Fé Cristã e Direitos Humanos


Aula Inaugural no Seminário Metodista César Dacorso Filho

Rio de Janeiro – Agosto de 2017

Sobre a Escritura - Atualidade dos símbolos e política da fé

“Quem sobrevive não é o rei.”

Os judaítas exilados na Babilônia estão entre os mais criativos escritores da história. Sabem conjugar simbologia, política e fé.

Primeiro, afirmaram que fora Deus quem criou o Sol e a Lua. E, antes desses, criou a Luz. De uma semana de sete dias, no princípio dela criou a Luz, no meio (no quarto dia) criou os luminares e no sétimo e último dia descansou.

Esse tipo de afirmação para quem oprimia em nome de seus deuses, reapresentados pelo sol e pela lua, por exemplo, é uma potente afirmação política. Disfarçada pela guerra de deuses, o que está em jogo é a liberdade das pessoas.

Depois, ao recontarem a antiga história do dilúvio (presente em tantas civilizações, inclusive na babilônica), fizeram questão de registrar que o sobrevivente fora Noé.

Quem sobrevive não é o rei. O que permanece vivo e com quem se estabelece uma nova aliança de fidelidade entre deus e a humanidade é um homem simples do povo. Sua patente não é o sangue real, antes seu temor e fidelidade à Deus.

Esse é o tipo de história que vira de cabeça pra baixo a lógica do establishment.

Por fim, ao narrarem a história de uma gente que desejava visibilidade com a construção de uma alta torre, os escritores bíblicos põem em discussão os totalitarismos. Uma única língua é um problema a ser combatido. A pluralidade é abençoada.

A Bíblia abre suas milhares de páginas com narrativas mais que simbólicas, revolucionárias. E três mensagens ganham destaque e dão o tom com o qual seguirão as outras tantas narrativas.

1. Deuses só devem ser respeitados se não servem como instrumento de opressão. E se se dão o espaço do descanso. Um deus digno é o que subverte a lógica do trabalho opressor e humaniza as relações. Sol e lua (e tudo mais que exista - inclusive o ser humano) é criatura. Sua dignidade é saber seu lugar na criação. Por isso, há uma igualdade na radical na criação. Nada nem ninguém é maior ou menor.

2. Por pior que seja a experiência, mesmo que seja a de um dilúvio avassalador, a salvação virá da fidelidade dos invisíveis. Quem constrói a história também a redimirá. Por isso, são Deus e Noé os responsáveis pela nova era da criação. A força vem dos fracos.

3. Se é verdade que há um desejo permanente de controle total sobre tudo e todos, é verdade também que está no cerne da criação a confusão, a pluralidade. Uma mistura premeditada de línguas e culturas que, além de enriquecer a humanidade, inviabiliza projetos de opressão. O diálogo é o caminho da salvação.

Como um clássico, a Bíblia segue interpelando a história. E sempre dizendo algo relevante e atual. Mensagens que transbordam do universo religioso e alcançam a vida concreta de pessoas reais.

Ética e Diretos Humanos - valores individuais e coletividade

“Os olhos são a lâmpada do corpo. Portanto, se teus olhos forem bons, teu corpo será pleno de luz.”

Os tempos difíceis que vivemos polarizaram tudo. Até os grandes avanços que, a duras penas, conseguimos lograr estão sendo questionados de todos os lados. Instalou-se a falsa ideia de que quem defende determinadas bandeiras está de um lado e quem defende outras está de outro lado de uma disputa. Nós e eles.

Isso ganhou maior expressão no debate cada vez mais acalorado sobre direitos humanos, como se essa “bandeira” fosse partidária. Não é. Não pode ser colocada como tal, sob pena de perdermos todos.

Não bastassem as discussões teóricas e a troca ríspida de opiniões, os atos de violência (em todas as suas expressões) estão cada vez mais frequentes, sim. A sensação que se tem – pelo menos por conta da vitrine que se criou com as redes sociais – é que a humanidade está mais intolerante do que antes. Estamos violando aceleradamente direitos humanos.

