A prova que precisa de aprovação
- Ricardo Lengruber

- 6 de ago.
- 7 min de leitura
uma crítica ao Ideb, do Rio de Janeiro a Nova Friburgo
A crise da educação no Brasil não é uma crise, é projeto.
(Darcy Ribeiro)
A notícia é desta quarta-feira. A rede estadual do Rio de Janeiro teve, em 2025, a pior aprendizagem do ensino médio brasileiro. Caiu pela terceira medição seguida. Caiu ao menor patamar dos últimos dezesseis anos. E o Ideb do Rio subiu.
Como isso é possível? Pela fórmula. O Ideb, criado em 2007, nasce de uma multiplicação entre dois números. O primeiro mede a aprendizagem: é a nota dos alunos nas provas de Língua Portuguesa e Matemática do Saeb, o exame nacional, convertida para uma escala de 0 a 10. O segundo mede o fluxo: é a taxa de aprovação, a fatia dos alunos que passa de ano. Um exemplo torna tudo visível. Uma rede em que os alunos sabem 5 e em que 80% são aprovados tem Ideb 4, porque 5 vezes 0,8 dá 4. Se essa mesma rede aprovar todos os alunos sem que ninguém aprenda nada a mais, o Ideb salta para 5. A nota subiu um ponto inteiro. O conhecimento não se moveu um milímetro.
Foi esse o caminho do Rio. Em 2025, o estado autorizou o aluno a ser reprovado em até seis disciplinas e, ainda assim, passar de ano. A aprovação saltou de 80% para 91% em dois anos. A aprendizagem, medida pela prova, caiu para 4,04, a menor do país. A conta é transparente: 4,04 vezes 0,91 dá os 3,7 divulgados, um índice 0,4 ponto maior que o anterior e, ainda assim, o penúltimo do Brasil, à frente apenas do Distrito Federal. A conta fecha. A escola, não.
A fórmula não nasceu ingênua. Quando o Inep a desenhou, a aprovação entrou como antídoto: impedia que uma rede melhorasse suas médias reprovando e afastando os alunos mais fracos, até restarem na sala apenas os que já sabiam. O antídoto virou atalho. O Pará descobriu primeiro: permitiu reprovação em cinco disciplinas, derrubou a repetência de 11% para 0,7% em um único ano e saltou da penúltima para a sexta posição do ranking. Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Paraíba foram além e fixaram o limite em seis. Isso não é política pedagógica. É engenharia de indicador.
Há meio século o psicólogo Donald Campbell avisou: quanto mais um número é usado para premiar e punir, mais ele será manipulado, e mais corromperá aquilo que deveria medir. Os economistas dizem o mesmo com a lei de Goodhart: quando a medida vira meta, deixa de ser boa medida. O índice foi criado para servir à escola — e a escola passou a servir ao índice.
As críticas dos estudiosos brasileiros ao Ideb não são de hoje, e convém conhecê-las. José Francisco Soares, que presidiu o próprio Inep, demonstrou num estudo de 2013 que a fórmula mistura duas grandezas distintas numa combinação arbitrária: o mesmo Ideb pode nascer de uma escola que ensina muito e aprova pouco ou de uma escola que ensina pouco e aprova muito, e o número final não distingue uma da outra. Por ser uma média, o índice também esconde a desigualdade interna: uma escola pode subir de nota elevando apenas seus melhores alunos e deixando os demais para trás, e o gráfico aplaudirá. Soares lembrou ainda o que os rankings preferem ignorar: o resultado de uma escola mede tanto o seu ensino quanto o seu público. Sem considerar o nível socioeconômico dos alunos, comparar a escola do bairro rico com a escola da periferia não é avaliar; é premiar o endereço.
Luiz Carlos de Freitas, da Unicamp, apontou o outro lado do problema: não o que o índice deixa de ver, mas o que ele faz com a escola. Quando o número vira política de responsabilização, com bônus salariais, rankings publicados e pressão sobre diretores, o currículo encolhe até caber na prova. O Saeb mede Língua Portuguesa e Matemática; ciências, história, geografia, artes e educação física viram tempo perdido aos olhos do gestor apressado. Freitas chamou os entusiastas desse modelo de reformadores empresariais da educação e documentou seus efeitos: treinamento para o teste, competição entre escolas e até a exclusão silenciosa dos alunos mais fracos no dia da avaliação. A prova, ademais, tem limites próprios, que o Inep hoje reconhece: é toda de múltipla escolha, incapaz de medir escrita, argumentação ou pensamento autoral, e não custa nada ao aluno que a responde, embora custe tudo à escola que a recebe. Essa assimetria é um convite permanente ao jogo. Nos Estados Unidos, Diane Ravitch, que ajudou a construir uma política semelhante, dedicou a última parte da vida a desmontá-la, com um argumento que o Rio acaba de confirmar: a pressão do teste não melhora o ensino; melhora a aparência do ensino.
