top of page

A Tesoura e a Lâmpada



A letra mata, mas o Espírito vivifica.

2 Coríntios 3,6



Numa vitrine de museu, em Washington, repousa um livro de aparência modesta. Foi impresso em Londres, em 1807, para uso dos escravizados nas colônias britânicas do Caribe. Chamam-no hoje de Bíblia dos Escravos. Faltam-lhe páginas, e a falta não é acidente: suprimiu-se cerca de noventa por cento do Antigo Testamento e metade do Novo. O Êxodo desapareceu quase por inteiro, porque a travessia do mar não convinha a quem vivia do cativeiro alheio. Caiu também o versículo de Gálatas que proclama não haver mais escravo nem livre. Permaneceu, intacto e sublinhado pelo uso, o conselho aos servos: que obedecessem a seus senhores.


Antes da lupa e antes do púlpito, o primeiro instrumento daquela hermenêutica foi a tesoura.

Convém começar pelo nome. Bíblia vem do grego ta biblia, plural: os livros. A palavra remete a bíblos, o papiro, e ao porto fenício de Biblos, por onde ele circulava rumo ao mundo. Trata-se, portanto, de uma biblioteca: séculos de distância entre as estantes, gêneros diversos, línguas diversas, teologias em disputa. O latim tomou o plural por singular feminino, e o hábito fez o resto. Quando uma biblioteca vira um livro só, a conversa corre o risco de virar monólogo. Boa parte dos descaminhos começa nessa gramática.


Antes do livro, houve a voz. Cantos de colheita e de luto, memórias narradas junto ao poço e ao fogo, bênçãos, provérbios, gritos de profeta em praça pública. Gerações guardaram, selecionaram, costuraram. O exílio na Babilônia funcionou como oficina editorial: escribas deportados reuniram tradições dispersas para que um povo sem terra não ficasse também sem memória. Nada disso se fez sem intenção. Há textos que consolam, textos que fundam identidade, textos que legitimam reformas e cobram dízimos, textos que disciplinam corpos e altares. Todo texto nasce com endereço; ignorá-lo é o primeiro passo para entregá-lo ao destinatário errado.


E a biblioteca discute consigo mesma. Esdras e Neemias mandam embora as mulheres estrangeiras; o pequeno livro de Rute responde lembrando que a bisavó de Davi era moabita. Jonas amua porque Deus insiste em perdoar Nínive, a capital inimiga. Provérbios garante que o justo prospera; Jó e Qohélet erguem a mão para discordar. Já observei, noutro lugar, que essa contestação interna da teologia da retribuição é uma das glórias da Escritura: o cânon preservou, junto com a voz, o contraditório. A Bíblia se parece menos com um coro uníssono do que com uma assembleia.


Nenhum texto chega nu ao leitor; nenhum leitor chega vazio ao texto. Lemos a partir de um chão, de uma língua, de uma dor, de um interesse. Paul Ricoeur falava do mundo que o texto abre diante de si; cada leitor, porém, comparece trazendo o próprio mundo às costas. Quem lê? De onde lê? Contra quem e a favor de quem se lê? A história das interpretações da Bíblia é, em larga medida, a história dessas três perguntas.


Assim se leu para escravizar. A chamada maldição de Cam, que a rigor nem recai sobre Cam, mas sobre Canaã, seu filho, foi convertida em certidão teológica do tráfico negreiro, como se a pele africana carregasse uma maldição pronunciada por um patriarca recém-desperto da embriaguez. Púlpitos e confessionários repetiram a lição por séculos, deste lado do Atlântico inclusive, abençoando navios e senzalas. A tesoura de Londres tinha primas fluentes em português.


Assim se leu para silenciar. Eva foi promovida a ré universal, e o jardim, transformado em tribunal permanente contra as mulheres. Uma recomendação de 1 Timóteo, endereçada a uma comunidade específica com problemas específicos, virou mordaça de validade eterna. Há ainda o caso de Junia, saudada por Paulo como notável entre os apóstolos: copistas e tradutores posteriores, incapazes de admitir uma apóstola, rebatizaram-na Junias, no masculino, e foi preciso a crítica textual moderna para devolver-lhe o nome. Em O Legado dos Fragmentos procurei mostrar que Gênesis 2 e 3, lidos com vagar, não fundam a culpa da mulher; fundam a advertência contra o dedo que acusa.


