“Novo” ou “novidade”

Há uma diferença entre “novo” e “novidade”. Novidade é a notícia no jornal. É essa insana busca de ineditismo. Essa rotina desenfreada que inaugura algo sempre. É o modelo recente de telefone. É o consumo que exige experiências diferentes todos os dias. É o afã de estar na frente. De ter mais potência. De saber-se em dia com uma agenda ditada pela correria. É o último disco do artista. É essa onda descolada que demanda sintonia. Que espera saber de tudo, em tempo real. Que aguarda concordância, mesmo quando há questões a serem debatidas. É a pessoa de quem se enamora. É o desejo. É tornar as relações humanas relações de consumo. Novo, todavia, é diverso de novidade. Parecem-se. Con

2018 precisa ser novo

“Pra que nossa esperança seja mais que a vingança Seja sempre um caminho que se deixa de herança No novo tempo, apesar dos castigos De toda fadiga, de toda injustiça, estamos na briga Pra nos socorrer ...” (Ivan Lins) Fim de ano é época de renovação de esperanças. O simbolismo das festas de Natal e a magia da mudança de um dígito no calendário de anos promovem sentimentos de recomeço e transformação. E isso é bom: a vida humana é alimentada por símbolos e ritos; a sensação de recomeçar ajuda a recobrar forças. Mas há riscos implícitos nessa fé mágica que o ambiente de fim de ano cultiva. Riscos de se acomodar na falsa expectativa de que as mudanças serão automáticas e de se iludir com as nov

CARTA CAPITAL: Uma nova sociedade passa pela valorização do indivíduo

Texto publicado em Carta Capital https://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-socio/uma-nova-sociedade-passa-pela-valorizacao-do-individuo Há uma polarização equivocada sobre socialismo e liberalismo e, em algum sentido, sobre esquerda e direita. Por causa de governos corruptos e manobras que só atendem a interesses de uns poucos privilegiados, ou misturamos tudo como se fosse a mesma coisa, ou distinguimos tudo como se do outro lado nada prestasse. O liberalismo erra ao acreditar no livre mercado como instância de gerência da sociedade, como se essa entidade fosse capaz de autorregularização. Os desdobramentos dessa ideia dão origem a conceitos de estado mínimo, meritocracia, etc. E redund

NATAL: humanidade, simplicidade e diversidade.

O Natal contraria a lógica da religião e inverte seus valores: destrona o céu e dignifica o ser humano. Talvez seja por isso que tenha se reduzido sua festa a bolas e enfeites, porque a tentativa de sempre, nos discursos religiosos opressores, é banalizar a realidade. E, às vezes, a forma de fazer isso, por paradoxal que pareça, é por meio da divinização de valores, comportamentos e pessoas. Mas, apesar de tudo isso, o menininho nasceu do ventre de uma mulher. É o cúmulo da humanização. As histórias sobre a nascimento de Jesus, que estão nos Evangelhos (de Mateus e Lucas, precisamente), foram escritas bem depois das histórias de sua morte e de sua vida. Estão fartamente estilizadas e i

CARTA CAPITAL: A quem interessa a criminalização da política.

Texto originalmente publicado em Carta Capital, https://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-socio/a-quem-interessa-a-criminalizacao-da-politica O atual cenário político brasileiro é desafiador. A instabilidade é um ingrediente com o qual acostumamos a viver no país. Não bastasse a falta de direção e de um projeto consistente de sociedade, todos os dias há notícias de prisões e delações que denunciam o subterrâneo de uma prática política que mais se assemelha ao crime organizado e à formação de quadrilha. Há uma mescla de revolta, impotência e medo. Diante disso tudo, é razoável que haja muitos discursos sobre ‘renovação’. Há uma unanimidade quanto aos desafios que nos esperam nas eleições

