O que as religiões tem a ensinar sobre política, mídia e sociedade

A religião de Israel se forjou a partir do diversificado sincretismo de povos e crenças que aprenderam a resistir ao poder opressor das cidades e reinos do Antigo Oriente Próximo. Essa foi, grosso modo, sua gênese. Uma coalizão de resistência. Apesar de haver, ao longo da história, a tendência de se institucionalizar, Israel preservou boa parte da energia original que o fez peregrino pelo deserto. Apesar de sua divindade, seus sacerdotes, seus edifícios e sua dinâmica social, essa mesma expressão religiosa se construiu sempre na contramão da institucionalização. Aliás, o que se preservou dela foi exatamente essa vitalidade clandestina. Deus não tinha nome. Reis e sacerdotes eram questionados

Sobre (in)competentes

Competência, segundo a Psicologia, é a capacidade para realizar. É fazer com que algo que não exista venha à tona e ser torne real. Competência é a arte de fazer nascer coisas novas. Por outro lado, nos termos do Direito e da Administração, competência é a delimitação do poder dado a alguém ou a uma instituição. Num caso, competência é o que expande a mente e cria universos novos e cheios de possibilidades. Noutro, é aquilo que determina os limites de ação e responsabilidade. Tanto num quanto em outro caso, competência é a determinação do que fazer e do que não fazer. É, em outras palavras, o limiar entre o sim e o não. Competente é o que sabe fazer, e, além disso, sabe o que lhe cabe ou não

Política & Gestão (o engodo da polarização)

Há uma má vontade generalizada com os políticos; com a política, portanto. O que é, até certo ponto, compreensível. Sob o discurso de combate à corrupção (que, óbvio, precisa ser superada), tem se levantado a tese da gestão eficiente. Como se a administração puramente técnica fosse a fórmula mágica de controle da corrupção política. Criou-se equivocadamente a polarização "política versus gestão". Mais do que um erro, por trás dessa tese se aloja uma bem orquestrada reformulação de conceitos políticos muito retrógrados e diminuidores de direitos. A questão é, na verdade, que gestão é apenas ferramenta de trabalho. Antes dela, é preciso um projeto. E é isso que se denomina política. A política

Ocupação: brasileiro

As palavras dizem muito mais do que o costume de seu uso pode supor. “Brasileiro”, por exemplo, é um caso interessante. O sufixo “eiro” não é a forma usual para gentílicos – que indicam a procedência ou a naturalidade de alguém. A forma ‘correta’ seria “brasiliano”, “brasilense” ou mesmo “brasilês”. A questão é que a palavra, ao nascer, designava uma ocupação (uma “profissão”) e não uma origem. “Brasileiro” é o português que ganha a vida trabalhando no negócio “Brasil”. Nas palavras de Silveira Bueno: “No tempo colonial, ‘brasileiro’ era adjetivo que indicava profissão: tirador de pau-brasil. Como tal, sendo esses homens criminosos, banidos para o nosso país por Portugal, o adjetivo tinha si

EMPREENDEDORISMO, SUSTENTABILIDADE e RELIGIÃO

Essas duas ideias (empreendedorismo e sustentabilidade) têm me incomodado bastante nos últimos tempos. Talvez seja só implicância. Mas desconfio que esses conceitos escondam mais do que revelem e transformem. Sob a ideia do empreendedorismo, me parece, se escondem os pilares da ideologia que sempre nos dominou, desde os primórdios da tradição judeo-cristã: a lógica de que o mal existe porque o bem não encontrou lugar. A máxima que afirma ser o próprio indivíduo o responsável por seu sucesso e, por conseguinte, por seu fracasso. A ideia de que tudo nos é possível, desde que haja esforço, foco e muita criatividade. Parece coisa de religião (e acho mesmo que o empreendedorismo seja o discurso d

Sobre políticos e técnicos

Muito se tem dito nos últimos tempos sobre a necessidade de habilidades técnicas na administração pública. E isso, sempre, em detrimento das características puramente políticas. Como se o técnico devesse se sobrepujar ao político. Ou como se o político, por si só, fosse menor e, até, ruim. Na verdade, o problema está na compreensão que temos sobre técnica, por um lado, e política, por outro. Técnica é o conjunto de procedimentos que tem como objetivo obter um determinado resultado. Técnico é aquele que, conhecendo um determinado campo do saber e da prática, envida seus esforços no sentido de obter os melhores resultados naquela tarefa específica. O termo política, por seu turno, como se sabe