Assim se leu para apedrejar. Sodoma virou sinônimo daquilo que o profeta Ezequiel não enxergou ali, pois, para ele, o pecado da cidade foi soberba, fartura de pão e indiferença ao pobre. As leis de santidade do Levítico, escrevi certa vez em trabalho acadêmico a elas dedicado, obedecem a uma lógica antiga de pureza e separação: um povo pequeno, cercado de impérios, demarcando fronteiras no próprio corpo para não se dissolver na história. Arrancadas desse chão, viraram pedra de mão. Registre-se ainda que a palavra homossexual só entrou nas traduções bíblicas em 1946, numa versão norte-americana, dezenove séculos depois de Paulo. O anacronismo fez carreira e fez vítimas.


Que evangelho é esse que precisa de tesoura, de mordaça e de pedra?

A mesma biblioteca, porém, jamais se deixou sequestrar por inteiro. Assim também se leu para libertar. O Êxodo, riscado da Bíblia dos Escravos, ressuscitou nos spirituals, na boca de um povo que entendia de faraós; atravessou senzalas e quilombos, onde o Deus da travessia nunca foi confundido com o deus dos feitores. Os profetas ergueram a voz contra a balança adulterada e o salário retido. Jesus, na sinagoga de Nazaré, escolheu Isaías para o primeiro sermão: boas-novas aos pobres, liberdade aos cativos. Nas comunidades eclesiais de base, Carlos Mesters ensinou o povo a ler a Bíblia como espelho da vida, texto e realidade iluminando-se mutuamente. Ivone Gebara e tantas outras releram as Escrituras com olhos que o silêncio não domesticou, reencontrando ali as Marias de força e de raça que a nossa canção soube nomear. Ler, nessas mãos, foi sempre gesto de levante.


É aqui que o ofício pede rigor. Exegese, no grego, é conduzir para fora: extrair do texto o que ele diz, no seu chão e na sua língua. O avesso tem nome, eisegese, o contrabando que introduz no texto aquilo que se deseja ouvir dele. Hermenêutica, por sua vez, evoca Hermes, o mensageiro que atravessa fronteiras entre mundos. A exegese é disciplina de humildade: gramática, história, formas literárias, paciência de escuta. A hermenêutica é coragem de travessia: consentir que o texto, uma vez ouvido, leia a nós e ao nosso tempo. Sem exegese, a hermenêutica delira; sem hermenêutica, a exegese emudece.


A teologia, quando esquece esse ofício, converte a Bíblia em pedreira de onde se extraem provas para teses já prontas, versículo avulso servindo de munição. O literalismo que se apresenta como fé antiga é invenção recente: reação do começo do século XX, batizada pelos folhetos The Fundamentals, mais filha do racionalismo moderno do que dos antigos leitores. Agostinho, no crepúsculo do século IV, propunha critério mais simples e mais exigente: quem lê a Escritura e não edifica o duplo amor, a Deus e ao próximo, ainda não a compreendeu. A caridade como prova real da interpretação. Sola scriptura, proclamou a Reforma; a Escritura, contudo, nunca está sozinha: chega sempre acompanhada de quem a lê.


No Brasil de hoje, a Bíblia sobe aos palanques, jura sobre mesas de plenário, vira slogan de campanha e argumento de tribuna. O Estado é laico justamente para que ela não precise de cargo; livro nenhum governa bem quando vira cetro. Nos hospitais, nos presídios, nas periferias, outra cena se repete: mãos calejadas abrem o mesmo volume à procura de pão e de amanhã. Há duas maneiras de segurar esse livro — como quem empunha um porrete ou como quem reparte um pão.


Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, cantou o salmista.

Lâmpada não é holofote de tribunal nem farol de comício; é luz breve, que alcança apenas o passo seguinte e, por isso mesmo, obriga a caminhar. Entre a tesoura e a lâmpada, cada geração escolhe de novo. Que a biblioteca volte a ser plural, a mesa volte a ser comum, a letra volte a servir à vida.


A letra, sozinha, mata. O Espírito vivifica!


Prof. Ricardo Lengruber



 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page