A greve dos caminhoneiros

O cenário desses dias está, ao mesmo tempo, confuso e caótico. Além da confusão da falta de combustíveis e de itens importantes, convenhamos que há um caos de ideias: ninguém está entendendo muito bem o que está acontecendo. Outra coisa: o apoio aos caminhoneiros é grande. Esse é um ponto importante. É raro também. As coisas ficaram tão ruins no país que mesmo gente sem combustível ou comida aceita a privação porque vê, no movimento grevista, uma chance de mudar as coisas. E é claro que muitos oportunistas políticos vão embarcar nesse discurso também. A extrema direita, inclusive, tem disputado a simpatia do movimento. Há discursos de intervenção militar, por exemplo, bem inflamados. Isso é

Uma nova sociedade passa pela valorização do indivíduo

Há uma polarização equivocada sobre socialismo e liberalismo e, em algum sentido, sobre esquerda e direita. Por causa de governos corruptos e manobras que só atendem a interesses de uns poucos privilegiados, ou misturamos tudo como se fosse a mesma coisa, ou distinguimos tudo como se do outro lado nada prestasse. O liberalismo erra ao acreditar no livre mercado como instância de gerência da sociedade, como se essa entidade fosse capaz de autorregularização. Os desdobramentos dessa ideia dão origem a conceitos de estado mínimo, meritocracia, etc. E redundam na exclusão de multidões que não têm oportunidade da inclusão. Mas acerta quando enxerga no potencial dos indivíduos a força do desenvolv

O padre e a macumba

Ridicularizar e demonizar os ritos religiosos dos diferentes não é exatamente uma novidade. Sempre houve esse tipo de violência na história. A religião do império da vez sempre se auto-usurpou o título de verdadeira. E sempre se lançou numa ofensiva contra o diferente. A violência simbólica (e a ofensiva contra os símbolos) é uma arma, por vezes, mais potente que as de fogo. No Brasil, a relação entre o cristianismo do colonizador e as religiões de matrizes indígenas e, depois, africanas, sempre foi marcada por uma mescla de tensão e assimilação. O sincretismo religioso brasileiro é sinal de tolerância, convivência e, ao mesmo tempo, de violação e violência. Caboclos e orixás, para sobrevive

Pentecostes

Sempre gostei das simbologias do Pentecostes. Pela tradição hebraica, a beleza de shevuot, a celebração da recepção da Torá. Depois da Páscoa - da libertação do Egito - Israel recebeu nas areias do deserto os mandamentos que deveriam nortear a vida livre. Essa mensagem é muito profunda: a lei nasce da liberdade e ela mesma deve ser a garantia da liberdade. Toda lei verdadeira deve estar a serviço do ser humano e de sua autonomia. Em tempos de restrição de direitos, nada mais potente que a mensagem do Pentecostes para reclamar sempre e de novo o lugar de uma lei libertadora. Pela tradição cristã, Pentecostes está estampado na potência daquele discurso de Pedro ouvido e compreendido por es

NOVA FRIBURGO 200 ANOS: ENTRE O MITO, O PALANQUE E A CIDADE REAL

Quando uma cidade comemora 200 anos é óbvio que se deseja festa. Quando, todavia, há muita crítica e pouco engajamento é porque algo anda errado. Nova Friburgo celebra seu bicentenário mergulhada, infelizmente, num cenário de descontentamento, apatia e insensibilidade. A população - a massa real dos moradores da cidade (não apenas a meia dúzia que pensa que “forma opinião”) - carece de serviços básicos minimamente razoáveis. Por isso, quando, por exemplo, mais de 1 milhão de reais são investidos em shows e coquetéis é natural que haja reprovação. Mesmo que os shows estejam cheios (e provavelmente estarão mesmo), há uma reprovação geral nas escolhas e prioridades equivocadas. Não que não tenh

200 anos: da Suíça dos refugiados a Nova Friburgo dos enclausurados

As atividades sobre os 200 anos de Nova Friburgo têm me feito pensar também em temas da contemporaneidade. Refugiados e intolerância, por exemplo. O avô do meu avô chegou ao Brasil como refugiado. Movidos pelos ventos da necessidade, no século XIX, atravessou o oceano em condições degradantes - fugindo da fome, do desemprego e da miséria em que estava mergulhada a Suíça (a Europa em geral). Por aqui, parte dos seus descendentes - e de outras tantas famílias que na região se fixaram - prosperaram. Uns inclusive - de janelas fechadas para os ventos abolicionistas - sob a marca imoral da escravização de outros seres humanos. Seu neto, meu avô, também foi um retirante. Um homem alado pela

Guerras e Religião

Há alguns comentários sobre os recentes bombardeios na Síria e uma interpretação de que seriam cumprimento de profecias bíblicas (Is 17, p.ex.). Em outras palavras: obra de Deus. Parte da ideia que a Síria do texto é a mesma Síria de hoje e que ambas são merecedoras da ira divina. Isso revela desconhecimento nas áreas de história, exegese, hermenêutica e teologia. É de um anacronismo absurdo e ignorante. Além disso, esse tipo de interpretação da Bíblia carece de humanidade mesmo. É muita falta de compaixão, para dizer o mínimo. Esbarra no sadismo. Ainda que o sujeito não saiba nada sobre análise de textos antigos e de ciências da religião, deveria, ao menos, se perguntar sobre que Deus é ess

NADA É POR ACASO

Essa imagem me faz pensar em várias questões. A primeira tem a ver com a imprudência e a imperícia do motorista. Talvez (por puro achismo por enquanto - e correndo o risco de ser injusto) uma combinação irresponsável de alta velocidade e álcool. Mas a imagem também faz pensar no momento em que, simbolicamente, ocorreu o acidente. Às vésperas do 16 de maio dos 200 anos, um acidente de trânsito destrói o único (e modesto) sinal público dessa data que poderia ser tão significativa para toda a população. Nova Friburgo tem números alarmantes em termos de ocorrências de trânsito. Entre 2012 e 2014, estava entre os piores cenários do país, tanto em índices de alcoolemia quanto de ocorrência

Atacama: uma viagem de muitas descobertas

Viajei para o Deserto do Atacama dias atrás. Era um sonho. E, em algum sentido, uma aventura. De moto, a viagem exigia muito planejamento, preparo físico e psicológico, e uma boa dose de perseverança. Foram 8.700 km em mais de 100 horas de pilotagem, ao longo de 15 dias. Três países. Dezenas de cidades. Do Atlântico ao Pacífico. Serras, baixadas, desertos, rios e mares; frio, calor, chuva, sol, vento, umidade e altitude. Lugares, paisagens, pessoas, culturas. Experiências de conhecimento de mundo, de encontro com as pessoas e, especialmente, de descoberta de si mesmo. Superação de limites. Fomos um grupo de 9 amigos motociclistas (e mais 2 num carro de apoio). Saímos na quinta, 08/03, as 5h

+55 22 9 9996 1119

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