Sobre beleza e enigma

Meditações sobre a Palavra Palavra prima Uma palavra só, a crua palavra Que quer dizer Tudo Anterior ao entendimento, palavra Palavra viva Palavra com temperatura, palavra Que se produz Muda Feita de luz mais que de vento, palavra Palavra dócil Palavra d'água pra qualquer moldura Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa Qualquer feição de se manter palavra Palavra minha Matéria, minha criatura, palavra Que me conduz Mudo E que me escreve desatento, palavra Talvez à noite Quase-palavra que um de nós murmura Que ela mistura as letras que eu invento Outras pronúncias do prazer, palavra Palavra boa Não de fazer literatura, palavra Mas de habitar Fundo O coração do pensamento, palavra. (Chico

Sobre o Plano Nacional de Educação

Você conhece o PNE? "Uma das metas do PNE determina que todas as crianças de 4 a 5 anos deveriam estar matriculadas na escola até 2016. Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), que são de 2015, mostram que a taxa de atendimento nessa faixa etária é de 90,5%. O cumprimento real da meta só poderá ser aferido quando a Pnad 2016 for divulgada, mas o relatório da Observatório destaca que o percentual de 9,5% restante representa cerca de 500 mil crianças dessa faixa etária fora da escola." https://www.terra.com.br/noticias/educacao/plano-nacional-de-educacao-completa-tres-anos-com-apenas-20-das-metas-cumpridas,6f531e0f0f98156d41a01a8cafab7b91zxznp0uu.html #pne #

RUBEM ALVES

RUBEM ALVES Hoje faz três anos que ele faleceu. Lembro-me do dia de sua partida com um misto de sentimentos. Foi muito triste - semelhante ao que já senti com a partida de pessoas da família. Minha proximidade com o Rubem era espiritual. Dessas que a gente alimenta por pura comunhão de ideias, reflexões, críticas, inquietações e dores. Li as coisas que o Rubem escrevia desde a adolescência. E, por orientação dele, descobri um universo inteiro: literatura, cinema, filosofia, poesia, música e, claro, teologia. Teologia libertadora. Por causa dele, por comungarem de coisas em comum, conheci meus melhores amigos. E a vida me foi pródiga: conheci pessoalmente o Rubem. Dialogamos. Reclamamos. Bri

ALEGORIA DAS CARROÇAS

(ou: metáfora sobre a inveja) Era uma vez uma cidade. Há muito tempo. Num lugar bem distante. O sonho da gente daquela cidade era ter uma carroça passeando pelas ruas da vila. Mas carroças eram coisa de cidade grande. Era muito difícil se realizar aquele sonho. Houve muitas tentativas de se levar uma carroça para a cidade. Muitas em vão. Um dia, porém, uma gente meio despretensiosa, que pensava grande, resolveu tentar de novo. E não é que conseguiram? E sabe que não era qualquer carroça; era uma carroça quase carruagem. Alegria geral!? Que nada ... nem tanto. Teve gente que foi, sim, pra rua aplaudir a carroça passar. Mas houve os que foram mesmo para vaiar. Teve quem foi apenas para espreit

GESTÃO ESCOLAR DEMOCRÁTICA

Em 2016, tivemos uma página delicada na luta pela democracia e por uma gestão efetivamente participativa. A câmara dos vereadores aprovou emenda que modifica a lei 3.989/11 e garantiu aos diretores de unidades escolares mandatos de 2 anos com direito a reeleição (indefinidamente). Foi um retrocesso. O papel da direção de unidade escolar é fundamental para a garantia da qualidade do processo de ensino–aprendizagem. A direção tem papel de liderança – não no sentido de chefia ou comando, mas, acima de tudo, de representação delegada de um projeto maior que deve ter, necessariamente, a participação de toda comunidade escolar (alunos, professores, profissionais do apoio, pais, comunidade, poder p

Sobre autores e textos

Escrever não é, somente, simples ferramenta de comunicação. Não é possível apenas lançar mão de signos e fazê-los dizer isso ou aquilo, mecanicamente. Essa não é a vocação da escrita. Escrever é fazer escolhas; ao optar por essa ou aquela palavra, se faz uma espécie de seleção ou recorte. Ou seja, diante da folha em branco, o autor faz opções - conscientes ou não - pelos rumos que seu texto tomará. E, ao se permitir escolher, empresta ao texto uma autonomia toda especial. Não que o texto, nesse primeiro momento, passe a ter vida própria já, mas que sua mensagem criará uma realidade específica e, de certo modo, distinta da concretude do aqui e agora. São nesses termos que se pode dizer que um

