Sobre beleza e enigma


Meditações sobre a Palavra

Palavra prima

Uma palavra só, a crua palavra

Que quer dizer

Tudo

Anterior ao entendimento, palavra

Palavra viva

Palavra com temperatura, palavra

Que se produz

Muda

Feita de luz mais que de vento, palavra

Palavra dócil

Palavra d'água pra qualquer moldura

Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa

Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha

Matéria, minha criatura, palavra

Que me conduz

Mudo

E que me escreve desatento, palavra

Talvez à noite

Quase-palavra que um de nós murmura

Que ela mistura as letras que eu invento

Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa

Não de fazer literatura, palavra

Mas de habitar

Fundo

O coração do pensamento, palavra. (Chico Buarque)

Toda palavra é profecia. O ato de escrever é uma arte!

Sim, trata-se de obra artística a literatura. Qualquer literatura. E isso em qualquer sentido que se entenda o termo.

Não são artistas aqueles que conseguem ludibriar seu público com palavras e gestos encantadores, inebriantes?

Não obstante a arte da ilusão, literatura é obra de arte por algumas outras razões. A primeira porque obra é algo realizado apenas por quem consegue transformar. Os artistas plásticos, escultores e arquitetos nos ensinam quão belo é projetar. Vislumbrar antes de existir a obra acabada. Ou melhor, ver antes da obra pronta, mas nunca acabada. A completar-se na visão dos outros; a plenificar-se no deleite do próximo.

Uma outra razão se deve ao fato de que a arte é algo estranho a esse mundo. Você já percebeu que os artistas estão sempre na contra-mão da história?

Há uma tela de Edward Munch chamada O Grito. Enquanto as superpotências do mundo afirmavam-se pela força, pelas armas e pelo ‘progresso’, o artista gritava pelos sons das cores e chocava os modernos tanques da Segunda Guerra e os poderosos aviões de combate. Interessante: os aviões caíram, os tanques enferrujaram, os soldados tornaram-se anônimos, mas Munch continua gritando.

Ludwig van Beethoven, quando se descobriu surdo, passou a compor como ninguém mais faria igual. Seu lamento, sua dor, suas paixões e sua bravura constroem verdadeiras casas para se morar. É como se pudesse voltar para aquele lugar de onde nunca deveríamos ter saído. Os sons de Beethoven são imagens pintadas na alma. Acho que foi por isso que a NASA, quando enviou uma sonda para o universo sideral, sem rumo e sem destino, levando consigo informações sobre essa pequena poeira celeste chamada Terra, escolheu a Nona Sinfonia para exemplificar o que chamamos de Música. Beethoven morreu sem ouvi-la, mas não sei se alguém conseguiria viver sem ouvi-la. Parece que ela sempre existiu.

Quando Michelangelo esculpiu o Moisés, ele fitou-o e disse-lhe: ‘Parla!’

O artista só consegue obrar o que tem vida. Não porque ele seja capaz de fazê-la. Mas porque é alguém que consegue mergulhá-la.

As palavras são mais do que meras portadoras de significado. Por meio delas, conseguimos tornar a aparente desorganização das coisas em algo minimamente compreensível e, por conseguinte, domável.

As palavras são rédeas pelas quais tratamos de dirigir a realidade das coisas. As palavras não são apenas portadoras de sentido, antes, e ao mesmo tempo, são capazes de outorgar sentido àquilo a que se referenciam.

Não é muito claro se a realidade precede à palavra e a ela confere o significado que esta pretende transmitir ou se a palavra antecede ao mundo e o torna inteligível; mas qualquer que seja o caso, o fato é que são as palavras que concedem a quem as pronuncia e a quem as ouve a capacidade de habitar um mundo e nele encontrar sentido.

Mesmo entre os grunhidos dos nossos ancestrais mais distantes, já estava presente essa busca por fazer a realidade circundante menos selvagem. As pinturas de Lascaux, entre tantos exemplos, revelam que desde há muito tempo a busca humana por significar tem por instrumento essencial a palavra, mesmo que sob códigos ainda muito incipientes.

Essa é razão pela qual a Bíblia, ao menos em dois momentos angulares, faz referência à palavra. A Palavra pela qual o mundo fora criado e a Palavra que se fez carne e armou uma tenda entre os homens. Na narrativa da Criação, em Gênesis 1, “disse Deus: haja luz; e houve luz!” No evangelho de João, capítulo 1, há uma longa reflexão sobre o fato de a mesma palavra criadora – logos – ser aquela que ilumina o mundo e mora entre os homens.

Acho que era por essa mesma razão que os hebreus, quando explicavam suas origens, diziam que Deus criou o mundo. O verbo criar (bara’), aqui, tem como sujeito o próprio Deus. Qualquer obra humana nada mais é que a participação na criação divina.

O profeta, por exemplo, é um artista por causa disto. Profetas, poetas são capazes de professarem-se ao mundo, revelarem-se. São capazes de deixar sua alma à flor da pele. Parafraseando o Chico, ser profeta é

não ter certeza e nunca ter, não ter conserto e nunca ter, não ter tamanho ... é viver nas idéias dos amantes, e cantar como os poetas mais delirantes e jurar como os profetas embriagados ... é viver nas fantasias dos infelizes ... é não ter vergonha, não ter juízo ... em todos os sentidos ... é o que não faz sentido.

Os profetas são cozinheiros para os paladares mais refinados. Cozinham o arroz e feijão do cotidiano com sabores de mel, ou, mui constantemente, de fel. Temperam com sorrisos de esperança molhados pelas lágrimas da indignação e assam suas palavras no forno do Tempo.