É por isso que vale a pena entender que “direitos humanos” não são pauta de um grupo ideologicamente identificado com a esquerda, por exemplo. Se assim tem sido é porque há um fechamento de outros grupos a demandas que estão para além da agenda apenas política.

Direitos humanos são os direitos básicos que devem ser perseguidos, defendidos e garantidos para todos os seres humanos.

São direitos civis e políticos, que têm a ver com o que está fundamento no princípio da liberdade. São direitos econômicos, sociais e culturais fundamentados no princípio da igualdade de oportunidades. E são ainda direitos coletivos mais difusos, que se fundamentam no valor fraternidade.

A expressão lapidar de todos esses direitos está na Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”

A ideia de “direitos humanos” tem origem no conceito filosófico de direitos naturais – na ideia de que, pelo ‘simples’ fato de a pessoa ser humana, ela é inerentemente portadora de direitos invioláveis. Trata-se de uma “sacralidade” (não religiosa, necessariamente) do ser humano.

O Estado, em tese, deveria existir para garantir esses direitos. Mas como, em geral, não o faz na mesma proporção das violações, e como a maioria das vítimas são os mais “fracos” na sociedade, a bandeira a se levantar deve ser a de garantia da dignidade. O que se deve ter claro, nessa questão, é que quando um tem seu direito violado, é o direito de todos que está ameaçado.

É estranho, ainda, que determinados setores da sociedade (que, em teoria, defendem bandeiras ligadas ao “ser humano”, à “família” e ao “bem”) se alinhem politicamente com grupos muito reacionários em termos de garantia e ampliação de direitos. Há quem, ao mesmo tempo, seja capaz de lutar contra as políticas públicas sobre o aborto, por exemplo, mas defende o direito de todo cidadão andar armado. Ou quem, nesses mesmos casos, concorde com a diminuição da maioridade penal.

É claro que a avalanche de notícias sobre crimes, corrupções, injustiças e toda sorte de violências a que somos submetidos rotineiramente fazem com que sentimentos mais intensos de vingança (ou, ao menos, de “endurecimento” das leis) venham à tona. Mas é exatamente por conta desse cenário que cabe a reflexão sobre a ampliação de direitos. Não apenas no papel, mas com efetividade na vida concreta das pessoas, especialmente dos mais suscetíveis à violação dos mesmos.

A questão deve ser enfrentada sob duas óticas: pela legalidade e pela humanidade.

Direitos devem estar garantidos em leis e as instituições da sociedade devem existir para fazer com os mesmos sejam efetivamente respeitados. Temas como drogas, homoafetividade, aborto, cotas, bioética, inteligência artificial e outras questões do nosso tempo precisam ser vistas sob a lógica da coletividade, a despeito das “opiniões” pessoais.

Mas, antes disso, é o senso de “humanidade” que deve fundamentar essa visão de mundo. A maneira como enxergamos o ser humano – especialmente o outro, o diferente, o “tu” – é que nos inspira a agir de uma ou de outra forma. “Os olhos são a lâmpada do corpo. Portanto, se teus olhos forem bons, teu corpo será pleno de luz.”

Ética, Diretos Humanos e Evangelho

“Sai da tua casa e vai para uma terra que te mostrarei.”

Quando aquele rapaz resolveu que devia sair de casa, ele estava movido por uma força que mora dentro de todo ser humano. Um desejo que incomoda e faz a gente ousar, arriscar. Por isso, mesmo sem ter o direito antecipado à herança paterna, pediu ao pai sua parte do inventário e lançou-se numa aventura bem longe da vista e dos cuidados de seus queridos.

Fez como fizeram tantos antes e depois dele. “Sai da tua casa, da tua parentela, e vai ...”.

Ele foi!

Foi, acima de tudo, movido pelo sonho de independência e de autonomia. Sonho que se aloja no coração de cada indivíduo, mas que em poucos consegue desabrochar de maneira plena, empreendendo uma caminhada concreta.

Deixou muito para trás e levou muito consigo. Porém, havia muito pela frente!