Sobre Natal e consumo

Há em nós um desejo intenso por superação. Não há quem não queira, de alguma forma, ir além do estado atual das coisas. É o que, filosoficamente, se denomina transcendência. Embora seja tema predileto nos discursos religiosos, transcendência é faculdade humana e histórica, antes de ser exclusivamente teológica. Esse impulso é que faz mover a sociedade. É o que torna possível o avanço do conhecimento, da tecnologia, das relações e, acima de tudo, da consciência. Superar significa, nesse sentido, mirar os olhos adiante, naquele ponto onde a utopia se encontra com a realidade e a ilumina. As religiões participam dessa busca utópica porque entendem que sua verdade não é deste mundo. Ao contrário

Natal - sobre Deus e a simplicidade

Escrevo sobre o Natal com muito prazer e alguma dor. Esse exercício me ajuda a manter em dia a fé e os pés. De um lado, a beleza e a ternura do presépio e sua simbologia; de outro, o incômodo da dúvida sobre um Galileu do primeiro século, cujas histórias e experiências se parecem tão pouco com as dos deuses. Essa mescla, a mim, me é muito saudável. Fé e dúvida. Esperança e resignação. A forma tradicional de se contar as histórias do Natal faz a gente acreditar em coisas muito simples e isso faz bem ao coração. Faz crer no poder da simplicidade de José e Maria. Faz confiar na força do amor entre as pessoas. Faz compreender a harmonia profunda que há entre gente, bichos, estrelas e plantas. Ab

Natal é política

As histórias em torno do Natal foram “domesticadas” ao longo do tempo. Pela tradição das igrejas, foram espiritualizadas ao ponto de não dizerem nada de concreto sobre a vida das pessoas; pela sociedade e seus mecanismos políticos e econômicos foram transformadas em propaganda e incentivo para o consumo desenfreado. O presépio se tornou um teatro inofensivo e o menino da manjedoura uma referência estéril de uma noite de festa e comilança. Os textos bíblicos alusivos ao Natal são símbolos teológicos de tradições religiosas muito distintas entre si – mas todas diametralmente opostas à pasteurização que veio a se tornar o Natal do consumo e ideologicamente orientado para a manutenção do status

Por que (não) celebrar o Natal?

Anos atrás o Papa veio a público e disse que não há clima para a celebração de Natal. Afirmou categoricamente: "Estamos perto do Natal: haverá luzes, festas, árvores iluminadas, presépios, (…) mas é tudo falso. O mundo continua em guerra, fazendo guerras, não compreendeu o caminho da paz." Uma atitude, no mínimo, corajosa. Vinda de um Papa, mais ainda. Que bom haver entre nós uma liderança que foge do lugar comum e, em algum sentido, subverte a ladainha do politicamente correto. O Papa tem razão. Nosso tempo está de cabeça pra baixo mesmo. Irresponsabilidade pública nas pequenas e grandes coisas, terrorismo, crise política, arrocho econômico; enfim, um tempo de desesperança. Mas discordo qua

O dia em que Deus nos visitou

O fim da tarde estava mais abafado que o normal. A viagem cansativa estava chegando ao fim. José caminhava pelas vielas em busca de um quarto. A cidade estava muito cheia; gente de todo canto se amontoava esperando a chance de se apresentar para o censo. Maria estava aflita. O tempo estava próximo. O calor que sentia indicava que seu corpo queria descanso. A barriga baixa não deixava mais dúvidas: a criança já se anunciava. Segurou firme nos braços de José. Seu olhar denunciava: precisavam de um canto sossegado e mãos experientes para ajudar a ter uma boa hora. Estavam tensos e meio perdidos na correria daquela pequena multidão. A noite já se avizinhava e nenhuma hospedaria se lhes abria as

VAIDADE

No livro do Qohélet, há uma expressão que se repete diversas vezes: "tudo é 'hebel'". As Bíblias em português mais usadas traduzem 'hebel' por 'vaidade'. 'Hebel' é o mesmo que efêmero, passageiro, volátil. Trata-se da impermanência. Da vida em sua dimensão de transitoriedade. O Qohélet não poupa críticas a forma como a vida se desenha. Riqueza, poder, sabedoria e, mesmo, a espiritualidade são "hebel". Nesse sentido, ler o Eclesiastes é um exercício de profundo realismo. E ficam os questionamentos: até onde vai o altruísmo e onde começa a vaidade? Aliás, em que medida ele próprio, o altruísmo, não é um disfarce politicamente correto da vaidade e sua efemeridade? Até onde vai o espírito

Um menino nos nasceu ...