A máxima cristã, sem a qual o Cristianismo perde sua essência, é a de que Jesus é Deus e, como tal, criador salvador de tudo e todos. Mas é curioso que o mesmo Deus que cria pela Palavra, Ele próprio é a Palavra.

Isso sem fazer maiores alusões à Bíblia como Palavra de Deus. Uma forma própria de a divindade judaico-cristã se comunicar com sua criação filial. Deus é, antes de tudo, comunicação. Tornar comum entre dois lados o que parece estranho e diferente entre ambos.

O mesmo propósito que há nas palavras ordinárias do dia-a-dia mora também na Palavra suprema que cria e resgata Tudo. Entre Deus e o Mundo não há mais um abismo intransponível; o que há é o esforço da comunicação, do diálogo, do encontro entre diferentes.

Por meio da Palavra, a Teologia judeu-cristã conseguiu exprimir a absurda diferença entre Deus e os homens, mas, ao mesmo tempo, e por paradoxal que seja, a mais profunda solidariedade e comunhão entre os dois.

O totalmente Outro é, agora, por meio da Palavra, um Próximo, semelhante.

É curiosa, ainda, na segunda narrativa do livro de Gênesis, a ordem do Criador para que o ser humano criado nomeasse o restante do mundo criado. (Lembro-me do filme “Deus é brasileiro” dirigido por Cacá Diegues: numa passagem em que o personagem Taoca caminha com Deus por uma cidade à noite e são surpreendidos por uma vaca que passeia pelas ruas, Taoca diz “isso é uma vaca”, ao que Deus retruca “eu sei, fui eu quem a criou!”, e Taoca, em tom espirituoso, mas profundamente teológico, finaliza “mas fomos nós quem a chamamos assim”.)

A palavra que, ao mesmo tempo, distancia e aproxima (e que é instrumento no gesto criador divino) é emprestada ao ser humano para sua empreitada de nomear e significar seu jardim recém criado. Essa aparente contradição revela que a Palavra parece ter vida própria ou, então, que não pertence a esse ou aquele.

E aqui moram os pilares sobre os quais se edifica o texto em geral, mas especialmente a literatura bíblica: a renúncia, a denúncia e o anúncio.

Semelhante aos Poetas, os Profetas são inveterados profissionais da renúncia. Diferente das mãos lavadas de Pilatos, a renúncia profética/poética está na mais absurda e ácida constatação da solidão.

Elias quis a morte porque já não sabia mais que caminho tomar. Engraçado: quis a morte para salvar a vida!

Temendo, pois, Elias, levantou-se, e, para salvar sua vida, se foi, e chegou a Berseba, que pertence a Judá; e ali deixou o seu moço. Ele mesmo, porém, se foi ao deserto, caminho de um dia, e veio, e se assentou debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte e disse: Basta; toma agora, ó SENHOR, a minha alma, pois não sou melhor do que meus pais. Deitou-se e dormiu debaixo do zimbro. (I Rs 19, 3-5).

Sören Kierkegaard experimentou algo semelhante, mais de uma maneira menos pessimista. Ao orar, declarava-se como um amante:

Eu, esquecer-te!

Será pois o meu amor uma obra de memória?

Ainda que o tempo apagasse tudo das suas ardósias,

mesmo a própria memória,

as nossas relações manter-se-iam tão vivas como sempre, não te esqueceria.

Eu, esquecer-te!

De que lembrar-me então?

Pois se me esqueci de mim próprio

para me lembrar de ti;

se te esquecesse, logo seria obrigado

a recordar-me de mim próprio e,

ao fazê-lo, ia recordar-me instantaneamente de ti.

No caso de Jeremias, a situação é mais triste. Ainda que o Profeta tentasse, foi Deus que renunciou ouvi-lo.

Tu, pois, não intercedas por este povo, nem levantes por ele clamor ou oração, nem me importunes, porque eu não te ouvirei. Acaso, não vês tu o que andam fazendo nas cidades de Judá e nas ruas de Jerusalém? (Jr 7, 16-17)

Por fim, o Profeta é como o Artista cuja pele é vestida pelo Senhor Tempo. Impiedoso e soberano, não há quem consiga deixar de renunciar a si mesmo diante dele.

Chico Buarque conseguiu exprimir bem o destino dos Profetas/Artistas:

Imagino o artista num anfiteatro

Onde o tempo é a grande estrela

Vejo o tempo obrar a sua arte

Tendo o mesmo artista como tela.

Modelando o artista ao seu feitio

O tempo, com seu lápis impreciso

Põe-lhe rugas ao redor da boca

Como contrapesos de um sorriso.

Já vestindo a pele do artista

O tempo arrebata-lhe a garganta

O velho cantor subindo ao palco

Apenas abre a voz, e o tempo canta.

Dança o tempo sem cessar, montando

O dorso do exausto bailarino

Trêmulo, o ator recita um drama

Que ainda está por ser escrito.

No anfiteatro, sob o céu de estrelas

Um concerto eu imagino

Onde, num relance, o tempo alcance a glória

E o artista, o infinito!

Semelhante aos Poetas, os Profetas são intransigentes profissionais da denúncia.

Enquanto se acreditava na misericórdia irresponsável de Deus –

Vinde, e tornemos para o SENHOR, porque ele nos despedaçou e nos sarará; fez a ferida e a ligará. Depois de dois di