Direitos humanos

Os tempos difíceis que vivemos polarizaram tudo. Até os grandes avanços que, a duras penas, conseguimos lograr estão sendo questionados de todos os lados. Instalou-se a falsa ideia de que quem defende determinadas bandeiras está de um lado e quem defende outras está de outro lado de uma disputa. Nós e eles. Isso ganhou maior expressão no debate cada vez mais acalorado sobre direitos humanos, como se essa “bandeira” fosse partidária. Não é. Não pode ser colocada como tal, sob pena de perdermos todos. Não bastassem as discussões teóricas e a troca ríspida de opiniões, os atos de violência (em todas as suas expressões) estão cada vez mais frequentes, sim. A sensação que se tem – pelo menos por

VOCÊ SABE O QUE É ESTADO LAICO?

No mundo inteiro, o ideal do Estado laico gera polêmicas. Nos últimos anos, foram registrados diversos casos em que a liberdade religiosa se chocou com a ideia de laicismo, gerando protestos. Ocorreu na França, com a proibição do uso do véu, na Alemanha, com a proibição de freiras de usarem hábito em escolas e repartições públicas e também aqui no Brasil, onde foi discutida a questão da presença de crucifixos em repartições públicas, entre outros assuntos. Afinal, o que significa um Estado ser laico? Vamos apresentar esse significado, as origens históricas do laicismo e como o Brasil se apresenta dentro deste contexto. Clique aqui: http://www.politize.com.br/estado-laico-o-que-e/ Embora prot

Sobre leitura e leitores

"Há dois tipos de leitores: Os que cuidadosamente passam através de um livro, e os que, com igual cuidado, deixam que o livro passe através deles." (Douglas W. Jerrold) Ler é uma experiência cultural extraordinária. Cultural porque não dispomos das competências leitoras naturalmente; construímos esse arsenal de habilidades e códigos ao longo do tempo das gerações e da vida de cada indivíduo. Extraordinária porque sempre, necessária e inexoravelmente, foge às regras e protocolos pré-estabelecidos; ler, por princípio, exige disponibilidade para encontrar o novo. Interessa-me, ainda, a originalidade de escrever. Não a tarefa de narrar uma história ou discorrer sobre um tema, mas o ato em si de

Sobre a leitura da Bíblia

Bíblia é uma palavra no plural. Livros. Biblioteca. Conjunto de textos. De épocas e locais distintos. Bíblia é pluralidade, portanto. Lê-la é experiência de devoção, sim. Mas vai além disso. É um exercício de despojamento. Há mais incertezas e dúvidas do que portos seguros. Sua inspiração reside, em algum sentido, em sua abertura. Os textos são de mais de dois milênios atrás. Os originais autográficos não existem mais. Na melhor das hipóteses, o que temos são cópias de cópias de cópias. E, além disso, cópias com razoáveis variantes entre si. Umas, sem relevância. Outras, com considerável diferença que interferem nos significados. O trabalho do exegeta debruça-se exatamente sobre isso. Escolh

SOBRE A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL

Porque há tanta gente capaz de defender a questão? É claro que os índices de violência e a experiência da impunidade promovem esse tipo de sentimento. É quase como um grito coletivo por justiça, ou por vingança. Explica-se. Não sei se justifica. Os números acenam para uma realidade complicada no Brasil. Nos últimos de anos, houve um aumento expressivo no quantitativo de encarcerados. E um incremento ainda maior nas estatísticas da violência. Ou seja, mais cadeia não significa necessariamente menos violência. A sociedade está mais insegura, apesar de estar havendo cada vez mais prisões. Além disso, o sistema prisional brasileiro. Um dos mais ineficazes do planeta. Uma realidade de superlotaçã

Educação X Saúde; Autoridade X Doença

As últimas décadas testemunharam mudanças na forma de fazer educação. Primeiro, porque há cada vez mais discussão sobre o papel e a autoridade do professor. Segundo, porque cada vez há mais profissionais de áreas afins interagindo nos processos educacionais. Não há dúvidas que isso tudo tem seu aspecto positivo. Já se foi o tempo em que a sala de aula era considerada espaço inalienável do professor. Ficou para trás a lógica da coerção como ferramenta pedagógica. Da mesma forma, faz parte do passado a responsabilização exclusiva do professor no que tange ao sucesso ou fracasso de estudantes. Sabe-se, hoje, haver mil e uma questões de ordem social, psicológica, orgânica e física que interferem

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