Natal: história e estórias


Conhecemos muito pouco sobre a história de Jesus. Chegaram até nós quatro evangelhos canônicos e algumas dezenas evangelhos ou fragmentos de histórias não-canônicos que narram, cada um ao seu modo e com suas inclinações, traços e aspectos da biografia, vida e personalidade do Cristo.

Nem todos têm narrativas sobre o nascimento e infância de Jesus, mas todos contam a história sob o ponto de vista da fé. Ou seja, quem quer que tenha sido o escritor sobre a vida de Jesus, esse alguém narrou os acontecimentos que sua memória selecionou com o propósito explícito de anunciar sua convicção em Jesus como o Messias esperado por Israel para salvar o povo de sua opressão e conduzí-lo a uma experiência nova de libertação integral.

Essa ideia religiosa não era novidade no tempo de Jesus. Há muito já se alimentava no povo da Bíblia uma ânsia fervorosa pelo nascimento daquele que haveria de salvar a nação. O Ungido (messias, em hebraico; cristo, em grego) seria uma espécie de agregador das esperanças históricas, políticas, sociais e, acima de tudo, escatológicas de Isarel. Ou seja, um ser que fizesse convergir em si todas as mais profundas expectativas salvíficas de um povo inteiro.

Muitos surgiram com essa marca e com algum tipo de promessa de realização disso tudo. Os séculos antes e depois da era cristã foram marcados pelo aparecimento recorrente desse tipo de personagem: o messias.

Quando os evangelistas Mateus e Lucas (os únicos entre os evangelhos oficiais a se debruçarem sobre tais narrativas) passam a narrar os antecedentes ao nascimento de Jesus e os episódios diretamente ligados ao natal (Mt 1 e 2, Lc 1 e 2), o fazem menos sob a ótica da História e mais sob o enfoque da Fé e da Teologia.

Os especialistas em Exegese têm revelado um dado interessante: os Evangelhos foram escritos “de trás para frente”, ou seja, as primeiras histórias narradas têm a ver com a morte e ressurreição de Jesus e, depois desse núcleo germinal donde brotam a fé e a Igreja, surgiram as narrativas sobre a vida (sermões, histórias, milagres etc) e, por fim, do nascimento e “infância” de Jesus. As primeiras histórias nasceram por último e funcionam como um preâmbulo sobre o fim. Qual introdução que é escrita depois de todo texto pronto, os evangelhos da infância funcionam como abertura, já antecipando o fim e o sentido de tudo.

Quem lê essas histórias deve ter ciência que está diante de Teologia e não de História; ou seja, que não será nunca possível reconstruir a história com base nessas narrativas, mas simplesmente captar a maneira pela qual os primeiros cristãos interpretavam a vida sob a presença de Jesus.

Embora muito se tenha escrito (e ainda se faça) sobre o Jesus da História, pouco sabemos sobre ele; o muito que temos é sobre o Cristo da Fé, um Jesus transfigurado pela Fé de muitas e muitas comunidades de judeus e estrangeiros que perceberam naqueles acontecimentos a mão libertadora de Deus na História.

Apenas para ilustrar, vale refletir sobre a concepção virginal de Jesus. Uma cristologia levada às últimas consequências deveria insistir sempre na humanidade de Jesus, como sempre revelou sua caminhada peregrina pela Palestina; mas nas narrativas da infância há um acento especial na paternidade divina e na maternidade humana, coroados por uma concepção virginal.

John Dominic Crossan, no livro God and Empire: Jesus Against Rome, Then and Now (2007), diz que: "há um ser humano do primeiro século, que foi chamado de Divino, Filho de Deus, Deus e Deus dos deuses, e cujos títulos foram Senhor, Redentor, Libertador e Salvador do Mundo. Os cristãos provavelmente irão pensar que esses títulos foram originalmente criados e aplicados exclusivamente a Cristo. Mas antes de Jesus ter existido, todos esses termos pertenciam a César Augusto".

Crossan entende que a adoção dessa terminologia pelos primeiros cristãos era uma forma de negá-los a César Augusto. Assim, eles tiravam a identidade do imperador e davam-na a um camponês, da periferia da sociedade.

Não era César, nascido de uma cesariana para preservar sua imaculada concepção, o esperado pela História; era o Menino choramingando no estábulo o verdadeiro Messias ansiado pelo Cosmo!

Eis aqui a beleza da Teologia, que nasce da Fé e a ela retorna para iluminá-la: fazer ver a História por seu avesso, onde os Césares são destronados pela sutileza das palavras e pela ironia da fé.

Por isso cantou Maria, mulher-encontro de Deus com o mundo: “depôs dos tronos os poderosos e elevou os humildes; aos famintos encheu de bens e vazios, despediu os ricos”!

O Natal é a celebração da inteligência da fé humana que soube converter o mau cheiro da estrebaria de Belém em alimento para enfentrar as agruras da História e acreditar na esperança como a palavra definitiva. Sempre há esperança!

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