O muçulmano confessa o nascimento virginal de Jesus, chama-o de Messias, espera o seu retorno e recusa, com todas as letras, a crucificação e a Trindade. O pastor protestante formado numa boa faculdade duvidará do nascimento virginal com serenidade e seguirá no púlpito no domingo. Pelo critério dos concílios, é o pastor que está em falta. Pelo critério do Brasil, é o muçulmano que é o estranho. Os dois critérios não se falam.
E há os que não querem critério nenhum. Danièle Hervieu-Léger descreveu a figura do peregrino, que circula entre tradições sem se filiar a nenhuma, ao lado da figura do convertido, que escolhe a filiação em vez de herdá-la. Os brasileiros sem religião, quase um décimo da população, em sua maioria não são ateus; são pessoas que rezam sem endereço fixo. O desencantamento anunciado por Weber não produziu um mundo sem deuses, produziu um mercado de deuses portáteis, com assinatura mensal, aplicativo de meditação e cristal na cabeceira. Gilberto Gil já cantou que falar com Deus custa silêncio, dor e solidão. Nada disso está à venda em plano anual.
Nada do que foi dito até aqui, e este é o ponto que mais importa, torna o cristianismo superior a coisa alguma. Os bispos reunidos naqueles concílios não coroaram uma religião; fincaram o marco de divisa de que falei no princípio. A fantasia de que exatidão doutrinária produz superioridade moral foi desmentida por quinze séculos de história cristã, e não é preciso ir longe nem recuar muito para colher exemplos. Houve inquisidores impecavelmente calcedonianos. Há santos anônimos que jamais souberam soletrar homooúsios.
Nem todo o que admira o Nazareno confessa o Cristo; nem todo o que confessa o Cristo imita o Nazareno.
Crer, no latim credere, guarda na raiz mais antiga a ideia de colocar o coração, de entregar em confiança aquilo que se tem de mais próprio. O credo, antes de ser lista de proposições a assinar, é gesto de entrega. As atas conciliares são o esqueleto; o coração é outra coisa. Um cristão que sabe exatamente o que professa e não sabe amar não passa de arquivista competente. Um espírita, um umbandista, um muçulmano, um judeu, um sem religião que ama concretamente o vizinho não precisa de crachá algum para ser gente inteira.
Por que insistir, então, na precisão? Por que não deixar que cada um chame de cristão o que bem entender?
Porque o diálogo inter-religioso só acontece entre quem conhece o tamanho da própria casa. Quem não sabe o que professa não dialoga, absorve. E quem absorve tudo termina sem nada para levar à mesa comum. Saber-se cristão segundo Calcedônia é saber-se limitado segundo Calcedônia, e é essa consciência do limite, não o delírio da totalidade, que permite olhar o outro sem medo.
Achar Jesus a melhor pessoa que já pisou na terra é uma boa opinião. Não é um credo. E o credo, por sua vez, nunca foi um mérito.
Que a mesa siga posta, e que nela caibam todos os que ainda têm coração para dar!
Prof. Ricardo Lengruber





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