Nessa mescla de memória, realidade e esperança estava calcada sua façanha. Sair de casa é algo que exige gente destemida ou, o que não parece ter sido seu caso, atemorizada pela dureza da vida em casa.

Saiu e foi para longe. Longe da sua terra, longe da sua família, longe das suas histórias. Só não sabia que, de tão longe como para onde foi, estava se distanciando também de si mesmo.

Na verdade, aquele que vivia em casa era muito seguro de si e, como tal, ousado e destemido. Longe, para onde foi, descobriu que era como era porque havia muito sob seus pés; e um muito que o fazia ser quem era. Quando saiu, viu-se só e, assim, de destemido, descobriu-se temeroso e frágil.

É como se o menino que vivia em casa fosse apenas um ensaio ainda bravio do homem que prometia aflorar. Somente quando saiu de casa e somente diante da crueza da vida real é que passou a saber um pouco mais de si. “Caindo em si”, pensava na casa do pai e no quanto as coisas eram diferentes.

Às vezes, para saber mais sobre nós mesmos é preciso fazer uma viagem para bem longe. É preciso se distanciar do espelho para perceber que se trata apenas de uma imagem refletida. Os espelhos enganam muito. Mas enganam mais a quem está diante deles!

Longe, caído e depois de tudo ter perdido, resolveu-se por um novo ato de ousadia e coragem: voltar para casa. Uma aposta na generosidade de quem ficou, mas, antes de tudo, a convicção de que os sentimentos e valores que lutavam dentro dele (e que o impulsionavam agora a voltar) tinham sido cultivados ainda em casa, desde os primeiros passos junto do pai, da mãe, do irmão e dos outros.

É bem verdade, entretanto, que se sentia indigno do pai. Seu senso de justiça o fazia crer que a herança antecipada e a irresponsável gastança pelas terras distantes o faziam sem qualquer dignidade ou direito perante o pai. Sabia-se errado, mas resolveu voltar. E voltou!

E, aqui, um momento especialmente belo: o pai ainda o aguardava. Ao avistá-lo, saiu correndo para abraçar e beijar o filho há tanto desaparecido. O menino que voltava era bem menos altivo e prepotente como o que saíra de casa. Tratava-se, agora, de um ser acocorado pela pobreza e pela carestia.

Paradoxalmente, alguém cheio de honra. Um homem que corajosamente arriscou tudo e, mesmo fracassando, apostou na volta.

Na verdade, o que fora procurar longe de casa descobriu que, de fato, morava dentro de si mesmo e, portanto, em casa. Voltou porque, ao sair, estava em busca de sua própria casa. Foi para voltar!

Ao sair, pensava que, verdadeiramente, havia rompido com o passado e, mais, que as coisas e memórias do passado haviam rompido consigo. Equivocou-se porque o passado assume parcela de nossa carne e, em certo sentido, é inviolável.

A recepção foi especialmente calorosa. O envelhecido moço foi saudado por uma farta festa, com dança inclusive, porque estavam todos muito alegres e surpreendidos com a grata novidade pregada pela vida.Aquele que estava morto revivera!

O pai, além da festa, lhe calçou sandálias novas nos pés. As que o calçavam quando saíra de casa se gastaram com o tempo e pelas estradas distantes por onde pisou. O gesto paterno, todavia, extrapolou a substituição dos calçados. Sandálias são símbolos de homens livres. Calçar sandálias novas no jovem recém-regressado é o mesmo que lhe incentivar a sair de novo. Se não incentivar, ao menos lhe assegurar o sagrado direito de sair.

Para o pai, a beleza do regresso deveria ser coroada com a certeza de que o filho permaneceria exclusivamente por vontade e não por necessidade ou falta de opção. As sandálias são, concomitantemente, portas abertas para entrar e para sair de novo.

Todos em casa estavam felizes. Menos um. O jovem que saiu deixou um irmão mais velho para trás. Um rapaz embrutecido pela serenidade da casa do pai. Um homem ranzinza e cheio de defesa. Amargurado com o irmão ou, quem sabe, por causa do irmão. Uma pessoa triste!