E Nova Friburgo? A pergunta me diz respeito duas vezes: como morador e como conselheiro municipal de educação. A rede municipal responde pela educação infantil e pelo ensino fundamental; o ensino médio pertence ao estado. Os números de 2025, publicados pelo Inep nesta quarta-feira, trazem boa notícia, e boa notícia também se examina. Nos anos iniciais, do 1º ao 5º ano, o Ideb friburguense subiu de 6,0 para 6,6, e a cidade passou da 17ª para a 10ª posição entre as 92 redes municipais fluminenses. Nos anos finais, do 6º ao 9º, subiu de 4,6 para 5,4, saindo da 33ª para a 9ª posição. São os melhores resultados de toda a série histórica da rede, iniciada em 2005. O velho degrau entre o 5º e o 9º ano não desapareceu, mas desta vez as duas etapas subiram juntas.
Apliquemos então, em casa, o exercício que este texto propõe: decompor o índice. Toda nota do Ideb responde a duas perguntas, que precisam ser feitas em separado. Quanto os alunos aprenderam, segundo a prova? Quantos foram aprovados, segundo o Censo Escolar? Nos anos iniciais, a aprendizagem subiu de verdade: a nota padronizada foi de 6,7 para 7,1, acima até do patamar anterior à pandemia; a aprovação também cresceu, de 89,7% para 93,4%. Feita a conta, dos 0,6 ponto ganhos, cerca de 0,4 veio da prova e 0,2 do fluxo. Nos anos finais, a nota padronizada foi de 5,4 para 5,9 e a aprovação saltou de 84,9% para 91,6%: dos 0,8 ponto conquistados, cerca de 0,4 veio da prova e 0,4 da aprovação. Há, portanto, o que celebrar e o que vigiar. Celebrar, porque as crianças friburguenses sabem mais do que sabiam há dois anos, e isso nenhuma portaria fabrica. Vigiar, porque a aprendizagem dos anos finais ainda não voltou ao nível de 2019, e seria tentador completar a subida pelo caminho barato que o estado acaba de exibir ao país.
Os bons números têm rosto. No início deste ano, seis escolas municipais de Friburgo, a Cecília Meireles, a Dante Laginestra, a Jardel Hottz, a Ruy Sanglard, a Miguel Raymundo Bittencourt e o CEFFA Rei Alberto I, foram reconhecidas pelo Ministério da Educação pelos resultados alcançados no Censo e no Ideb. A rede sabe ensinar quando encontra condições. Mas uma urgência permanece, e os rankings a escondem: o estudante que conclui o 9º ano numa escola municipal de Friburgo entra, no ano seguinte, na rede estadual que acaba de registrar a pior aprendizagem do país. Na própria cidade, a nota de aprendizagem da rede estadual nos anos finais caiu de novo em 2025, enquanto a municipal subia. O fundamental é o último trecho do caminho em que a cidade ainda responde pelos seus filhos. Cada décimo de aprendizagem real conquistado ali não é estatística: é a bagagem com que o adolescente enfrentará a travessia mais difícil do sistema.
Aprovar é atestar que alguém foi provado. Aprovação sem prova é atestado sem lastro. O boletim declara um valor que o caderno desmente. Quem paga a diferença? Não paga o gestor que exibe o gráfico ascendente em ano eleitoral. Paga o jovem da escola pública, quase sempre pobre, que recebe o papel e descobre depois, no vestibular, no emprego, na leitura de um contrato, tudo o que a escola lhe reteve enquanto lhe entregava o diploma. Que generosidade é essa, que concede a série seguinte e nega o verbo ler?
Não se trata de demonizar a progressão parcial. A velha dependência tem lugar na pedagogia: há alunos que tropeçam numa disciplina e caminham bem nas demais, e retê-los um ano inteiro por uma fração do currículo é desperdício. Tampouco se trata de pedir de volta a reprovação em massa, que nunca ensinou ninguém e sempre empurrou os mais pobres para fora da escola. Entre reter e fingir existe um terceiro caminho, e ele se chama ensinar de novo: recuperação real, reforço com professor e hora marcada, avaliação que devolve ao aluno o mapa do que falta. O Paraná, que não flexibilizou regra alguma, lidera hoje a aprendizagem e o Ideb em todas as etapas. A escolha entre aprovar sem saber e reprovar sem piedade é um falso dilema, e o falso dilema costuma ser a desculpa de quem já escolheu o caminho barato.
O quadro nacional pede leitura sóbria. O Brasil subiu em todas as etapas, e o Inep celebra os maiores valores da série histórica. É verdade, e não é pouco depois da pandemia. Mas a aprovação nacional também subiu em toda parte: 98,3% nos anos iniciais, 96,2% nos finais, e um salto de 91,3% para 94,8% no ensino médio, cuja nota, 4,5, segue abaixo até da meta fixada para 2017. Parte do avanço é aprendizagem; parte é portaria. Cabe a cada rede, e a cada conselho, dizer qual parte é qual. O novo Plano Nacional de Educação, sancionado neste ano, abandonou o Ideb como referência de metas e passará a contar quantos estudantes alcançam os patamares básico e adequado de aprendizagem; o Inep promete reformular a prova, incluir questões dissertativas e rever a fórmula, acolhendo parte das críticas que a academia faz há duas décadas. Que venha a reforma. Nenhuma fórmula, porém, resiste a uma administração disposta a enganá-la. Antes de trocar a balança, é preciso querer o peso justo.
O Rio de Janeiro não precisava de 0,4 ponto. Friburgo não precisa da nona posição: precisa que ela seja verdadeira. Ambos precisam de leitores. O resto é balança enganosa.
Prof. Ricardo Lengruber





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