O nome é uma sina. Quase um peso. Quando os pais o escolhem indicam uma série de seus sonhos e ambições. E são os filhos os que devem cumprir esses desígnios! Agora, imagine alguém com um nome que significa "majestoso", "exaltado", "venerável"? A situação é ainda mais desafiadora. Augusto nasceu - antes do mês, do dia e da hora marcada - em 08 de dezembro de 2005. Reclamou mais espaço ainda de madrugada. E consigo trouxe o susto, o espanto; e, imediatamente, o descanso e o encantamento. Augusto virou Tusto. Seu irmão mais velho o humanizou de imediato. Se os nomes desejam o céu, os apelidos acomodam a realidade. Sua "majestade" cedeu espaço, dia a dia, ao sorriso plebeu de quem desper

Gabriel, a história de uma notícia

Quando Gabriel procurava pela casa humilde na cidade de Nazaré, estava apenas culminando um desejo há muito planejado no coração de Deus. Desde que o mundo ainda experimentava sua organização germinal, quando o Criador ainda pincelava os primeiros traços da Natureza e dos seres vivos mais embrionários, a ideia divina já indicava o termo do Cosmo e da História. Porque tudo foi criado por Ele, n´Ele e para Ele! Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. (Jo 1, 2-3). Qual arquiteto que planeja uma edificação, o Criador desejava a coroação do Todo com a marca que fosse Ele mesmo. Qual artista que assina com sangue sua tela, ou

A quem interessa a criminalização da política?

O atual cenário político brasileiro é desafiador. A instabilidade é um ingrediente com o qual acostumamos a viver no país. Não bastasse a falta de direção e de um projeto consistente de sociedade, todos os dias há notícias de prisões e delações que denunciam o subterrâneo de uma prática política que mais se assemelha ao crime organizado e à formação de quadrilha. Há uma mescla de revolta, impotência e medo. Diante disso tudo, é razoável que haja muitos discursos sobre ‘renovação’. Há uma unanimidade quanto aos desafios que nos esperam nas eleições de 2018. Aliás, tem se alimentado quase que uma utopia quanto as próximas eleições. E aí surgem problemas e desafios sérios. O primeiro tem a ve

Natal fake

O Natal é uma festa de muitos símbolos. Árvore, bolas, luzes, comidas e presentes. Todos estão direta ou indiretamente ligados a culturas do hemisfério norte. Boa parte deles remonta a religiões muito antigas que depois foram assimiladas e ressignificadas pelo Cristianismo. Toda celebração, é claro, precisa remontar para antes de si e apontar para além de si. Precisa conjugar memória e esperança. Por isso, mesmo em outra cultura, vale a pena resgatar a simbologia desses elementos todos. Há lições valiosas a serem trazidas à tona. O problema é que, no Brasil, simplesmente importamos tudo isso e sequer nos ocupamos de buscar nas culturas populares locais - indígenas e africanas, por exempl

Natal é Política

As histórias em torno do Natal foram “domesticadas” ao longo do tempo. Pela tradição das igrejas, foram espiritualizadas ao ponto de não dizerem nada de concreto sobre a vida das pessoas; pela sociedade e seus mecanismos políticos e econômicos foram transformadas em propaganda e incentivo para o consumo desenfreado. O presépio se tornou um teatro inofensivo e o menino da manjedoura uma referência estéril de uma noite de festa e comilança. Os textos bíblicos alusivos ao Natal são símbolos teológicos de tradições religiosas muito distintas entre si – mas todas diametralmente opostas à pasteurização que veio a se tornar o Natal do consumo e ideologicamente orientado para a manutenção do status

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