Era ainda dia quando seu irmão chegara de volta. Ele ainda trabalhava no campo e, ao voltar para casa, percebeu uma movimentação diferente em casa; uma festa diferente da rotina da casa do pai. Teve medo de entrar. Chamou um criado e quis saber do que se tratava. Indignou-se!

Como seu irmão mais moço, experimentava uma crise de dignidade. Se o mais novo se via como indigno porque tinha um débito com seu pai, esse se enxergava credor do pai. Afinal, sempre trabalhara duro em casa e nunca tinha gozado de uma festa tão especial. Por que tanta honra para um desgarrado que prodigamente jogara tudo fora? Mais do que isso, na sua visão das coisas, um sujeito imoral que irresponsavelmente esbanjara as economias de uma família.

Quem fica em casa geralmente se ressente de não ter saído. Mas porque não saiu? Ou, porque não sai agora?

É verdade que há quem saia sem saber o destino a alcançar, mas sair supõe saber para onde ir. Quem estaciona em casa é porque, mesmo cultivando o desejo de ousar, ressente-se da falta de coragem, muitas vezes escondida sob o pseudônimo de “oportunidade”.

O irmão mais crescido era trabalhador e responsável, mas, em certo sentido, medroso. Medo é nome da força contrária que nos impede de caminhar.

Há culpa em não sair? Culpa de quem? Será algo relacionado à personalidade de cada um? Será o pai um castrador daqueles que inibem a ousadia dos mais jovens? Se assim o é, talvez o irmão mais novo, apercebido dessa característica paterna, decidira em sair exatamente para não se deixar crescer amargurado como ocorrera com seu irmão mais velho. Sabe-se lá!

A atitude do pai, todavia, revelou um homem disposto a contribuir com o crescimento dos filhos e, acima de tudo, desejoso de ajudá-los em seu auto-conhecimento. “Meu filho, tudo o que é meu, é teu!”

Quis ajudar seu primogênito ver que a festa se deu porque o mais novo fugira de casa. Ele esteve sempre em casa, ao menos, pela ótica do pai.

Por sua própria visão, o mais velho talvez estivesse enxergando que estava, na verdade, fora de casa. Ele trabalhava na roça quando seu irmão voltou e quando vira, de fora, a festa preparada pelo pai. A despeito de estar fisicamente perto do pai, seu espírito estava em outro lugar, perdido entre o desejo ousado e coragem cerceada. Não se via como filho e, por isso, não sabia que o que ao pai pertencia a ele também lhe era de direito. Por isso, suas palavras são de um serviçal injustiçado pelo patrão.

Conhecer o seu lugar é um ingrediente valioso para saber aonde ir. Tão importante quanto saber o destino é conhecer o ponto de partida.

O itinerário do mais jovem ajuda a compreender que o percurso de quem busca realização e auto-conhecimento (ou, simplesmente, felicidade) é como a rota de um bumerang. Vai e volta. Vai para voltar.

O jovem que saiu descobriu longe o valor da casa de sua infância. O que ficou descobriu que o pai não é um patrão. A indignidade experimentada pelos dois foi suprimida pela generosidade de um pai pouco preocupado com justiça; um pai atento a digna peregrinação de dois jovens em busca de sentido para vida.

Voltar é especialmente importante, mas depende impreterivelmente de uma saída corajosa. Isso é algo um pouco além do simples direito de ir e vir. Isso se chama “gratuidade”.

Conclusão

As bases de uma sociedade de Direitos Humanos está também numa leitura da Bíblia feita a partir das pessoas em suas condições concretas de vida – política, sociedade e cultura.

Reforçando:

1. Há uma igualdade na radical na criação. Nada nem ninguém é maior ou menor.

2. Direitos não são “favores” - devem ser vistos sob a ótica da legalidade e da humanidade.

3. A Graça é o fundamento dos Direitos Humanos para todas as pessoas, indistintamente.

Cabe a Igreja ser a porta voz dessa boa notícia – “Ide e anunciai o Evangelho”.

#ricardolengruber

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